
Paulo Guedes é mais do que um garoto de Chicago. Essa alcunha se deve a quem estudou e foi doutrinado na Universidade de Chicago, como é o caso de Guedes, que na tua temporada por lá teve como mestre Milton Friedman, uma espécie de pai intelectual dos Chicago Boys. Além de um fruto de Chicago, Guedes é o supermisnistro de Jair Bolsonaro, presidente eleito em 2018. Superministro porque fundiu várias pastas em uma só: ministérios da Fazenda, do Planejamento e da Indústria e Comércio Exterior. E tudo isso virou o Ministério da Economia, que centraliza o direcionamento da polítrica macroeconômica brasileira.
Afora algumas bolas-fora de Paulo Guedes, principalmente quando procurou justificar falas, também atravessadas do presidente Bolsonaro, sempre que o ministro tratou de economia, o mercado reagiu bem. Aliás, esse "mercado" é mais do que um personagem sem face, é o principal citado nos últimos anos, principalmente em um país que agora trocou a bandeira do mastro da embarcação para uma flâmula liberal. Para 2020, a expectativa de Guedes é crescer o dobro de 2019.
— O PIB crescerá no mínimo 2% ano que vem. Essa é uma estimativa conservadora da nossa parte. Acreditamos que a economia crescerá pelo menos o dobro deste ano. Se 2019 fechar com 1,2%, crescerá 2,4% em 2020 — explicou o ministro, em uma coletiva à imprensa, em meados de dezembro, em que fez avaliações do ano passado e prognósticos para o próximo período.
Desde que assumiu como superministro, Guedes tem lutado pela implementação de diversas reformas, que segundo ele, são a expectativa de sobrevida para o Brasil. E, sem elas, é bancarrota. Na mesma coletiva, Guedes disse que a guinada mais radical, nesse viés mais liberal, passava por três torres. Uma delas, já foi derrubada, em 2019. As outras duas, são o desafio para 2020 e, que se implementadas, vão asfaltar o caminho para o crescimento moderado, mas equilibrado e sólido como especulam os atores e agentes do mercado.
— A primeira torre que derrubamos foi a da Previdência Social, que era uma fábrica de privilégios insustentáveis — explicou, reforçando que a economia será de R$ 800 bilhões para a União nos próximos dez anos.
Assim que estancou essa sangria desatada, Guedes ganhou impulso e aceitação do mercado, tanto interno, quanto internacional, para acelerar ainda mais a economia brasileira, desde que, na sua visão, derrube mais duas torres.
— Nossa segunda grande torre são os gastos da dívida pública. Vamos "despedalar" os bancos públicos, mandando de volta (para o Tesouro) a dívida que eles têm com a União. Desaceleramos o endividamento com bancos públicos devolvendo dinheiro. O secretário Salim Mattar está privatizando. Assim estamos desacelerando o endividamento em forma de neve — ironizou.
E por fim, nessa analogia das três torres, vem o funcionalismo.
— A terceira torre é o gasto com o funcionalismo. Nos últimos 15 ou 16 anos, os servidores tiveram, em média, reajustes de 50% acima da inflação, com aposentadorias generosas. Temos um shutdown (congelamento de serviços públicos) à brasileira. Em vez de parar de pagar todo mundo, é só não dar aumento. Está lá no Pacto Federativo — explicou.
O tal do Pacto Federativo, a que se refere o ministro, é parte integrante do Pacote Mais Brasil, enviado ao Senado, ainda novembro de 2019. Dentro desse pacotaço estão as propostas de 3 novas PECs: a dos Fundos, a Emergencial e a do Pacto Federativo. Na avaliação da equipe econômica, além dessas propostas, está a reforma tributária, que já é uma lenda em Brasília (Gernamo Rigotto que o diga), e a reforma administrativa, que deve tocar em um ponto central, a estabilidade nos cargos.
Os desafios são grandes, mas os prognósticos são otimistas, pelo menos é o que se vê na avaliação a seguir, de economistas e especialistas que, a convite do +Serra, fizeram suas avaliações de como será o Brasil em 2020.

