
As discussões — e as reivindicações — a respeito da implantação de uma infraestrutura básica para ciclistas em Caxias do Sul não são recentes. É notório que a maior cidade da Serra está atrás até mesmo de capitais com sérios desafios urbanos, como Porto Alegre e Rio de Janeiro, quando se trata de utilização de bicicleta como transporte e até mesmo como lazer. Episódios recentes, contudo, reforçam o alerta a respeito da interação problemática entre veículos e quem pedala em vias movimentadas.
Em um intervalo de quatro dias, entre 23 e 27 de abril, três ciclistas sofreram acidentes nas ruas de Caxias. Embora tenham sobrevivido, em ao menos um caso a recuperação exige paciência e fôlego financeiro para o pagamento do tratamento.
É o caso do azulejista autônomo Ronaldo Borges, 43 anos. Na tarde do dia 23, um sábado, ele saiu para pedalar com a esposa e a filha pelas ruas do bairro Charqueadas, onde a família mora. Já era fim da tarde quando os três resolveram voltar para casa. A mulher e a filha colocaram as bicicletas no carro e seguiram no veículo. Ronaldo, que pedala há cinco anos, optou por retornar de bicicleta.
— Fui praticamente acompanhando e depois elas se distanciaram um pouquinho. A uma quadra de casa, esse cara (carro) veio na contramão e acabou me acertando — lembra.
Imagens de câmera de segurança mostram um veículo escuro atingindo frontalmente a bicicleta de Ronaldo por volta das 17h45min, na Rua Professor Gilberto Piazza. O azulejista é arrancado da bicicleta e arremessado para cima, caindo sobre a calçada oposta.
— Dos dois giros que dei no ar e do momento em que caí no chão praticamente não tenho lembrança. Depois que caí, lembro de tudo. Até o impacto do carro eu lembro — relata.
Ronaldo teve rompimento de 50% do tendão do ombro esquerdo e de 80% do ombro direito, além de um corte no pé e outros ferimentos. Segundo ele, vizinhos relataram que o motorista chegou a descer do veículo, mas logo depois foi embora. As informações da placa já foram repassadas para a Polícia Civil, que investiga o caso.
Desde o acidente o azulejista está sem trabalhar, o que praticamente zerou a renda da família. E ainda é incerto quando ele poderá retomar as atividades.
— Como sou uma pessoa sempre ativa, para mim está sendo terrível. Estou entrando na terceira semana parado praticamente com ajuda para tudo. São exames todos os dias. O dinheiro que tinha para os exames acabou, então agora dependo do SUS. Estamos sobrevivendo com o que tem — afirma.
Também na tarde de 23 de abril, por volta das 14h, outro ciclista sofreu acidente no km 4 da RS-453. Ele prefere não se identificar, mas relatou à reportagem que foi atingido por um carro, sem sofrer ferimentos graves. Já no dia 27, a vítima foi Jeremias Costa dos Santos, 44 anos. O motoboy pedalava pela BR-116, no bairro Planalto, quando foi atingido por um ônibus que saía de uma rua do bairro para acessar a rodovia. O acidente ocorreu por volta das 7h20min e nem mesmo a iluminação da bicicleta foi suficiente para chamar a atenção do motorista do coletivo.
— Estava fazendo meu trajeto de sempre e até avistei o ônibus, mas jamais imaginei que ele ia entrar. Me derrubou no chão e dá para ver (em imagens de câmeras) que fiquei embaixo do veículo. Eu já tinha cruzado a esquina, não tinha o que fazer. Aí foi só torcer para que não fosse nada grave — conta Jeremias, que pedala diariamente há cinco anos.
O motorista prestou socorro a Jeremias e disse não ter visto ele. O motoboy foi socorrido pelo Samu, realizou exames e foi liberado após a constatação de que não sofreu ferimentos graves. Essa é a segunda vez que ele se acidenta. A anterior ocorreu há cerca de dois anos, no viaduto da Rota do Sol com a Avenida Dr. Mário Lopes, no bairro Santa Fé, que resultou em ferimentos leves.
