
O descompasso na contabilização de casos positivos de coronavírus entre a Secretaria Estadual da Saúde (SES) e os municípios levou Bento Gonçalves a registrar um estouro de infecções confirmadas nas estatísticas oficiais. A cidade serrana tinha 24 testados positivos até a última sexta-feira (1º), quando, de uma só vez, ingressaram 40 novos casos, elevando para 64 o total. Nesta segunda-feira (4), com o acréscimo de mais um positivo, a contagem chegou em 65 confirmados e três óbitos até as 22h.
O fato é que os 40 casos ficaram represados e se referem a testes cujos resultados foram conhecidos entre 13 e 29 de abril, uma janela de 17 dias. As testagens foram realizadas em um laboratório privado que possui convênio com o Hospital Tacchini, referência da cidade para o coronavírus. A SES, contudo, não aceita automaticamente os resultados de laboratórios privados. Somente na última sexta-feira a secretaria obteve as contraprovas do bloco de exames do laboratório, permitindo que os números fossem, finalmente, contabilizados conjuntamente.
A SES e a prefeitura de Bento Gonçalves sustentam a mesma versão para o salto de 40 casos confirmados em um só dia. Agora, diz a pasta, os próximos testes vindos deste laboratório conveniado com a rede hospitalar da cidade devem ser validados automaticamente, evitando acúmulos.
"No município de Bento Gonçalves, há cerca de 20 dias alguns exames começaram a ser encaminhados para análise em uma rede de laboratório privada. Após a liberação da contraprova e o atendimento a alguns critérios técnicos, na última sexta-feira (1º) a Secretaria da Saúde passou a considerar os positivos desse laboratório como válidos, por isso houve, na data, a inclusão de uma quantidade maior de casos de uma só vez, mesmo que distribuídos ao longo de vários dias", afirma a SES, em nota.
Discrepância continua
Mesmo com a resolução do impasse em torno do laboratório privado, os dados da prefeitura de Bento Gonçalves e da SES seguem discrepantes. Enquanto o governo estadual contabiliza 65 casos confirmados para a cidade, a gestão municipal assegura estar com 117, quase o dobro. O motivo da diferença se refere a testes rápidos e de PCR feitos pela prefeitura e ainda não validados pela SES. Esse problema também é verificado em outros municípios gaúchos.
— Fizemos cerca de 800 testes na cidade, entre os rápidos e os PCRs. A tabela do Estado está subestimada. Temos o dobro do que estão nos dando — diz o prefeito Guilherme Pasin (Progressistas).
Ele afirma que o município está fazendo busca ativa para testar, indo atrás de habitantes que já procuraram a rede de saúde e apresentaram sintomas, mas não necessitaram de internação por apresentarem quadro de menor gravidade.
— Essa estratégia faz com que os números subam, mas é a verdade — afirma Pasin.
A SES, em nota, disse que "assim como os demais municípios do Estado, Bento Gonçalves ainda segue com uma diferença nos casos em relação à SES em virtude dos testes rápidos".
Salto nas estatísticas
Com os dados recentemente somados, Bento Gonçalves deu um salto no contexto gaúcho de coronavírus, subindo para o posto de quinto município mais afetado nas estatísticas oficiais. Se considerados os 117 casos confirmados contabilizados pela prefeitura, Bento Gonçalves se aproximaria de Lajeado, uma das regiões mais atingidas e que recebeu determinação de fechamento do comércio em 30 de abril devido ao grau de disseminação do vírus.
Os números recentemente elevados de Bento Gonçalves podem, segundo fonte da Secretaria de Planejamento, Orçamento e Gestão, impactar a região da Serra no sistema de classificação de gravidade, o que está previsto na proposta de distanciamento controlado elaborada pelo governo estadual.
De acordo com os critérios, as regiões são classificadas pelas bandeiras amarela, laranja, vermelha e preta, sendo as duas últimas destinadas aos casos mais críticos. Nas regiões de Lajeado e Passo Fundo, únicas classificadas na bandeira vermelha na primeira rodada de análise, o governo estadual determinou o fechamento do comércio por decreto.
Na primeira simulação pelo distanciamento controlado, que deve entrar em vigor na primeira quinzena de maio, a região da Serra ficou na bandeira laranja, o que permite mais flexibilizações na rotina. No entanto, foram utilizados os números disponíveis até 27 de abril para definir a classificação. Depois disso, houve o crescimento de contaminados em Bento Gonçalves. Em Garibaldi, também na Serra, são 28 positivos e dois óbitos. Neste município, foi registrada elevação devido a um foco de coronavírus no frigorífico Nicolini. Em contrapeso, Caxias do Sul, a maior cidade da Serra, tem números moderados para o seu porte: 54 casos confirmados e um óbito.
No primeiro esboço do distanciamento controlado, os critérios que fizeram baixar a classificação da Serra para uma bandeira mais amena foram justamente o número de óbitos e de casos confirmados nos últimos sete dias, até então controlados, e a quantidade de leitos de UTI para a população de idosos.
Bandeira laranja
Pasin não acredita que a Serra possa evoluir em bloco para a bandeira vermelha. Ele destaca que Bento Gonçalves conseguiu ampliar sua capacidade de atendimento, destacando os 40 leitos de isolamento e internação que foram construídos junto à Unidade de Pronto-Atendimento (UPA), com possibilidade de serem ampliados para 80. Ele ainda ressaltou a montagem de oito "minileitos" de UTI, somando 75 respiradores disponíveis na rede municipal. O Hospital Tacchini, diz o prefeito, providenciou mais 10 leitos de UTI, totalizando 30 em suas dependências.
— Não tenho nenhum receio de que possamos ter bandeira vermelha. Ou vou pressupor que todo o Estado terá bandeira preta em questão de uma semana e meia. Tenho que olhar para os casos ativos, a estrutura de retaguarda, os leitos de UTI, os respiradores. Temos de subtrair os curados do total de casos. E temos de cruzar os casos ativos de coronavírus com os leitos de UTI, de internação e com a quantidade de respiradores. Aí teremos um visão correta de cada região — argumenta Pasin, assegurando que a situação de Bento Gonçalves está estável, apesar de "exigir pilotagem diária para que os dados não fujam do controle".
Capital e Serra
Em 15 de abril, o governador Eduardo Leite anunciou que as regiões metropolitanas de Porto Alegre e da Serra seriam as únicas a manter o comércio e os estabelecimentos não essenciais fechados como medida de distanciamento. Pasin foi um dos principais articuladores de uma ofensiva que convenceu Leite a recuar, autorizando flexibilizações na Serra no dia seguinte, menos de 24 horas depois do anúncio de manutenção das medidas rigorosas. Desde então, Pasin permitiu a retomada do comércio na cidade, além de serviços como academia de ginástica, com a observação de critérios de saúde, de controle sanitário e com o uso de máscaras. O prefeito avalia que o aumento de casos na cidade "pode ter certa relação com a reabertura do comércio", mas pondera que é preciso ter olhar mais abrangente.
— O número de infectados não é o mais relevante. O que deve balizar é a estrutura de retaguarda. O número só vai crescer, mas a estrutura de saúde que dispomos é o que deve conduzir as ações. Se for me basear somente no número de casos confirmados, vou ficar desesperado. Mas não é isso. Temos de olhar para o percentual de ocupação das UTIs no município, que está em 65% entre rede pública e privada — analisa o prefeito.