Prognósticos para 2020
Terminar um ano bem é um estímulo psicológico para inciar bem o seguinte. O clima de otimismo, no entanto, não deve ser confundido com euforia.
— O ano de 2019 termina muito melhor do que começou, certamente. No entanto, temos ainda 12,5 milhões de pessoas desempregadas, e esse deve ser um dos pontos de preocupação para 2020, que já desponta em um cenário de pequena retomada da indústria — observa Gustavo Bertotti, professor do Centro de Negócios da FSG e Head de Renda Variável da Messem Investimentos.
O Brasil fecha 2019 com queda na produção industrial de -0,73%. No entanto, no terceiro trimestre de 2019 os dados já mostravam uma aceleração, ainda pequena, mas significativa. Tanto é que o PIB do terceiro trimestre conquistou crescimento de 0,6%, frente ao segundo trimestre de 2019. Em relação ao ano passado é um crescimento de 1,2%.
— A população brasileira sabe, que a melhor distribuição de renda é a geração de emprego. A realização de um pai de família é ter emprego, para gerar um bem-estar para a sua família e seus filhos terem acesso à educação — defende Joarez José Piccinini, diretor Superintendente de Serviços Financeiros do Banco Randon.
Tanto Bertotti quanto Piccinini são homens do mercado, são atores desse ambiente que é mais real do que muitos idealizam. Os dois concederam essa entrevista, em dias separados, com os olhos cravados nos dados no Relatório de Mercado Focus, divulgado Banco Central (BC). A cada segunda-feira, são atualizados índices conforme as expectativas vão sendo alcançadas ou não.
Segundo o Focus, o Brasil em 2020, terá como previsão de PIB, 2,30 %; a taxa Selic deve permanecer em 4,50%; o Índice de Preços ao Consumidor, que regula os preços, deve ser menor do que em 2019 (que foi de 4,04%), sendo projetado a 3,61% para 2020. O câmbio, que foi o vilão de parte da opinião pública, que fechou 2019 em R$ 4,10 tem previsão de manter-se estável e bater no final de 2020 com leve queda, R$ 4,08.
— Sou muito otimista, de uma maneira cautelosa, mas o Brasil está no caminho certo. Tem percalsos, discussões e embates, claro, mas faz parte, porque vivemos em uma democracia. Eu não associo essas mudanças a uma pessoa de confiança do presidente, eu associo a uma visão de governo, e a sociedade brasileira tem de ter esse entendimento — avalia Piccinini.
Bertotti também está otimista.
— 2020 será um ano bastante desafiador. Mas acredito que as empresas estão melhor preparadas, porque aprenderam com a última crise. E 2020, não será como em outros anos, que a economia só girava depois do Carnaval. Esse ano já começamos aquecidos desde o dia 6. Será um ano crucial para poder pensar e projetar o crescimento a médio e longo prazo. Não podemos mais ter um voo de galinha, que voa um pouco e cai. Precisamos ter a economia crescendo de forma sustentável e sólida, como deverá ser em 2020 — acredita.

Marcel Van Hattem: reformas à vista
Um dos políticos gaúchos mais alinhado com a filosofia econômica de Paulo Guedes é o cientista político Marcel Van Hattem, o garoto de Dois Irmãos. Van Hattem é deputado federal pelo Novo, e até se colocou à disposição para ser o presidente da Câmara dos Deputados em 2019.
— O Brasil avançou muito, em 2019, com a Reforma da Previdência, mesmo que ela não tenha sido aquela que o ministro Paulo Guedes propôs de um R$ 1 trilhão, mas pelo menos foi o dobro do que propunha o presidente anterior, Michel Temer. Provamos para o mundo que é possível reduzir o gasto público, conter o déficit e passar uma imagem de credibilidade — defende Van Hattem.
É um consenso de que as reformas deram ao país não apenas uma sobrevida para 2019, mas encaminham o país para uma nova perspectiva.
