
A dupla Gre-Nal colocará o Gauchão em segundo plano neste domingo (31). Como ambos os clubes entrarão em uma semana vital na Libertadores, com o Inter em busca da vaga antecipada às oitavas de final e o Grêmio tentando sobreviver no Grupo H, as viagens a Caxias do Sul e a Ijuí parecem um fardo — mesmo que os jogos sejam pelas semifinais do Estadual. O time de Odair Hellmann irá ao Centenário com a cabeça e o coração no River Plate. A equipe de Renato Portaluppi fará o mesmo no 19 de Outubro, já pensando na Universidad Católica. A Dupla correrá risco bem calculado em suas partidas no Interior.
No cenário atual do futebol brasileiro, com jogos aos domingos e às quartas, na prática, as equipes têm apenas um dia para treinar de maneira mais forte. Na véspera do jogo, o treino geralmente é mais leve. No dia depois da partida, é apenas regenerativo. Assim, a sexta-feira surge como o dia de trabalhos mais fortes e, em muitos casos, fechados. Para o preparador físico Marcelo Martorelli, ex-Flamengo, nos tempos de Paolo Guerrero, o rodízio tornou-se obrigatório no Brasil.
— É algo polêmico, um mal necessário. Mas preservar é preciso, pois é impossível em nosso calendário se jogar com a mesma equipe duas vezes por semana. Não há jogador que resista. Nunca se jogou tanto e em nível tão alto como agora — entende Martorelli.
— Cada clube precisa definir a sua estratégia. Por um lado, um time reserva em campo tira a torcida do estádio. Por outro, poupar os titulares pode te levar a títulos futuros. Certa vez, no Flamengo, fomos para um clássico com o Botafogo sem conseguir treinar uma vez sequer na semana. São os riscos de um calendário curto e cheio de competições — pondera Martorelli.
O analista dos canais ESPN Renato Rodrigues entende que o revezamento de jogadores em meio ao Estadual é importante para os grandes clubes. Pondera que, na "Guerra do Rodízio", os colorados têm mais a perder.
— O Inter tem mais problema na fluência do seu jogo, e isto já fica claro com os titulares. Sem eles, o problema tende a ficar maior. Já o Grêmio tem uma maneira de jogar bem definida e o time reserva costuma segurar bem, ainda que a qualidade caia. Já passou da hora de, no Brasil, vermos o rodízio como algo positivo, com clubes tendo pelo menos 25 jogadores em condições de manter o nível de um time. Porque se paga um preço alto demais para se jogar os Estaduais — analisa.
Inter: oportunidades aos novatos
Preservar passou a ser uma espécie de palavra de ordem nas recentes temporadas do Inter. Depois da péssima experiência de 2010, após o bicampeonato da América, quando Celso Roth poupou o time titular por quase quatro meses antes de ir ao Mundial e ser surpreendido pelo Mazembe, o clube deu um tempo no mantra do "resguardar para durar a temporada toda". Retomou a alternância de times a partir de 2015, com a chegada do treinador uruguaio Diego Aguirre.
Na época, Aguirre recebeu de Abel Braga um time classificado à Libertadores, algo que não ocorria desde 2012. O uruguaio tratou de rodar os times A e B. Ficou a um passo da decisão com o River Plate, mas foi eliminado nas semifinais pelo Tigres-MEX. Dias depois, o técnico acabou demitido em uma súbita decisão de diretoria, à véspera de um Gre-Nal que entrou para a história pela goleada de 5 a 0 imposta pelo Grêmio a um Inter em grave crise interna.
— Aquilo foi definido pela imprensa como rodízio, uma palavra que nem sequer existe em em espanhol. O que fiz no Gaúcho foi dar oportunidade aos jovens em partidas que não eram decisivas. Depois, eles foram muito importantes nos jogos da Libertadores — recorda Aguirre, que tornou titulares naquele ano novatos como William, Geferson, Rodrigo Dourado e Valdívia.
— Mas entendo que o rodízio é algo absolutamente necessário no futebol, sobretudo quando se tem diversas competições. É impossível manter o mesmo time com jogos aos sábados, às quartas, aos domingos. Tentei explicar isso anos atrás, mas não fui bem compreendido. Agora, é algo natural cuidar dos jogadores para que não se lesionem, para que todos possam manter o nível quando precisar usá-los. Hoje, todos os clubes fazem isso — acrescenta o ex-treinador colorado.
