
Os jornalistas ao meu lado, dois italianos, um romeno e um croata, um grupo alojado na imensa tribuna de imprensa na cerimônia inicial dos Jogos no Estádio Olímpico de Sydney, todos tivemos a mesma surpresa. Festa de abertura de Olimpíada só é chata na TV. Ao vivo, a viagem do fogo até a pira dos Jogos de 2000 e a visão da atleta aborígene Cathy Freeman com a tocha foi contagiante.
Cathy era à época bicampeã mundial dos 400m rasos, promessa de ouro, ídolo da Austrália por sua condição autóctone, mais do que o recordista Ian Thorpe na piscina, pois ela inflamou o público de 110 mil australianos aos gritos de "Aussie, aussie", que é como eles se tratam nos campos de rúgbi e críquete. Dei uma espiada na televisãozinha sobre a mesa na tribuna e concluí que a imagem da abertura que o Brasil recebia àquele momento, às 4h da madrugada, era apenas uma cena bonita, que nem de longe expressava aquela comoção em cores.
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O que mais bateu ao público foi a presença dos aborígenes. Tribos inteiras deles vieram dos confins do território continental australiano e entraram no contexto da festa, pintados, seminus e um tanto surpresos com a imensidão do estádio e de gente. A exibição da artista-mirim Nikki Webster carregada por um aborígene foi um desses momentos de integração, porque essa é a grande mazela local: como integrar à vida cara das cidades ricas o nativo que anda pelas ruas. Mais de 10 mil figurantes, estruturas gigantes como em escola de samba, a cantora Olivia Newton-John, a encenação da chegada da colonização com o capitão Cook, 2 mil jovens cantando Also Sprach Zarathustra, de Uma Odisseia no Espaço, tudo isso rolou antes da entrada dos 10 mil atletas incluindo uma delegação brasileira liderada pela jogadora de vôlei de praia Sandra Pires, nossa porta-bandeira.
Ao vivo, acreditem, é bem melhor. Dá para flagrar gafes como o fogo na perna de pau de uma exibicionista. O socorro interveio abafando com um pano, quase derrubando a figurante da altura. Um outro garoto rolou de dentro de um cilindro e caiu estatelado no chão, e o vulto dos atletas correndo para fugir do restante da solenidade, burlando o cordão de isolamento que os mantinham no gramado em meio às 200 delegações do mundo inteiro. Queriam descansar logo porque no outro dia as competições começavam cedo.
Com tanto cenário, o fotógrafo de ZH Ricardo Chaves se fartou.
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