
O menino que teria sido atirado no Rio Tramandaí, em Imbé, no Litoral Norte, pela mãe já havia alertado a família sobre a necessidade de agilidade para que fosse retirado da guarda da mulher de 26 anos. Depoimento da avó do garoto à Polícia Civil, obtido por GZH, revela o que parece ser um pedido de socorro.
"Não demora muito", teria pedido o menino à avó materna, se referindo ao processo de troca da guarda — já em tramitação na Justiça, mas que ainda não havia sido autorizado. A própria avó contou aos policiais sobre o relato do neto.
O depoimento mostra uma mulher incrédula sobre o que a filha diz ter feito: "(...) Sempre se mostrou uma mãe zelosa e afetiva, e ficou surpresa quando recebeu a informação", consta no documento.
O relato da avó à polícia também mostra as idas e vindas da mãe e do menino. Contou que a filha morava com ela em Paraí, na Serra, até março de 2020. Naquele mês — que marcou o início das medidas restritivas devido ao coronavírus —, a jovem conheceu uma mulher na internet e decidiu se mudar para o bairro Restinga, no extremo-sul de Porto Alegre.
Ainda em 2020, mas já em setembro, a mãe da criança, a nova companheira e o menino voltaram para Paraí. Moraram com a avó até outubro, quando novamente retornaram para a Capital — dessa vez, o menino ficou na Serra.
O garoto ficaria com os avós até fevereiro, quando a mãe decidiu buscá-lo. "Ela pediu para buscar pois o filho era seu", disse a avó à polícia.
No entanto, em data não informada no depoimento, a mãe do garoto voltou atrás: "(nome suprimido) Pediu para ela buscar o neto porque estava impossível e não obedecia, sendo que a depoente (avó) disse para ter paciência", narra outra parte do depoimento.
Por fim, a avó disse que o garoto "sempre foi muito amoroso com ela, respeitoso, e que brincava bastante com o companheiro dela".
A avó foi ouvida na condição de testemunha. O delegado Antônio Carlos Ractz Júnior, lamenta o fato de o restante da família não notar que o garoto sofria maus tratos.
— Como ninguém percebeu? — questiona o policial.
O delegado prossegue:
— A mãe tinha formalizado na Defensoria Pública de Tramandaí a entrega da guarda para a mãe dela (avó). Eu conversei com a avó, que disse estar aguardando entraves burocráticos, o que nos causou espanto. Se tivesse preocupada com neto, poderia ter buscado. Acredito que teve omissão da família — diz.
A reportagem tentou contato com a avó pelo celular dela, mas estava desligado. Também a procurou em redes sociais e não obteve resposta.
O crime
A Polícia Civil prendeu em flagrante, por homicídio, a mulher de 26 anos que confessou ter espancado e jogado na água do Rio Tramandaí o filho de sete anos em Imbé. Ela procurou a delegacia para registrar o desaparecimento do menino, mas acabou confessando o crime.
Conforme o delegado, a mulher detalhou como teria acontecido. Ela contou ter dopado a criança com um antidepressivo e, depois, o colocado em uma mala, na madrugada de quinta-feira. Em seguida, teria saído com a companheira da casa onde moravam, na área central de Imbé.
— Era uma mala de rodinhas. Ela saiu puxando e foi até o Rio Tramandaí, onde diz que retirou o corpo do menino e jogou na água. Ela não sabe se ele estava morto quando jogou. Nesse tempo todo de polícia, é uma das coisas mais horrendas que já vi — afirmou o delegado.
Embora tenha ouvido a mãe e a companheira, o policial optou no momento por autuar somente o flagrante da mãe. Isso porque percebeu indícios de que a companheira sofra de problemas mentais — a responsabilidade dela será apurada ao longo da investigação.
No depoimento, a mãe alegou que o menino era teimoso e que se negava a comer. Segundo o delegado, ela mesma relatou torturas físicas e psicológicas que eram sofridas pela criança.