— Penso que estamos passando por um período de reformas estruturais que haviam sido proteladas, mas lentamente estão acontecendo no Brasil. Dessa forma, abre-se leque que certamente contribuirá não só para a solução das nossas dificuldades fiscais, mas servirá também de combustível da retomada econômica — avalia Astor Schmidt, diretor de Economia, Finanças e Estatísticas da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul.
Gustavo Bertotti, Head de Renda Variável da Messem Investimentos, também acena para 2020 como sendo o ano de tratar da reforma tributária.
— Para 2020, o que é fundamental é a reforma tributária. Só as tratativas desse tema já fizeram com que o mercado absorvesse muito bem a ideia. E também, deve ser focado na racionalidade dos gastos públicos com a reforma administrativa.
E haverá impacto direto a partir da reforma tributária?
— Não esperamos que ocorra uma redução da carga tributária com a reforma, não ao menos, em um primeiro momento. E a razão é simples. Porque o gasto público ainda é muito alto, então não tem como haver redução de impostos. Agora, se houver uma simplificação da carga tributária e da arrecadação, para que as se seja criada uma segurança jurídica, já é um começo — pontua Piccinini, diretor do Banco Randon.

Perspectivas para o cenário caxiense
A cidade vai sofrer do efeito cascata da aceleração da economia brasileira, avaliam os economistas.
— O que teremos em Caxias, assim como no Brasil todo, é que teremos não só a redução do desemprego, mas um aumento da renda. Porque, na medida em que a atividade econômica se desenvolve, não necessariamente o emprego tem de aumentar para a renda ser maior. A pessoa que está empregada vai ganhar mais porque vai ter um variável que contribui para isso —defende Piccinini.
Mais uma vez é a psiquê reagindo aos estímulos da economia, que na visão de Piccinini, vai estimular o consumo, mas de uma maneira mais responsável.
— Na medida em que temos a expectativa de um crescimento econômico, de cenário futuro mais estável e previsível, as pessoas se sentem mais confiantes para fazer aquisições de bens de consumo parcelado, ou imóveis e bens duráveis. Isso é um efeito psicológico, os agentes econômicos atuam dessa forma. Saímos de um ciclo negativo e entramos em um ciclo virtuoso — atesta.
Antes da colheita, no entanto, Gustavo Bertotti, Head de Renda Variável da Messem Investimentos, entende que Caxias tem um desafio muito grande pela frente.
— Em Caxias, temos um grande desafio que é o industrial. Todas as empresas vem trabalhando bem a redução de custo variável e o endividamento. Acho que a economia de Caxias vai passar por essa retomada, por causa de um mercado mais liberal.
Para Bertortti que trabalha focado no mercado de ações, um país com bolsa forte é um país forte.
— É assim nos Estados Unidos. Se a empresa tem um juro de 14% ao ano, não vai para a bolsa e não poderá pegar empréstimo em um banco porque vai onerar o orçamento. Enquanto que o processo de abertura de capitais, que eu creio vai crescer muito em 2020, tu toma um recurso diretamente do mercado, sem juros, e por isso não tem endividamento — explica.
É um setor promissor, entende Bertotti, porque nos últimos meses mostrou crescimento de vários setores, sobretudo da indústria.
— Tivemos exemplos de empresas que subiram 30% em três meses. A gente vê a retomada da indústria nesse cenário. Uma Gerdau, que nos últimos tempos andava lateralizada, no ano subiu 25%. Uma Randon, 40% a mais. Marcopolo, que crescia 2% ao ano, só em dezembro, cresceu 14%. Mostra uma retomada dessas empresas na bolsa, justamente por uma melhor perspectiva para 2020.

Brasil na cartilha liberal
Depois de ensaios de uma social democracia, e na visão de alguns extremados, de um pé brasileiro no comunismo, o país hoje tem uma abordagem econômica liberal. Pelo menos é dessa forma que enxerga Joarez José Piccinini, diretor Superintendente de Serviços Financeiros do Banco Randon.
