Um clássico Gre-Nal marcado por jogadas criativas, contra-ataques fulminantes e muita provocação é disputado todos os dias na rua principal de Curumim, a poucos metros do mar. O primeiro gol foi do Inter. Na época, início da década, o colorado andava em alta, e o comerciante de Canela Osmar Müller, 68 anos, resolveu pintar a casa recém-construída em vermelho e branco, as cores do seu time.
Os gremistas do sobrado ao lado não se abalaram. Foram para cima e deixaram tudo igual no placar, pintando a residência de azul e pondo as cores do tricolor até na calçada.
Começou ali um jogo de lá e cá que até hoje rende lances dignos de replay. Bastou Osmar pôr o símbolo do Inter na fachada, por exemplo, para o vizinho Marcelo Oliveira, 34 anos, pintar o distintivo do Grêmio no ponto mais nobre da outra casa, pertencente aos sogros dele.
Osmar deu o troco com uma inscrição, correndo em toda a extensão da residência: "Aqui mora um colorado feliz, campeão de tudo". A equipe tricolor, sem títulos relevantes havia mais de uma década, andava cabisbaixa e tentou mostrar poder de reação, mas não sabia muito bem o que escrever. Optou por um: "Sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra". Depois vieram as bandeiras, somando três do Inter e duas do Grêmio na fachada das casas vizinhas.
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O Inter claramente parecia estar em vantagem no marcador. Mas os gremistas conseguiram uma virada espetacular. Na sexta-feira passada, quando Osmar chegou de Canela, foi apanhado com a zaga fora do lugar. Marcelo, que mora no Rio de Janeiro, mas tinha vindo passar uns dias em Curumim, providenciou reforços de peso. Colocou diante da casa tricolor uma imensa faixa que, além de citar o Grêmio como "Pentacampeão da Copa do Brasil 2016", garantia que "Nada pode ser maior" e ainda espezinhava com a inscrição "5x0" acima da data 09/08/2015. O gremista também colocou na fachada banners em homenagem aos ídolos Renato Portaluppi e Hugo De León.
Osmar, o colorado, não se deu por vencido.
– Eu esperava bem mais. O Marcelo até que foi sensível – comentou.
– Não dá para exagerar. Tem de ir machucando devagarinho. A gente ia colocar mais coisas, ia colocar uma faixa amarela na calçada, avisando: "Cuidado para não cair". Mas em respeito ao vizinho e a pedido do seu Angenor, meu sogro, não colocamos – respondeu Marcelo.
As flautas são constantes entre as duas famílias de vizinhos, que têm 30 anos de convivência nos veraneios de Curumim. Ultimamente, no entanto, Osmar anda levando a pior, por causa da queda do Inter para a série B. Mas não se retranca. Ele não tinha planos de ir à praia no fim de semana, mas quando soube que ZH pretendia fazer uma reportagem sobre o Gre-Nal das casas, não se escondeu do jogo.
– Fui com o Inter para Tóquio e Dubai. Como é que não vou ir a Curumim? – desafiou.
Quando a equipe de ZH chegou, a gremistada estava toda no pátio da frente, envergando com orgulho a camisa do time. Chamaram Osmar na casa vizinha, mas ele custou a aparecer. Os tricolores não perdoaram:
– Ele só vai chegar na segunda – zombou Marcelo.
Osmar apareceu e já avançou o time:
– Eu vou jogar a segunda divisão meio contra a vontade, mas como o vizinho já jogou duas vezes, vamos aproveitar toda essa experiência.
Nisso, outro craque do escrete gremista, Evandro Pombana, 46 anos, cunhado de Marcelo, entrou na dividida, fazendo uma alusão ao fato de a residência tricolor ser um pouco mais alta do que a do colorado.
– Se observar bem, vai ver que esta casa é mais levantada. A outra é rebaixada.
Marcado por vários adversários e tendo para tabelar apenas o parceiro de viagem a Dubai Luiz Carlos Reis, 59 anos, Osmar tratou de amorcegar o jogo. Lembrou em detalhes partidas do último Brasileirão, disse que o Inter fez muito esforço para cair, xingou Celso Roth e só então, de supetão, entrou na área inimiga para arrematar:
– O vizinho está de parabéns. Depois de 15 anos de sofrimento, andava meio carente.
Enquanto os gremistas, convencidos, já falam em fazer um novo piso na casa, para abrir espaço a novas homenagens ao Grêmio, Osmar, ressabiado pelo momento delicado do colorado, não planeja adições nos ornamentos em vermelho e branco de sua residência de praia.
– Vai ter de ficar assim, por enquanto. Quando o Inter estava no topo, eu trazia faixas que fechavam toda a frente. Bons tempos. Mas eles vão voltar – garante.
Quando Osmar já não estava por perto, Fátima Rosele Evaldt, 46 anos, mulher de Evandro, mostrou que não se compadece com as agruras do vizinho.
– Ele está chateado agora, mas durante anos a gente é que teve de aguentar muita coisa – explicou.
Esse Gre-Nal permanente, com novos lances a cada estadia na praia, transformou as casas vizinhas em ponto de referência em Curumim. Todo mundo que passa faz um comentário, entra na torcida, tira fotos. Na noite de Réveillon, por exemplo, um sujeito vestido de branco ajoelhou-se diante da residência tricolor, tirou um espumante de uma caixa de esferovite e usou a garrafa para desenhar um sinal da cruz imaginário no ar. Depois, começou a entoar o hino do Grêmio. Da varanda, a família contemplou a cena e se juntou à cantoria.
Apesar da rivalidade ferrenha, gremistas e colorados de Curumim fazem questão de manter uma relação fraterna e saudável.
– Perguntam se somos inimigos. Mas é o contrário, isso aqui é muita amizade – explica Osmar.
Marcelo concorda:
– Um não existe sem o outro. Se fosse só a nossa casa, não tinha graça nenhuma fazer a decoração.
Uma prova disso foi a ocasião em que Marcelo trouxe um time de amigos pagodeiros para abrilhantar a cidadela gremista. Em resposta, Osmar resolveu botar em campo dez gaiteiros. Cada grupo tocava num pátio, separados pelo muro, mas no final estavam todos misturados, executando as mesmas melodias. O confronto acabou com gremistas e colorados dançando juntos.