Apesar do susto, Jeremias afirma que não voltou a pedalar somente porque aguarda o seguro restituir o valor da bicicleta. Considerando outros pertences, que também ficaram danificados, o prejuízo foi de R$ 7 mil. Ronaldo Borges também não pensa em desistir da bicicleta.
— Nem quando estava no hospital pensei em desistir. Encaro como um fato bem isolado. Há cinco anos, as coisas eram diferentes, tinha muito desrespeito. Não se via o carro se afastando, ligando o pisca ou o alerta para dar lado ao ciclista. Agora se vê bastante — avalia.
Falta infraestrutura em Caxias
Ainda que Ronaldo Borges tenha percebido uma melhora na relação com motoristas ao longo do tempo, ainda há muito a se avançar, na visão de especialistas. Arquiteto e Urbanista, Rodrigo Tedesco Guidini também é presidente da União dos Ciclistas Caxienses (Unicca). Na visão dele, a principal carência que os ciclistas enfrentam na cidade é na infraestrutura, com ausência de espaços adequados para circulação, como ciclovias e ciclofaixas.
— Não vejo outra forma de minimizar acidentes com ciclistas sem uma infraestrutura mínima. Serve não somente para educar, mas também para proteger. Em Caxias, temos ciclistas urbanos muito visíveis. Eles andam muitas vezes na calçada ou na contramão, onde se sentem mais seguros. Tendo a infraestrutura necessária, o ciclista vai andar no lugar dele — avalia.
Sem os espaços necessários, os ciclistas acabam ficando expostos a motoristas trafegando acima da velocidade permitida ou distraídos. Por conta desses fatores, a Unicca chegou a sugerir à Secretaria de Trânsito a implantação de ciclofaixas provisórias, mas a pasta optou por implantar espaços definitivos, que dependem da elaboração do Plano Municipal de Mobilidade.
O secretário de Trânsito, Alfonso Willembring, afirma que implantar uma ciclofaixa provisória pode causar uma sensação de segurança onde não há e, por isso, é melhor aguardar pela definição dos estudos e implantar o equipamento definitivo.
— É como fazer uma faixa de pedestres provisória. Nas vias adequadas, uma ciclofaixa deve ser integralmente sinalizada com vermelho e, na minha visão, também isolada com tachões. Fazer algo provisório, não me sinto seguro — explica.
A respeito do Plano de Mobilidade, técnicos da Secretaria de Trânsito terminaram de analisar a documentação técnica das empresas habilitadas a participar da licitação. O próximo passo é a devolução do processo para a Central de Licitações para abertura de prazo de cinco dias para recursos. Em seguida, serão conhecidas as propostas financeiras. A expectativa é ter definida a empresa vencedora ainda em maio.
Enquanto as ciclovias e ciclofaixas não viram realidade em Caxias, algumas dicas podem ajudar os ciclistas a se proteger.
— Tentar evitar o maior fluxo e ocupar o espaço na via, sem se espremer no acostamento, além de utilizar sinalização e equipamentos de segurança. Quanto mais para dentro da pista, mais visível o ciclista vai estar. O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) diz que tem que ser no bordo direito da pista, mas não diz a medida desse bordo. Os veículos manterem distância de 1,5 metro também é importante porque ônibus e caminhões, principalmente em velocidades maiores, deslocam ar e isso pode desequilibrar — aponta Guidini.
Já Jeremias dos Santos também evita pedalar em grupos.
— Os motoristas não são nada amigáveis e atrapalhar eles acaba sendo pior ainda. Todo mundo está achando que ciclista é estorvo, mas nós também andamos de carro. Tem que ter bastante cautela dos dois lados, mas o mais forte tem que proteger o mais fraco — destaca.