O Inter de Odair Hellmann, que foi auxiliar da comissão de Aguirre, em 2015 adota o revezamento desde o começo do ano. Assim, não há surpresa alguma no fato de mandar time reserva ao Centenário neste domingo. Afinal, com um projeto maior à frente, a Libertadores, na quarta-feira, os titulares serão preservados para o jogo contra o River. Mesmo poupando jogadores, o Inter perdeu recentemente por contusões William Pottker, Pedro Lucas e D'Alessandro.
— O mais importante foi termos passado bem por estes três meses de treinos e de jogos. Utilizamos todos os atletas e eles evoluíram muito nestes 90 dias. Todos estão aptos a jogar. Temos o grupo hoje em boas condições. Todos têm condições de entrar e manter a qualidade, em caso de necessidade. Esperamos ir longe e disputar o título do Estadual. A equipe está pronta, com ritmo e competitividade. Tivemos todos os atletas passando por este período com poucas interrupções — diz o preparador físico do Inter, Cristiano Nunes, defendendo as mudanças de formação.
Grêmio: da eliminação às taças
Uma má e uma boa experiência em 2016 mudaram a forma como o rodízio de jogadores é encarado no Grêmio. Depois do fracasso no Gauchão, já que a equipe priorizava a Libertadores, a fórmula de poupar acabou tirando o time de uma seca de conquistas com o título da Copa do Brasil.
No início do ano, sob comando do técnico Roger Machado, o time também teve largada instável na competição sul-americana, com derrota por 2 a 0 para os mexicanos do Toluca fora de casa. Depois, veio a recuperação na Arena, com uma goleada por 4 a 0 sobre a LDU, no jogo que marcou a estreia de Miller Bolaños pela equipe gaúcha. No entanto, dois empates em sequência com o San Lorenzo fizeram do quinto jogo, contra a mesma LDU, na altitude de Quito, um jogo decisivo para a classificação.
A vitória gaúcha por 3 a 2, em uma partida de alta exigência física, garantiu a vaga nas oitavas de final. No entanto, deixou boa parte do elenco descontado para o jogo seguinte, três dias depois, contra o Juventude, em Caxias do Sul, pela semifinal do Gauchão. Além disso, o grupo voltou do Equador numa desgastante viagem em voo de carreira, o que tornou mais complicada a recuperação dos atletas. Assim, o treinador se viu obrigado a deixar no banco titulares como Ramiro, Giuliano e Luan no Alfredo Jaconi. Como resultado, acabou derrotado por 2 a 0 no jogo de ida pelo mata-mata.
Na partida de volta, o Grêmio venceu por 3 a 1. Mas o gol qualificado do Juventude na Arena decretou a eliminação da equipe tricolor. Mas, também em 2016, poupar virou sinônimo de taça para o Grêmio. Já sob comando de Renato Portaluppi, o time usou formações alternativas no Brasileirão e colocou a equipe principal na Copa do Brasil. Como resultado, veio o pentacampeonato na competição sobre o Atlético-MG, que encerrou uma seca de 15 anos sem títulos de expressão. Coordenador técnico da equipe na época, Valdir Espinosa lembra de como a decisão de poupar foi tomada e faz um alerta.
— Nós privilegiamos uma situação de aspecto técnico. Nas vezes em que precisamos usar reservas, foi para não estourar nenhum jogador. Lembro que, em 1983, o Grêmio disputou 86 partidas. No ano passado, foram 73. Muitos dizem que hoje é mais difícil, mas no passado se jogava até mais vezes do que hoje. O rodízio pode deixar os atletas acomodados. Pelo lado técnico, é importante. Mas há 30 anos se jogava tanto quanto agora. O cansaço não é novidade — avalia Espinosa.
Desde o título da Copa do Brasil, o recurso foi seguidamente utilizado por Renato em meio às competições de mata-mata e as de mais fôlego, como o Brasileirão. E ajudou o time a levantar outras taças, como o tri da Libertadores, em 2017, a Recopa Sul-Americana e o Gauchão no ano passado. Mas o rodízio também teve alguns fracassos. Foi o caso ainda em 2017, na Copa do Brasil, com a queda para o Cruzeiro na semifinal.
Em 2018, o Grêmio caiu em uma fase anterior, nas quartas de final, para o Flamengo. Em 2019, a prática foi mantida por Renato, sobretudo nos jogos iniciais do ano, em que escalou equipe alternativa para que os titulares pudessem ter mais tempo de pré-temporada. O técnico crê que o fato de ter rodado os atletas no Gauchão deu mais musculatura ao grupo.
— É uma semana pegada, importantíssima para a gente, por isso que desde o início do ano tenho feito esse rodízio e está todo mundo bem. Independentemente de quem jogar, seja na zaga, ou em qualquer outra posição, tem minha confiança — explicou Renato.



