
Se a tradicional autoironia argentina define o peronismo como "coração de mãe", onde há espaço para filhos dos mais variados perfis, também se sabe desde Caim e Abel que as diferenças entre irmãos na disputa por espaço podem resultar em embates por vezes mortais.
Foi mais ou menos isso o que ocorreu em 20 de junho de 1973, quando o líder Juan Domingo Perón retornou a Buenos Aires, de seus quase 18 anos de exílio em Madri, e, na busca por espaço ao seu lado, peronistas de direita e de esquerda se digladiaram próximo ao aeroporto de Ezeiza, expondo divergências latentes no movimento.
Até hoje, 40 anos depois, não se sabe o número de mortos no confronto (estimativas variam entre 13 e 25 mortos, e mais de 300 feridos) nem a quantidade de pessoas que estavam no cenário onde ele se desenrolou. Há quem fale em 3 milhões, mais que 10% da população do país à época.
O que se sabe ao certo é que ali se inaugurou uma década de violência política. A Argentina se enredou em um clima de rivalidades, e, menos de três anos depois, em 24 de março de 1976, viu chegar ao poder uma ditadura militar que deixou, segundo entidades de direitos humanos, 30 mil mortos e desaparecidos.
- São 10 anos de escalada de uma violência que não houve em nenhum outro país. O massacre de Ezeiza foi o marco desse período. Naquele dia, havia festa nas ruas de Buenos Aires, porque Perón retornava. Mas Perón era um pai e iria optar por um dos grupos em confronto. Eles, então, brigaram à morte. E, como se viu depois, a direta venceu - relata o psicanalista Abrão Slavutzky, que trabalhava em uma policlínica de Buenos Aires e, de plantão naquela quarta-feira, assombrava-se com a chegada de feridos.
O voo esperado
mudou sua rota
Os argentinos começaram em 14 de junho a preparar o regresso do líder. O presidente Héctor Cámpora (eleito com o lema "Cámpora no governo, Perón no poder" e tendo a plataforma de preparar a volta de Perón depois de se encerrar o governo do ditador Alejandro Lanusse) viajou a Madri. Motivo: buscar Perón. Um ato público foi programado para local próximo ao aeroporto de Ezeiza, no dia 20.
O clima de expectativa e festa nas ruas de Buenos Aires, com seus muros e paredes estampados por pôsteres de Perón, transitou para a tensão, a violência e o luto. Em um simbolismo relativo aos 18 anos de exílio, 18 mil pombas adestradas voariam pelos céus da cidade, uma representação da liberdade. Perto do local onde Perón chegaria, os peronistas começaram uma vigília na véspera. Madrugada adentro, as provocações eram verbais com tentativas de avanço até o palco. Às 15h30min, um intenso tiroteio. Às 17h, o anúncio: Perón chegara, mas desviara a rota para o aeroporto militar de Morón.
Os montoneros, grupo guerrilheiro da esquerda peronista, foram receber o líder decididos a impressioná-lo, mostrando força por meio de uma grande mobilização. Sindicalistas, em sua maioria da Confederação Geral do Trabalho (CGT), tinham o mesmo propósito. Na véspera, 2 mil integrantes do Comando de Organização, um grupo direitista, postaram-se sob os galhos de árvores nas cercanias do palco. Queriam protagonismo. Detalhe: estavam fortemente armados.
O tiroteio começou, partindo de revólveres, fuzis e metralhadoras, a 300 metros do palco de onde o líder falaria, o ponto mais próximo possível na Autopista Ricchieri. A correria se seguiu. As pombas anteciparam o voo, só que desordenado. Os músicos que tocariam para Perón deixaram seus instrumentos e saíram em disparada. Perón evitou aterrissar em Ezeiza. Havia pânico e perplexidade naquele dia em que o presidente Cámpora, um esquerdista moderado, definira como "de reencontro nacional".
Exilado em Buenos Aires, o ex-deputado e ex-chefe da Casa Civil do governo gaúcho Flávio Koutzii viveu a tensão daquele dia, grudado a um rádio no centro portenho.
- Eu era politicamente ativo, me surpreendi com a violência. Sempre houve setores confrontados, mas aquele dia mostrou a expressão trágica disso. Foi o prenúncio materializado do que veio com a Triple A (Aliança Anticomunista Argentina, comandada por José López Rega) - conta Koutzii, que não compactuava com o peronismo (militava em grupos políticos mais à esquerda) e que hoje se lembra de um centro portenho esvaziado naquela quarta-feira triste.
