
O cinema é uma arte essencialmente pisciana. Sua invenção, em 1895, se deu na esteira de manifestações em torno da amplitude da realidade, potencializadas desde a descoberta do planeta Netuno, regente de Peixes, em 1848, como o romantismo, o espiritismo e a psicanálise. Sonho passou a ser coisa muito séria, como Freud já estava a provar. E o cinema, como indústria de sonhos, mudou o mundo para sempre. O que é mesmo real? O pisciano Einstein logo falaria em relatividades.
A chamada sétima arte inaugurou um universo de astros, estrelas, mitos e fantasias, em que o imaginário recria o real. Há uma sala escura, feita para anular o presente, e há uma tela na qual são projetadas imagens. O outro mundo em movimento na tela nos envolve e arrebata. Por um par de horas, saímos de nós mesmos para viver novas experiências, numa relação de projeção, catarse, compensação e até mesmo confronto.
Feito uma droga lícita, o cinema (e seus derivados) passou a suprir no homem moderno parte de uma inata necessidade de encantamento e entrega. E é da alçada de Peixes a lida com essa dimensão do humano que impõe a renúncia da consciência individual em prol do transcendente. Uns encontram a transcendência na doação aos demais; outros, na religião; ou na criação artística, ou mesmo nos delírios escapistas, nas alienações e vitimações.
Nesse enfoque, cinema é um rito de saudável loucura, um convite de fuga para outras possibilidades de ser e estar. Muitos filmes até abordam esse tema pisciano. É o alento da sofrida dona de casa de A Rosa Púrpura do Cairo, que busca nas telas um bálsamo ainda que ilusório contra seu violento cotidiano. É a esperança em forma de música na cena final de Noites de Cabíria, distraindo a ingênua prostituta de mais um tropeço na vida e até fazendo brotar-lhe um sorriso. E está no recente A Forma da Água, uma história de compaixão e amor incondicional em torno de uma faxineira muda e uma criatura aquosa, meio peixe, meio homem. Fantasias, ilusões, escapes do real? Tente ser saudável sem isso.


