Historiador, professor titular de Relações Internacionais da UFRGS. Escreve mensalmente no caderno PrOA
O Brasil é um país paradoxal. As grandes mudanças, aparentemente sólidas, se desagregam, muito mais pela falta de ação de quem as propôs do que pela força de adversários. Na véspera de se iniciar o segundo mandato da presidente Dilma, muitos se perguntam sobre o que restou da intensa agenda diplomática do ex-presidente Lula, e se ainda sobreviverá algo dela nos próximos anos. O grupo no poder ainda é, basicamente, o mesmo, mas os líderes não, nem o mundo permaneceu igual. Contudo, isso não é novo na história do país.
Na esteira do acirrado debate dos anos 1950 sobre nacionalismo e desenvolvimento, em 1961 foi lançada a Política Externa Independente por Jânio Quadros. Foi um terremoto discursivo que durou sete meses, mas não realizou muito, e então João Goulart seguiu, teoricamente, o mesmo rumo, realizando um pouco e discursando menos. Vieram os militares e o discurso incisivo foi voltar ao passado, criticando o suposto "esquerdismo" dos antecessores. Todavia, 10 anos depois, o mesmo Regime Militar estabelecia relações com a China Popular, reconhecia o MPLA marxista como governante de Angola, iniciaria o projeto nuclear com a Alemanha, apoiaria um voto antirracista da Assembleia Geral da ONU, o qual mencionava, explicitamente, o sionismo.
A diplomacia dos anos 1970 e 1980, de Geisel a Sarney, foi politicamente mais arrojada e de resultados concretos mais palpáveis do que a de Lula e Dilma. Mas, obviamente, eram outros tempos, aqui e lá fora. O poder de decisão era maior e o mundo estava dividido entre duas superpotências. Contudo, a imensa projeção internacional conseguida foi perdida nos anos 1990, restando o consolo da integração no Mercosul e a ilusão de que a abertura à globalização traria a prosperidade.
Então, veio a Diplomacia Afirmativa e Propositiva de Lula, com forte impacto político e ressonância mundial. Todavia, por detrás da euforia de uns e das críticas de outros, faltavam coordenação interna, meios materiais e projeto de nação. A Continuidade sem Prioridade da Diplomacia de Dilma, já no contexto da crise mundial, acabou mesclando a manutenção do discurso com a limitação das ações internacionais, desgostando aliados e adversários.
O mundo aplaudira as políticas sociais, mas quando a crise chegou as nossas empresas internacionalizadas já faziam negócios em todos os continentes, e o Brasil virou alvo de críticas. Agora, estranhamente, em poucos meses, as megaempresas brasileiras foram nocauteadas com um só golpe, com o Estado e a sociedade demonstrando ingenuidade e despreparo inacreditáveis. A aparentemente sólida ferramenta da Diplomacia brasileira se desmancha no ar...
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