
Existe uma explicação para que o Gre-Nal escolhido pelos tricolores para ser recordado na série Saudade do Esporte seja o do 5 a 0. E não é apenas pela goleada, marcante, a maior em um século. É que essa vitória, no Dia dos Pais de 2015, é considerada hoje, cinco anos depois, o ponto da virada. Foi a partir dela que o Grêmio ganhou fôlego e reencontrou seu caminho de títulos relevantes após um longo jejum.
Até por isso, é importante contextualizar. O Grêmio, até aquele 9 de agosto de 2015, vinha apresentando bom futebol sob comando de Roger Machado, escolhido para substituir Felipão após um mau começo no Brasileirão e, principalmente, a perda do Gauchão. Apesar das boas atuações, era um clube pressionado pelos então 14 anos sem títulos de expressão nacional e cinco anos sem o Estadual. O Inter, presidido por Vitorio Piffero, era treinado pro Diego Aguirre até três dias antes do clássico. O uruguaio foi demitido após um 0 a 0 em casa com a Chapecoense e, mais do que tudo, pela derrota para o Tigres na semifinal da Libertadores. A justificativa da direção colorada: estava criando um "fato novo" para o Gre-Nal.
— Essa goleada foi um marco da nossa consolidação como grupo de trabalho, como forma de atuação. Conseguir uma vitória tão impactante sobre o maior rival, com nosso estádio lotado, com uma energia muito boa, foi um dos passos iniciais para o que veio depois: três temporadas seguidas de bom futebol e títulos importantes — define o goleiro Marcelo Grohe.
Odair Hellmann foi o interino daquele jogo. Sem D'Alessandro, escalou o Inter mais experiente possível, pressionado pelos desejos da direção. Mais tarde, contou que, depois da derrota, decidiu que toda vez que fosse chamado para apagar incêndios, não se deixaria mais levar por pressões externas.
No Grêmio, Roger deu andamento ao sistema que estava funcionando. Era um Grêmio que rompia com um estilo tradicional: não havia volante brucutu nem centroavante aipim. Um time que jogava com a bola no chão, trocando passes, enrolando os adversários.
— O Gre-Nal exige muita concentração. Lembro que treinamos bastante e entramos em campo muito focados — conta o lateral-direito Rafael Galhardo, titular naquele jogo.
De fato, o time da casa começou acelerado. Aos 10 minutos, Alisson cometeu pênalti em Giuliano. Douglas cobrou para fora. Em vez de se abalar, o Grêmio cresceu. Em vez de se tranquilizar, o Inter afundou.
Aos 34, Giuliano pegou na veia um rebote de escanteio, golaço. Antes do intervalo, Luan chutou de fora da área, Alisson se esticou e não alcançou: 2 a 0.

Se havia qualquer plano para tentar mudar o cenário no vestiário, o Inter viu sucumbir em três minutos. Novamente Luan superou o goleiro, hoje considerado o melhor do mundo pela Fifa, e deu números de goleada ao clássico.
Aproveitando o desespero colorado, que se atirou ao ataque tentando diminuir o placar - e justiça seja feita a Marcelo Grohe, só não conseguiu porque o goleiro fez boas defesas e, quando não conseguiu, viu a trave salvar -, o Grêmio alcançou o histórico número nos 15 minutos finais. Aos 30, Fernandinho foi lançado, entrou na área e marcou o quarto. Pouco depois, o mesmo Fernandinho armou a jogada pelo lado direito e cruzou. Bobô se preparava para marcar quando Rever, ao tentar impedir, fez contra.
Deu tudo tão certo naquele domingo para o Grêmio que todos os seis resultados paralelos positivos que o time precisava para voltar à zona de Libertadores aconteceram. A equipe entrou na rodada como oitavo lugar e saiu dela em terceiro.

— Foi um jogo importante na nossa carreira. Aquele placar nos fez muito bem, foi o ano todo de festa, porque o placar foi muito elástico, fomos tratados como reis em Porto Alegre, entramos para a história do clube — reforça Galhardo.
Para um torcedor em especial, o jogo também mudou a vida. Ou melhor, a perna. Rodrigo Adams, comunicador das rádios Atlântida e 92 FM, participava do programa Show de Bola, da Gaúcha, quando ouviu o palpite do também gremista Caco Arnt de que o jogo seria 5 a 0. Na hora, prometeu: se fosse mesmo esse placar, tatuaria os nomes de todos os que fizessem os gols.
Na segunda-feira pela manhã, horas depois do Gre-Nal, eternizou na panturrilha direita uma mão estilizada com os nomes de Giuliano, Luan, Luan, Fernandinho e Rever. Cinco anos depois daquela goleada, o que sente ao ver a tatuagem?
— Sinto que poderia ter sido seis, se o Douglas não tivesse perdido o pênalti. Assim não teria a tatuagem. Cinco foi pouco.
Apesar da grande vitória, o Gre-Nal deixou um gostinho de quero mais na torcida gremista. O time, na rodada seguinte, ganhou do Atlético-MG no Mineirão, com direito a golaço de Douglas e pareceu que, enfim, poria fim à seca de títulos. Mas não foi o que 2015 reservou. Mesmo apresentando bom futebol, não repetiu no segundo turno a forma do primeiro, perdeu pontos importantes - como o Gre-Nal do Beira-Rio - e terminou o Brasileirão em terceiro. A vaga direta à Libertadores também foi frustração no ano seguinte, quando o Grêmio caiu para o Rosario Central (treinado por Eduardo Coudet) em um placar somado de 4 a 0. Roger não resistiu à queda e à perda do Gauchão. Saiu para a entrada de Renato, comandante da conquista da Copa do Brasil.
No Inter, a derrota do Gre-Nal foi o prenúncio do que viria. Argel Fucks foi contratado, e com ele o time somou 18 pontos com a tática "1 a 0, gol de Vitinho" (o atacante foi responsável por seis vitórias por esse placar). Em 2016, foi rebaixado.
Ouça os gols
Brasileirão - 17ª rodada, (9/8/2015) - GRÊMIO 5x0 INTER
- Gols: Giuliano, aos 34, e Luan, aos 42 minutos do primeiro tempo; Luan, aos 3, Fernandinho, aos 30, e Réver, contra, aos 38 minutos do segundo tempo
- Local: Arena do Grêmio, em Porto Alegre (RS)
- Renda: R$ 1.745.584
- Público: 46.010 (42.432 pagantes)
- Arbitragem: Dewson Freitas Silva (PA), auxiliado por Emerson Augusto de Carvalho e Marcelo Carvalho van Gasse (ambos SP, todos da Fifa)
- Cartões amarelos: Edinho (Grêmio); Alisson, Rodrigo Dourado e Eduardo Sasha (Inter)
- GRÊMIO: Marcelo Grohe; Galhardo, Geromel, Erazo e Marcelo Oliveira; Edinho, Maicon, Giuliano e Douglas (Maxi Rodríguez); Luan (Bobô) e Pedro Rocha (Fernandinho). Técnico: Roger Machado
- INTER: Alisson; William, Réver, Juan e Ernando; Rodrigo Dourado, Wellington, Anderson (Alex), Eduardo Sasha e Valdívia (Vitinho); Lisandro López (Nilton). Técnico: Odair Hellmann

