
Existe um Rio Olímpico idealizado pelos organizadores dos Jogos de 2016, a primeira edição na história do evento promovida em uma cidade da América do Sul. Em um cenário no qual o substantivo legado se converte em interjeição nos discursos oficiais, as obras seguem seu curso sem grandes sobressaltos – embora algumas delas, fiéis ao velho padrão brasileiro, ficarão prontas quase à última hora.
Nada que embace a "sensação de dever cumprido com antecipação", como sustentou o ministro do Esporte, Ricardo Leyser, durante apresentação da nova Marina da Glória, a base da competição da vela, em 7 de abril, quando então faltavam 120 dias para a abertura da Olimpíada.
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Diretor de Esportes do Comitê Rio 2016, Agberto Guimarães faz uma analogia com a época em que competia nas provas dos 800m do atletismo para mostrar confiança com o ritmo dos trabalhos:
– Estamos na reta final de preparação. Já tivemos todos os treinos preparatórios, já fizemos índice, já estamos classificados e, agora, estamos no polimento. É aquela fase em que a gente cuida para acertar a largada, por exemplo. E, obviamente não dá para treinar demais, senão cansa.
– As instalações (esportivas) já não preocupam. Hoje estamos com uma cabeça totalmente na operação. O comitê já assumiu boa parte das instalações e começou a montagem das estruturas temporárias, como tendas, trailers, tudo aquilo que compõe o circo da Olimpíada. É muito trabalho a ser feito, mas temos certeza de que vai dar tudo certo – completa Gustavo Nascimento, diretor geral de Instalações do comitê.
As declarações domésticas de otimismo receberam a bênção de Nawal El Moutawakel, presidente da comissão do Comitê Olímpico Internacional (COI) responsável pelo acompanhamento e pela fiscalização dos projetos. Depois de distribuir sorrisos em eventos pela cidade ao lado do presidente do Comitê Organizador Rio-2016, Carlos Arthur Nuzman, e do prefeito Eduardo Paes, a marroquina fez um balanço positivo da preparação brasileira, destacando o caminho percorrido nos últimos sete anos.
– O último trecho é sempre mais difícil, mas acreditamos que o Rio 2016 será motivo de orgulho. Essa crença vem do fato de que muitas das instalações olímpicas já terminaram, há quase 98% de finalização e testemunhamos isso nas nossas visitas – disse a ex-campeã olímpica dos 400m com barreiras em entrevista coletiva no encerramento da 10ª e última reunião de preparação para os Jogos, no dia 13.
Queixas vão de qualidade da água a corte de orçamento
Mas essa visão idealizada do Rio Olímpico não é compartilhada por um grupo de atores que cuida do espetáculo do lado de dentro das arenas. Na terça-feira, uma reunião com integrantes da Associação dos Esportes Olímpicos dos Jogos de Verão (Asoif), em Lausanne, na Suíça, expôs a insatisfação dos dirigentes das principais federações internacionais. De acordo com documentos obtidos pelo jornal O Estado de S. Paulo, dirigentes reclamaram que autoridades brasileiras e os organizadores da Olimpíada carioca não "fizeram o suficiente".
A lista de queixas é extensa. Começa por velhos problemas, como o fracasso dos planos de despoluição da Baía de Guanabara (palco das regatas da vela) e da Lagoa Rodrigo de Freitas (cenário do remo e da canoagem velocidade), passa pelo atraso na obra do velódromo (o evento-teste da modalidade foi cancelado em razão da demora da instalação da pista de ciclismo de velocidade) e chega ao receio, diante do corte de 12% do orçamento do Comitê Organizador, de que faltará dinheiro para a montagem final das instalações nos locais de competições, especialmente na região de Deodoro.
– O corte do orçamento não vai impactar a ponto de prejudicar a operação – sustenta Agberto.
Uma das entidades mais descontentes é a Federação Internacional de Ginástica, que se mostrou preocupada com as quedas de luz na Arena Olímpica do Rio (HSBC Arena), umas das nove instalações do Parque Olímpico da Barra, durante o evento-teste realizado de 16 a 22 de abril. O problema se repetiu na quarta-feira no Estádio Aquático, palco do Troféu Maria Lenk, que serviu de evento-teste da natação. De acordo com o Comitê Rio 2016, os sistemas de energia ainda não são os definitivos.
Grupo do COI acompanhará preparativos finais do Rio
Os sinais de insatisfação com os rumos da preparação do Brasil para a Olimpíada não são emitidos apenas do Exterior. No evento-teste do levantamento de peso, realizado de 7 a 10 de abril na Arena Carioca 3, na Barra, o técnico da seleção brasileira, Edmílson Dantas, relatou problemas nos tablados destinados aos atletas na área de aquecimento.
A Copa do Mundo de Tiro Esportivo, disputa que começou no dia 14 e se encerra nesta segundafeira no mesmo palco que receberá as provas da modalidade na Olimpíada, motivou críticas do dirigente que representa a modalidade no Brasil. Segundo o gaúcho Durval Balen, presidente da Confederação Brasileira de Tiro Esportivo (CBTE), a empreiteira contratada para fazer a reforma da instalação de Deodoro entregou a obra sem conclusão.
– Havia muitas improvisações na área de competição. O mais grave é o fato de a CBTE não ter sido ouvida em nenhum momento pelo Rio-2016. A gente é que conhece os detalhes da modalidade, temos o expertise. Poderíamos ter sido consultado antes – disse Balen.
O dirigente afirmou ter recebido a promessa do comitê de que, a partir de agora até os Jogos, os técnicos da confederação acompanharão os trabalhos no Centro Olímpico de Tiro.
O presidente do COI, Thomas Bach, que se mostrou compreensivo com a situação econômica do país em todas as declarações até agora, reconheceu que o evento vai ocorrer em circunstâncias "sem precedentes". Por via das dúvidas, o comitê decidiu enviar ao Rio de Janeiro um grupo graduado para acompanhar de perto os preparativos finais da Olimpíada.
*ZHESPORTES