
A lavoura de trigo foi terreno fecundo só para lamúrias neste ano. A cultura, que nas últimas três safras teve problemas de clima ou preço, em 2017 conseguiu sofrer com ambos. O resultado é um novo desestímulo que tende a reduzir ainda mais a área cultivada no Estado, já inferior a 700 mil hectares, a menor extensão desde 2006.
Pelo lado do tempo, o rosário de adversidades começou com a chuva que atrasou o plantio, no final do outono. Depois, faltou umidade para as plantas se desenvolverem bem. Para completar, o excesso de precipitação em outubro, na pré-colheita, levou a qualidade do grão por água abaixo. O trigo impróprio para a indústria de pães e biscoitos agrava o segundo lado da crise.
Não bastasse o preço já estar baixo pela grande oferta mundial e pelo crescimento da produção da Argentina nos últimos anos, a remuneração pelo produto sem as propriedades buscadas pelos moinhos é ainda menor e o destino, provavelmente, será a venda para produção de ração animal, o que ainda pode acabar pressionando a cotação do milho.
— A qualidade da safra até agora é pior do que poderíamos imaginar no pior dos cenários — lamenta o presidente da Comissão do Trigo da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Hamilton Jardim.
De acordo com a Emater, até agora a maior parte do produto colhido tem PH abaixo do padrão estabelecido pela indústria para o grão tipo 1, a partir de 78. Se a cotação média no Estado para o grão de melhor qualidade está em R$ 29,91, enquanto há um ano estava em R$ 32,08 e já havia queixas, os grãos sem as propriedades buscadas para moagem são avaliados em valor ainda menor: em torno de R$ 23.
As estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam que o Estado deve colher 1,53 milhão de toneladas, 38% abaixo do ano passado, quando teve produtividade recorde, mas preços baixos. O analista de mercado Élcio Bento, da Safras & Mercado, lembra que, devido aos problemas de qualidade, nem os mecanismos oficiais de sustentação de preços, utilizados na última safra, teriam resultado.
— Neste ano, nem PEP ou Pepro vão conseguir tirar do mercado este trigo de baixa qualidade — diz Bento.
No Planalto Médio, a queda no rendimento foi de cerca de 50%, relata o gerente regional adjunto da Emater em Passo Fundo, Claudio Doro.
— A produtividade é baixa, a qualidade é ruim e o faturamento é totalmente insuficiente para cobrir o custo da lavoura. A maior parte dos produtores vai recorrer ao Proagro, ao seguro agrícola e terá dificuldade para pagar o financiamento. A sensação, no momento, é de uma tendência de redução de área generalizada — diz Doro, lembrando que, a despeito da boa colheita do ano passado, os produtores gaúchos já plantaram menos em 2017.
Segundo Doro, a produtividade média na região é de 30 sacas por hectares. O necessário para cobrir apenas o custo da lavoura é o dobro, lembra Jardim, da Farsul. Além dos problemas internos, nos últimos dois anos os produtores do sul do país também ganharam concorrência mais forte da Argentina, que cresceu após a eliminação de impostos à exportação com a troca do governo. Melhores condições de solo, custos menores para insumos e maquinário agrícola e logística, por exemplo, fazem o país vizinho ser mais produtivo do que o Brasil e conseguir colocar trigo nos moinhos de São Paulo a um valor muitas vezes mais baixo do que o grão do Paraná, por exemplo.
Há um outro aspecto que merece atenção. Apesar do histórico de revés na equação econômica, muitos produtores insistem com o trigo no Estado — além da falta de opção de outras culturas de inverno — devido às vantagens agronômicas que se refletem nas lavouras de verão e pela diluição dos custos da propriedade.
O terceiro ano consecutivo de redução de área, com grandes chances de novo desestímulo para 2018, indicam que o prejuízo financeiro isolado com a lavoura está se sobrepondo aos benefícios indiretos às propriedades, se tornando uma ameaça cada vez maior ao sistema de plantio direto.
Incerteza sobre destino do produto

Com a colheita recém encerrada, o produtor Altemir Ceolin, 55 anos, ainda não sabe ao certo qual destino terá o trigo cultivado na região de Passo Fundo, no norte do Estado. Neste ano, o agricultor decidiu apostar na variedade tipo branqueador, em tentativa de segregar o produto e atender um nicho de mercado da panificação.
A baixa qualidade porém, resultado de excesso de chuva e pouco frio no inverno, poderá impedir que o cereal seja aproveitado pela indústria.
— Estou muito apreensivo, além da produtividade baixa, não sabemos se o produto terá valor comercial — lamenta Ceolin, que colheu 200 hectares do cereal com média de 3,3 mil quilos por hectare (55 sacas).
Além da baixa rentabilidade, o peso hectolitro (PH) de 77 e outras características como cor e índice de proteína estão abaixo da qualidade necessária para moagem. Preocupa também o alto teor de micotoxina, produzida por fungos como a giberela, que atacou a cultura em razão do excesso de umidade. O teor da micotoxina, chamada de Don, impede que o grão seja usado no Brasil pelo risco de provocar náusea e vômito em humanos e animais.
— Se isso ocorrer, teremos de exportar o trigo, assim como aconteceu há dois anos — diz o produtor.
Com a quarta frustração consecutiva à vista, depois de um ano de mercado ruim e dois de tempo desfavorável, o agricultor planeja reduzir pela metade a área cultivada com o cereal em 2018. A safra do ano passado, excelente em produtividade, foi vendida há poucos meses pelo produtor, a preço inferior aos custos de produção.
— O problema é que não temos outra alternativa no inverno. Ao mesmo tempo em que fechamos no vermelho com o trigo, é ruim deixar o solo descoberto — lamenta Ceolin.
Esperança que vem dos Campos de Cima da Serra
Última zona de produção a colher no Estado, a região dos Campos de Cima da Serra ainda é esperança de colheita de um trigo de melhor qualidade. O fator decisivo, daqui para a frente, será a ocorrência de chuva no período que antecede a entrada das colheitadeiras nas lavouras. Em outros pontos da Metade Norte do Rio Grande do Sul — como Noroeste e Planalto Médio —, a precipitação excessiva em outubro completou a sequência de intempéries climáticas da safra.
Altamente tecnificado e com grandes investimentos, o agricultor Paulo Edson Vasconcellos Silveira, de Lagoa Vermelha, tem historicamente lucro com o trigo. Costuma colher entre 90 e 100 sacos por hectare, mas neste ano o clima adverso faz com que a projeção seja de 60. A qualidade ainda é uma incógnita.
— Com o preço atual, que está horrível, vai ser o suficiente apenas para ficar no zero a zero. Tenho custo alto pela tecnologia que aplico — diz Silveira, que no verão cultiva, em 900 hectares, soja, milho e milho pipoca.
Apesar dos resultados positivos com a cultura, Silveira plantou nesta safra apenas 250 hectares de trigo. Reduziu em um terço a área que cultivou em 2016. Na região, avalia, a tendência é de plantar ainda menos em 2018.
*Colaborou Joana Colussi


