Deve ter sido no final da década de 70 que procurei, pela primeira vez, o Paixão Côrtes. Havia um festival de música nativa em uma das emissoras de televisão de Porto Alegre, e um grupo de amigos estava a fim de se apresentar defendendo uma de nossas canções.
E lá fui eu com a missão sagrada de procurar o Paixão na Secretaria de Agricultura do Estado para lhe fazer uma crucial pergunta: "Quais instrumentos de percussão poderiam ser usados neste caso?". Minha surpresa, e a dos outros, foi enorme, com a resposta: "Quase não há instrumentos de percussão na música gauchesca. Talvez, vocês possam usar o triângulo". Triângulo? Mas como? Não se tratava de um instrumento ligado à música nordestina?
O Paixão para nós era um ícone e nem sequer discutimos. Na apresentação, lá estava eu, meio que escondido atrás do grupo, com um triângulo nas mãos e uma certeza: se o Paixão falara... Nossa aventura terminou naquela noite, uma vez que não fomos para a final.
Agora o personagem decisivo da cultura gaúcha e do movimento tradicionalista, que passou pelo Olympia de Paris, pelo palco da Universidade de Sorbonne e um mês na Inglaterra divulgando seus livros, está à minha frente.
- Buenas, tchê! Te escondes que é uma beleza, vivente!
Entramos, o Dom Luís vem lhe dar as boas-vindas, recebe um afago em contrapartida.
- A que devo?
- Me falam tanto neste teu rancho perdido em um lugar qualquer do pampa que a minha curiosidade mordeu forte e eu não aguentei. É de uma belezura incrível o lugar que escolheste para teu exílio. Também eu me acolherei no interior, em uma de nossas praias, e me sinto bem. Não sei se conseguiria viver num lugar como este. Não te parece ermo?
- Já caminhei demais por este mundão, e nem sempre a alegria andou comigo.
- E no inverno como te aguentas?
No inverno, amigo Paixão, há uma morena com olhos de graúna, cujo corpo se gruda no meu. Suas mãos me enfeitam, seus beijos acendem fogueiras e não há inverno que a ela resista. Porque, se há algo de verdadeiro a nos aquecer, são as lembranças.
