* Historiador, professor titular de Relações Internacionais da UFRGS. Escreve mensalmente no PrOA
A Alemanha constitui um país paradoxal, cuja importância pouco se reflete em posição de poder. O filósofo alemão Karl Jaspers chegou a afirmar, melancolicamente, na década de 1970, que "em dois mil anos de história germânica, a Alemanha só esteve unificada 75 anos". Durante o longo do ciclo de formação dos Estados europeus, na Idade Moderna, ela foi o tabuleiro do jogo continental, padecendo dos efeitos dos conflitos religiosos, guerras civis e invasões, que causaram um atraso de mais de três séculos em relação aos europeus ocidentais.
Com o tempo, emergiram dois Estados alemães, que lutaram para criar uma entidade estatal forte no centro da Europa, a Prússia luterana e a Áustria católica. Bismarck, "a ferro e sangue", derrotou austro-bávaros e franceses, criando o Império Alemão em 1871. Ele se tornou o pivô do continente, inviabilizando o velho equilíbrio de poder europeu ao criar a Mittle Europa, se industrializando e armando.
As antigas potências, Inglaterra e França, e, depois, os EUA, barraram-lhe o caminho e ela foi rebaixada em 1918 à uma posição de segunda grandeza. Mas a Alemanha se reergueria nos anos 1930, sob o nazismo, voltando à posição de pivô e gerando a II Guerra Mundial. A nova derrota, dessa vez total, acabou com a Alemanha histórica, dividida em duas (ou três, contando a pequena e neutralizada Áustria) e se tornou um peão no tabuleiro da Guerra Fria. Mas a Alemanha Ocidental, com soberania limitada, se dedicou ao desenvolvimento industrial e tecnológico, se tornando o motor da União Europeia. E com a reunificação, em 1990, ela voltou a ter relevância política.
Seu capitalismo de produção industrial rejeitou o financeiro-especulativo e manteve seu modelo social. E a absorção do leste ex-comunista colocou-a numa posição geopolítica central no continente, com a expansão da UE e a criação do Euro em 2002. Todavia, com a globalização, ela teria de buscar autonomia e novas alianças, o que gerou reações anglo-americanas e ciumeiras francesas. A OTAN desejava a expansão para o leste para afastar a Rússia, que emergia como grande parceira econômica da Alemanha, pois seus industriais percebiam, pragmaticamente, as vantagens de uma inflexão para a Eurásia.
Por suas relações com a China e a Rússia, a Alemanha manteve bom desempenho econômico durante a crise do Euro. Mas com as crises do Oriente Médio e da Ucrânia, Berlim tem sido constrangida por velhos "aliados" a se afastar da vantajosa parceria estratégica com a Rússia. A Alemanha, novamente, se torna pivô da Europa e a atitude que vier a tomar terá influência relevante no equilíbrio de poder europeu e mundial. Terá ela vontade política e visão de longo prazo defender seus interesses, ou perderá outra vez a oportunidade de ocupar o lugar que merece na ordem internacional?
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