Eles sempre fizeram a diferença, mas ganharam mais importância na pandemia. Na maior crise sanitária das últimas décadas, voluntários seguiram ajudando mesmo quando todos eram incentivados a se resguardar e a ficar mais tempo dentro de casa. Alguns até deram um jeito de contribuir mantendo distância; outros se paramentaram com máscaras, luvas e álcool gel e foram às ruas.
No Dia Nacional do Voluntariado, comemorado neste sábado (28), GZH conta breves histórias de quem vê mais sentido na vida quando faz um esforço para mudar a dos outros.
Um deles é Gabriel Hoberrek, do Cozinheiros do Bem. Há dois anos à frente das panelas do grupo que oferece comida a moradores de rua de Porto Alegre, o arquiteto de 46 anos sentiu, como todo mundo, um grande medo quando os noticiários passaram a alertar sobre o perigo do coronavírus. Fechou seu escritório quando a Capital registrou o primeiro caso, em março do ano passado, mas não pensou em deixar de cozinhar para centenas de pessoas debaixo do Viaduto da Conceição, onde os voluntários servem café da manhã e almoços aos sábados.

Os Cozinheiros do Bem acabaram sofrendo algumas baixas na pandemia: de cerca de 50 colaboradores, o grupo passou a contar com uma média de 25. Muitos eram idosos que não podiam se arriscar. A família de Hoberrek até tentou dissuadi-lo, pelo medo de que ficasse exposto ao vírus, mas ele resistiu e seguiu preparando o que pode ser a única refeição do dia para muita gente.
— Eles dependem de nós, contam com aquilo. E quando uma pessoa conta com aquilo, tu se sentes mal em não cumprir — diz.
A fome e a pobreza agravadas pela pandemia fizeram o projeto se expandir: em vez de alimentar só os moradores de rua, os voluntários passaram a distribuir, a cada domingo, cestas básicas a comunidades carentes. Inspirado na avó, que era voluntária quando viva, Hoberrek acha difícil ver uma pessoa à míngua e não fazer nada:
— Chega uma fase da vida em que não se aceita mais a desigualdade social, se quer enfrentar esse sistema. Não consigo mais passar por uma pessoa e não ajudar.
A impossibilidade de se reunir quase paralisou as atividades da ONG Sonhar Acordado, que desde 2016 prepara festinhas para crianças em situação de vulnerabilidade. Eram momentos de comemoração entre os voluntários e os meninos e meninas atendidos por instituições de bairros periféricos da Capital, que comiam lanches e se divertiam com brinquedos levados até eles, mas também ouviam falar de valores como esperança e bondade.
Como o lema do período é não se aglomerar, os eventos infantis tiveram um fim, e a ONG precisou encontrar uma saída. Passou a fazer a "festa na caixa", entregando às crianças embalagens com guloseimas, livros e outros presentes, uma forma de seguir dando alegria a vidas marcadas pela privação.

Vinculada ao projeto desde 2017, a professora de biologia Dominique Vieira de Avila, 26 anos, entende que insistir na ajuda é característica de quem faz voluntariado.
— Já era a nossa ideia superar as coisas adversas. Não faria sentido parar as atividades justamente neste momento tão difícil. É importante levar nossos valores para as crianças — diz ela.
A Sonhar Acordado também perdeu voluntários na pandemia. Pessoas que auxiliavam justamente para ficar em contato com os pequenos, dando e recebendo carinho, acabaram perdendo o interesse quando a ONG encerrou as festinhas e seguiu com a entrega das caixas.
— Temos o desafio de buscar voluntários para continuar nessa situação em que estamos. Mesmo a distância, as crianças estão mostrando que isso é bom para elas. Ficam alegres com esse carinho — garante Dominique.
A chance de fazer parte é o que motiva Oleane Marlis Duarte, 48 anos, estudante de enfermagem da UniRitter. Quando Porto Alegre começou a vacinar a população contra a covid-19, no início do ano, a técnica de enfermagem não teve dúvidas de que queria contribuir para a saída da crise que botou o mundo em alerta.

Quando pode, veste seu jaleco e atua como vacinadora voluntária nos pontos de imunização da Capital, principalmente nos drive-thrus. Em um dia de contribuição, chega a aplicar entre 300 e 400 injeções. Já participou de 15 ações de imunização, sem ganhar nada em troca, e deve estar presente no Rolê da Vacina deste sábado (28), quando 56 voluntários vão aplicar doses nos interessados que se dirigirem à Orla do Guaíba.
Se resta dúvidas de que Oleane se dispõe pelo simples desejo de ajudar, ela garante: já cumpriu todas as horas complementares necessárias para pegar o canudo no fim da graduação.
— Vou pelo voluntariado, mesmo. Nós, enquanto estudantes da área da saúde, temos que participar da ação de imunização. É um sentimento de gratidão, uma sensação boa de estar ajudando. Só satisfação de ver a felicidade no rosto de quem recebe a vacina. Isso é o que mais me comove — diz.
Prova de que voluntários buscam outro tipo de compensação.