Grupos em ação
Os peronistas se dividiam em duas grandes alas, uma que defendia mudanças socioeconômicas e outra de traço conservador
1) Montoneros - Esquerda mais representativa dentro do movimento peronista, que era integrado por organizações estudantis, mulheres da Agrupación Evita, aposentados, trabalhadores urbanos e rurais, entidades de inquilinos etc.
2) Peronismo de Base ou "PB", de esquerda, aliado eventual dos montoneros.
3) A corrente "62 Organizaciones Sindicales", que controlava a Confederação Geral do Trabalho (CGT) e tinha linha majoritariamente conservadora.
4) Grupos de direita pequenos que se juntaram e deram origem a órgãos paramilitares, integrados, por exemplo, pelo Comando de Organización (CDO) e com forte influência do ministro do Bem-Estar Social, José López Rega, conhecido como El Brujo.
Número 2 dos motoneros se disse surpreendido
Segundo homem na cúpula dos montoneros (o nº 1 era Mario Firmenich), Roberto Perdía contou para Zero Hora na quinta-feira, por telefone, que o "massacre de Ezeiza" foi o "pontapé inicial" do cruento golpe militar que colocou a Argentina nas sombras em 24 de março de 1976.
- Ali começou. A partir daquele 20 de junho, a perseguição, os desmandos, a violência entraram nas nossas vidas. Menos de três anos depois, veio o golpe e tudo o que se viu. Eu, por exemplo, tive de viver em vários países: Peru, Brasil, México, Nicarágua.
Perdía conta que a recepção à bala por parte da direita peronista surpreendeu seu grupo, que, entre outras ações guerrilheiras, sequestrou e matou o general Pedro Eugenio Aramburu e explodiu uma bomba na sede daPolícia Federal (deixando 24 mortos).
- Estávamos em um ônibus, a uns cem metros do local onde tudo iria ocorrer. A lataria do ônibus começou a ser perfurada por balaços. Foi uma traição em meio ao que deveria ser uma festa, e não tenho dúvidas de que os Estados Unidos, na época, estavam por trás. Foi naquele ano que houve os golpes militares no Uruguai e no Chile, com os americanos por trás - diz.
Perdía sustenta que se impunha uma definição sobre o que viria a ser o peronismo sob Perón. E os grupos de direita, tendo ou não os EUA como suporte, venceram: Perón pendeu para a direita, influenciado pelo ministro do Bem-Estar Social, José López Rega, El Brujo, o homem que liderava a direita peronista e que depois criou a Aliança Anticomunista Argentina (Triple A).
ENTREVISTA - Rosendo Fraga, historiador: "Eclodiu uma luta surda."
O historiador e cientista político argentino Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos União para a Nova Maioria e um dos principais estudiosos do seu país, analisou, em entrevista por telefone para Zero Hora, a Batalha de Ezeiza e seus reflexos na atualidade. Leia trechos:
Zero Hora - O que estava por trás do enfrentamento?
Rosendo Fraga - Ambos setores se enfrentaram pelo controle do palanque desde onde iria falar o líder do peronismo. Eclodiu uma luta surda que vinha se desenvolvendo dentro desse movimento político e que Perón vinha postergando com habilidade. Foi o início da ruptura entre Perón e a esquerda do seu movimento, liderada pelos grupos juvenis.
ZH - O massacre se reflete nas divisões do atual peronismo?
Fraga - Marx disse que a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. Há certa semelhança entre o que ocorre hoje no peronismo e o que teve lugar quatro décadas atrás. A esquerda do movimento, que responde à presidente Cristina Kirchner, impulsiona um modelo chavista que se enfrenta com o peronismo tradicional, representado por dirigentes sindicais como Hugo Moyano. Eles têm posição ideológica diferente e se articulam no peronismo dissidente. O simbólico também tem participação. A agrupação que melhor expressa Cristina se chama La Cámpora, que toma o nome do presidente de centro-esquerda que Perón substitui depois do massacre. O grupo do governador de Buenos Aires, Daniel Scioli, denomina-se La Juan Domingo, em homenagem a Perón.
ZH - Esse legado afeta o país?
Fraga - A política argentina tem fortes dificuldades para consensos. Há uma cultura do dissenso, que nos anos 1960 era representada por peronismo e antiperonismo, nos 1970 pelo conflito violento entre esquerda e direita do peronismo e, agora, pelo enfrentamento entre o kirchnerismo e o antikirchnerismo.




