
Veio mais curto do que se esperava o programa de socorro do Banco Central (BC) e do Tesouro Nacional para financiar o pagamento de folhas de salário. Havia expectativa de que cobrisse até quatro meses de salário, veio com dois. O pulo do gato do pacote é o fato que o Tesouro Nacional vai assumir 85% do risco desse crédito. Isso significa, em bom português, que se quem tomou o empréstimos não pagar, quem vai bancar é o caixa da União. Serão, por enquanto, R$ 36 bilhões de dinheiro público.
Essa é a maior virtude do socorro, acima de tudo em um momento que há dificuldades para contratar financiamento nos bancos, exatamente por causa do aumento do risco no mercado financeiro. Como descreveu o presidente do BNDES, Gustavo Montezano, é o Tesouro que "arca com os ganhos e as perdas da operação".
Os recursos são para empresas que faturam entre R$ 360 mil e R$ 10 milhões, tem dotação de R$ 40 bilhões e cobre pagamentos de até dois salários mínimos ao mês. Desse total, o Tesouro vai bancar R$ 36 bilhões. Também são positivos a taxa de juro, igual à Selic, de 3,75% ao ano, o prazo de carência de seis meses – quando se imagina que a crise terá ficado para trás – e prazo de pagamento de até 36 meses.
No entanto, o maior problema do anúncio é exatamente sua concepção: ao que tudo indica, será esta a resposta do governo para o impasse na suspensão dos contratos de trabalho por até quatro meses – daí a expectativa de mercado de que o tempo coberto pelo financiamento fosse de igual duração. Outro motivo de preocupação veio da resposta do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, sobre o tempo de implementação: "algumas semanas". O pagamento de salários, no Brasil, tem de ser feito no quinto dia útil do mês, que em abril será no dia 7. Como as empresas vão garantir esse prazo se a liberação levar "algumas semanas"?
Havia a possibilidade de injetar dinheiro público na veia do sistema produtivo, via Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), o que faria todo sentido, ou até do seguro-desemprego, como chegaram a cogitar assessores do ministro Paulo Guedes. Responder com financiamento a uma situação de calamidade nacional, como decretada pela União, por mais que o pagamento possa ser relativizado, é endividar ainda mais as empresas em um momento de interrupção de receita, cancelamento de pedidos e extrema incerteza sobre o futuro.
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