
Depois de três anos seguidos de crise que levou a indústria gaúcha a perder quase um quinto da produção e eliminar mais de 80 mil postos de trabalho, as fábricas do Estado esperam começar a ver enfim em 2017 o início da retomada. Mas mesmo que projetem o fim do ciclo de retração, no quesito emprego a tendência ainda é de mais demissões.
Leia mais:
Setor moveleiro da Serra projeta recuperação lenta para 2017
Em Caxias do Sul, o setor fechou mais de 22 mil vagas de trabalho de novembro de 2013 a novembro do ano passado.O diretor do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul (Simecs), Getulio Fonseca, diz que o setor está retomando o crescimento, porém deve atingir o mesmo faturamento de 2014 _R$ 24 bilhões _ somente em 2022.
Ele fundamenta sua opinião em três fatores: a baixa da taxa de juros, o programa do governo federal que prevê a renovação de até 10% do transporte coletivo e a supersafra de grãos _ que prevê um recorde de 14 milhões de toneladas a mais do que no ano passado e que vai impactar no transporte rodoviário.
_ Tudo isso deve impulsionar as nossas grandes empresas e, por consequência, movimentar as pequenas e médias - projeta.
Apesar da confiança, Fonseca afirma que as demissões devem continuar nesse ano. Segundo ele, na medida em que as empresas aumentarem o faturamento haverá novas demissões. Fonseca afirma que a ociosidade gira em torno de 50%.
_ As demissões continuam (em 2017).
O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), Heitor José Müller, define como "otimismo moderado" a expectativa para os próximos 12 meses.
_ Batemos no fundo do poço e devemos começar a melhorar em 2017. Será um alívio, mas o crescimento será pequeno, sem recuperar todas as perdas que tivemos. Mas na área do emprego continuamos céticos _ diz Müller.
Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que, de janeiro de 2014 a novembro do ano passado, a indústria de transformação no Estado perdeu 80.620 postos formais, 8,3% dos cortes no país no período. Em 2016, ainda sem os números de dezembro, foram 10.039 vagas perdidas. No acumulado até novembro, oito dos 12 setores analisados pelo Caged mais demitiram do que contrataram.
O dirigente do Simecs de Caxias chama a atenção para as dificuldades que as pequenas e médias empresas estão enfrentando para a liberação de crédito. Segundo Fonseca, mais de 80% estão inadimplentes com os tributos estaduais e federais por conta da crise. Ele diz que os problemas com o fisco também pode criar dificuldades para as grandes empresas retomarem o crescimento.
_ É melhor pagar os funcionários do que pagar o Sartori. A gente vê a boa vontade e a facilidade com refis nacional.
Outro fator que preocupada é a indústria metalmecânica. O preço do aço aumentou em torno de 70% no ano passado.
_ Em janeiro tivemos um novo aumento. Assim não adianta negociar o (reajuste) com o sindicato dos funcionários para as empresas manterem os empregos e o aço continuar aumentando _ lamenta.
Ainda que as condições sejam instáveis, Fonseca aponta a exportação como uma alternativa para a recuperação dos negócios e critica alguns empresários que não fizeram o "tema de casa" e reduziram o custo fixo de suas empresas.
_ É um ano de retomada, mas não dependemos mais tanto do fator político. Senti que o empresário foi muito acomodado e ficou esperando pelo governo. Temos capacidade de inovar e o mercado externo está aberto. Não podemos sonhar em exportar para os Estados Unidos e Alemanha, mas temos que ir atrás da África e da América Latina, que são mercados compradores - analisa.
Boa safra ajuda a recuperar o ânimo
Para o presidente da Fiergs, além de parecer que o pior já passou, a projeção de mais uma grande safra no Estado deve ajudar a recuperar o ânimo, com reflexos em setores como máquinas agrícolas e ligadas ao transporte. Mas as indústrias de outros tipos de máquinas e equipamentos, especialmente os adquiridos por outras fábricas para aumentar a produção, devem continuar a sofrer devido à alta ociosidade das empresas. Além da base reprimida de comparação, a expectativa de queda da inflação e do juro pelo Banco Central ajudam a começar a dissipar o pessimismo em 2017. Mesmo assim, fatores imprevisíveis, como o quadro político no Brasil, ainda trazem incertezas.
_ Isso é fundamental, porque se reflete no otimismo dos consumidores _ observa o presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados), Heitor Klein.
Cálculos do gerente da pesquisa industrial do IBGE, André Macedo, mostram que, do início de 2014 a outubro do ano passado, a produção das indústrias gaúchas acumula tombo de 19,2%.
Medido pela Fiergs, o Índice de Desempenho Industrial do Estado (IDI-RS) tem, até outubro, queda acumulada de 6,7% no ano passado _ após despencar 9,5% em 2015 e 4,4% em 2014. Dos 18 setores pesquisados, apenas um, o de produtos de madeira, está no terreno positivo _ 13,4%.
_ Mas dois terços disso se deve à ampliação da Celulose Riograndense _ admite o presidente da Associação Gaúcha de Empresas Florestais (Ageflor), Diogo Leuck, referindo-se ao investimento de R$ 5 bilhões na unidade de Guaíba, que começou a operar com nova capacidade no ano passado.
Mas, mesmo com a exclusão do megainvestimento, o setor teve um bom ano devido ao dólar em patamar médio superior a 2015, diz Leuck. Assim, o crescimento foi mais em faturamento do que em volume de produção, explica o dirigente, que espera um 2017 estável para o setor.
Um fator pode ajudar a aquecer de forma mais acelerada a indústria caso a reação se confirme, aponta a Fiergs. Como os estoques estão baixos, o retorno da demanda teria o condão de mobilizar de forma rápida as cadeias de fornecedores, pulverizando os efeitos de uma possível retomada.


