
Durante a pandemia, mais pessoas têm usado a internet para fazer compras. Nesse cenário, às vezes nos deparamos com os chamados "gastos invisíveis". Um exemplo é o incentivo à compra de mais produtos para ter isenção de frete. Augusto Santa Catharina, especialista em gestão financeira e sócio da Messem Investimentos, alerta que"economizar mais é comprando menos, e não comprando mais, mais barato". O programa Acerto de Contas (domingos, às 6h, na Rádio Gaúcha) conversou com o especialista para saber mais sobre dicas para se organizar e escapar dos gastos invisíveis. Confira:
Quais são os principais gastos invisíveis que notamos durante a pandemia?
O primeiro ponto é considerar que nesse momento de pandemia, em que as pessoas mudaram as suas rotinas, nada mais natural que a parte financeira também tenha mudado. Acho que o formato mais simples de traduzir o que seria um gasto invisível é o exemplo do automóvel. No momento em que ele está sendo utilizado, a gente enxerga o custo do combustível, que quanto mais se anda, mais se gasta. Porém, alguns gastos não são vistos. Um deles é o seguro. A gente tem o custo do seguro que é pago em um período curto durante o ano, porém representa 12 meses. Então, no período em que a pessoa está em casa, em home-office, ela vai estar utilizando menos o automóvel, dessa forma, é um custo que ela não está enxergando, mas pagou por ele. Outro custo, também o imposto, o IPVA. Então são custos que a gente não necessariamente planejou, e eles continuam existindo. Possíveis multas, possível custo de manutenção. Muitos custos embutidos para um bem que vai estar parado. Então, um exemplo prático, que muitas pessoas têm, é o automóvel.
E tem alguns custos que passam despercebidos e fazem até ampliar os gastos neste momento, como as promoções de frete grátis, ou períodos de teste grátis. Certo?
Nada mais natural do que, as pessoas passando mais tempo em casa, passarem mais tempo mexendo na internet. O marketing atua, cada vez mais, programado para entender o que nós estamos dispostos a comprar, e ele atua muito bem nisso. Entendendo uma possível intenção do consumidor, nós automaticamente já recebemos promoções, frete grátis, compre um, leve dois. Diversas formas para que, se nós já estávamos com uma possível vontade de realizar a compra, o site nos dê um auxílio extra. Então, cuidar muito neste momento, principalmente com compras parceladas, porque pode fugir de vista alguma compra do orçamento. E também entender a real necessidade do compre um, leve dois. Ou compre um pouco a mais e ganhe frete grátis. Economizar mais é comprando menos, e não comprando mais, mais barato. Esse ponto deve ser observado.
Como se pode organizar estes gastos invisíveis?
O importante é entender a origem dos recursos da família. Entender se o provedor dos recursos tem uma recorrência de salário constante, como um funcionário público com estabilidade, ou, então, se é um autônomo que depende de estar na rua produzindo. Isso tudo vai fazer com que se entenda melhor o tamanho de uma reserva de emergência. Entendendo que eu tenho uma reserva de emergência de maior prazo quando eu sou um autônomo, eu vou conseguir saber se eu tenho que gastar menos ou cuidar mais dos possíveis gastos invisíveis. A primeira recomendação é não fazer uso da reserva de emergência para gastos não essenciais neste momento. E, também, um ponto importante a considerar: é que a renegociação de serviços atuais, como internet, pacote de telefone, é bem importante para que a gente possa aumentar os recursos, aumentar o caixa para possíveis gastos e custos lá na frente. O primeiro ponto é tentar renegociar com fornecedores, muitas vezes se consegue, renegociando, até serviços melhores do que os atuais, com preços mais baixos. E, talvez o mais importante, é se organizar. Não precisa ser algo muito complexo. Eu falo muito que pode pegar uma folha de papel, dividir no meio, colocar de um lado as entradas, e, do outro lado, as saídas. E, aí, vamos entender o balanço, entender o que mais representa de entradas e o que mais representa minhas saídas, e considerar, sim, estes custos invisíveis no lado da saída.
Mas, as famílias que não tem essa reserva ou que estão esgotando o caixa, com esse avanço da pandemia? Como se pode trabalhar no sentido de buscar alternativas, além de economizar?
O primeiro passo para maximizar o tempo de duração desse caixa, caso ele ainda exista, é diminuir os custos. Renegociar o que eu já tenho, para tentar algo mais barato, e tentar cortar aquilo que é mais supérfluo, que, muitas vezes, na pessoa física, é para lazer ou, para empresa, algum custo variável. Então, tentar renegociar e eliminar o que não faz sentido. Cheguei ao limite. Já fiz essa renegociação. O que posso fazer? Muitas vezes vai ser necessário recorrer a um terceiro. Talvez, ainda não se chegou a este momento, mas, não sabendo quanto tempo irá durar essa paralisação, é importante que as pessoas posterguem ao máximo essa necessidade. Mas, se não, pode ser possível recorrer a tomada de recursos. Então, se precisar tomar recurso via banco, é muito importante cuidar para que não se exagere, que seja necessário somente aquilo para curto prazo, porque sabemos que o custo de juros é um custo alto que também pode entrar como um custo invisível.
Tem como cuidar com as tarifas?
Sim, isso é importante cuidar. Aquele crédito fácil, rápido, talvez seja o mais caro. Então, cuidar ao acessar o caixa eletrônico e ter aquele crédito pré-aprovado. Por ele ser o mais fácil, talvez ele seja o mais caro. Existe um termo que se chama Custo Efetivo Total, na tomada de empréstimos, que embute não só o custo de juros, mas também os custos de taxas e diversos outros itens. O custo efetivo total de uma tomada de empréstimo é muito maior do que as vezes se projeta numa conversa inicial. O primeiro ponto, quando se fala em tomada de recursos, caso isso venha a ser necessário, é comparar diversas instituições e não tentar pegar o primeiro crédito que aparece, principalmente aquele de caixa eletrônico. Fugir principalmente do crédito de cartão de crédito e do cheque especial. Por mais que a taxa básica hoje venha para 2,25%, a menor da história, sabemos quanto custa um juro de cartão de crédito. Uma vez que a pessoa tomou o recurso e fez uso dele, não consegue pagar num primeiro, segundo mês, para que ela dê a volta, fica muito difícil mesmo. Cuidar muito a tomada de crédito e comparar mais de uma instituição.
Confira a entrevista completa com Augusto Santa Chatarina para o programa Acerto de Contas:



