
Mudanças, mesmo as revolucionárias, são um tanto difíceis de perceber enquanto acontecem. O futebol vive um momento assim. Feito papagaios, repetimos conceitos ultrapassados do que entendemos como única saída para formar um time competitivo, enquanto uma profunda transformação se escancara na nossa frente e nos recusamos a olhar.
Há cerca de três décadas, o futebol se transformou em uma batalha de contra-ataques. A preocupação principal era a organização defensiva que permitia o desarme, e a partir dele, a saída rápida. O cenário mudou a partir do sucesso estrondoso do Barcelona de Guardiola, e hoje o jogo de valorização da posse de bola e lances trabalhados pelo passe curto recuperou o espaço perdido.
Um dado estatístico dá ideia da mudança. Um texto do jornal inglês The Guardian cita a drástica redução dos gols oriundos de contra-ataques na Liga dos Campeões. Em 2005-06, pouco mais de 40% dos gols de bola rolando vieram de contragolpes. Quase 10 anos depois, em 2014-15, o número caiu pela metade e chegou a pouco mais de 20%.
A queda se explica por dois fatores. O primeiro é a proliferação, a partir do Barça, de times que não têm pressa para chegar ao gol. Trabalham a bola, rodam de um lado ao outro, movimentam-se para confundir a marcação. Em resumo, atacam em vez de contra-atacar. O segundo é a marcação agressiva, lá na frente, outra estratégia consagrada por Pep. Ela mata o contra-ataque na raiz ao buscar o desarme imediato de quem acabou de desarmar.
Há quem minimize as transformações e diga que não há nada de novo, que o futebol ofensivo competitivo é cria dos primeiros momentos da história do esporte. Verdade, mas a retomada desse modelo, com medidas que o tornaram viável em tempos de preparação física apurada, é motivo suficiente para questionarmos a forma com que analisamos o jogo.
O sucesso do estilo que valoriza a bola e ataca foi esporádico nas últimas décadas, ficou relegado a exemplos isolados como o Ajax de Van Gaal nos anos 1990, mas retornou com tudo nas últimas temporadas. Não é único, e permite o convívio com quem segue a cartilha do contra-ataque, mas sua recuperação é a revolução silenciosa que muitos do mundo do futebol ainda não perceberam.
* ZH Esportes