— Eu não uso o termo esquerda e direita. Eu uso os termos: "uma abordagem econômica de governo mais liberal, ou mais estadista". Se a gente pegar, por exemplo, a Venezuela e a China. Eles são países de direita ou de esquerda? A abordagem econômica de cada um deles é totalmente diferente, agora o regime deles não é uma democracia. Mas nós, goste ou não, temos uma maior independência dos poderes e temos um regime democrático aqui no Brasil.
De uma forma bastante didática, Liberalismo Econômico é um conjunto de princípios políticos e econômicos que pregam a liberdade e a não intervenção do Estado na economia.
— A política onde o estado tentou desempenhar o papel de indutor do desenvolvimento econômico não teve sucesso. Temos um estado que custa muito caro. O custo da máquina pública brasileira consolidada é de 49% do PIB. É absurdamente elevada. Temos uma carga tributária das corporações em 35% e da pessoa física de 27,5%. Esse modelo não se sustentou. Felizmente, para o Brasil, tivemos essa guinada, a partir de 2017, para o liberalismo econômico. A mudança de governo, com a entrada de Jair Bolsonaro, trouxe um reforço dessa política, porque o Guedes é extremamente liberal — explica Piccinini.
Para o cientista político e liberal de carteirinha, Van Hattem, liberalismo pressupõe colocar as pessoas à frente do governo.
— Percebe-se que a linha de atuação do Ministério da Economia coloca as pessoas na frente do governo. Vivemos um momento em que o governo está querendo sair e deixar as pessoas empreenderem com a maior liberdade possível, porque é assim que surge o desenvolvimento econômico.
O país na rota do crescimento
Como fazer para seguir crescendo? Para os analistas não hão há mágica e não se deve mais incentivar o crescimento ou o poder de compra dos consumidores falseando a economia, como já ocorreu em outros momentos, com a redução do IPI para a linha branca ou automóveis.
— Os bancos aumentaram a predisposição para emprestar dinheiro. Então, temos um sistema de alavancagem de financiamento do consumo, seja de bens duráveis ou não, que começa a funcionar. O Brasil tem espaço para crescer o endividamento das pessoas, sem que isso seja ruim. E esse não é um processo artificial, não está sendo alavancado por incentivos fiscais ou subsídios. É um movimento natural, do crescimento econômico que traz esse tipo de comportamento — explica Piccinini, do Banco da Randon.
Um dos setores promissores, há muito em baixa no Brasil, é a construção civil.
— E não serão imóveis de luxo, mas para a classe C. Empresas como a Direcional, que faz imóveis estilo "minha casa, minha vida", cresceu 110% em 2019. Até então, era um setor bem nebuloso que começa a ter uma retomada — revela Bertotti, a partir da valorização da empresa na bolsa de valores.
Além disso, uma nova avaliação, dessa vez mais favorável, do "risco Brasil", é consenso entre os especialistas.
— O spread do CDS (Credit Default Swap) do Brasil ficou abaixo dos 100 pontos (98,25) sendo o menor patamar desde 8 de novembro 2010. O rating brasileiro continua BB- mas a Standard Poor's emitiu nota positiva em relação a perspectiva de uma nova classificação do grau de risco — explica Bertotti.
O CDS é um termômetro de confiança dos investidores utilizado principalmente em economias emergentes (indica o risco de calote de um país).
— Esse é um dado positivo de extrema importância para 2020 principalmente em relação ao otimismo dos investidores estrangeiros. Esse dado passa muito pela melhora fiscal e da economia brasileira.
Enquanto isso, na Argentina o clima é de instabilidade, incerteza e é preciso cautela. A relevância é muito grande dos hermanos, porque eles já foram o melhor parceiro comercial do Brasil e de Caxias, e hoje são o terceiro, caindo para a quarta posição.
— A expectativa em relação a Argentina não é nada positiva. As medidas que estão sendo tomadas lá, na minha visão, infelizmente, não não permitem ter muito otimismo. Infelizmente, eles estão com um modelo lá que já foi testado e não deu certo.


