
Medos, alegrias e tristezas da adolescência são algumas das emoções que a literatura infantojuvenil costuma abordar. Ao mobilizar todos esses sentimentos, a descoberta da homossexualidade pode ser um prato cheio para aqueles que escrevem para jovens. Não é bem assim. O mercado para títulos com essa temática começa a se consolidar no Exterior, mas no Brasil ainda são poucos os que desafiam o tabu de falar sobre homoafetividade para leitores em formação. Hermes Bernardi Jr. é um deles.
O gaúcho, autor de mais de 20 livros, lança neste sábado Eu É um Outro, livro que relata uma sessão de terapia de Eduardo, garoto que se apaixonou pelo amigo Manon. O lançamento será no Baden Cafés Especiais (Jerônimo de Ornelas, 431), às 11h, e contará com um bate-papo do autor com a professora Márcia Ivana de Lima e Silva.
Essa é a primeira incursão de Bernardi pela narrativa infantojuvenil. Suas obras para crianças já haviam sido indicadas para importantes prêmios e, em 2013, Conchas venceu o Açorianos de Literatura na categoria infantil. O autor conta que o novo título chegou a ser recusado por três editoras:
- O livro era negado por conta da honestidade com que o protagonista reflete sobre seus desejos. No entanto, não o considero um livro sobre sexualidade, e sim sobre sentimentos e dúvidas humanos.
Escrito em um fluxo de consciência que alterna acontecimentos de diferentes tempos, como costuma ocorrer no ambiente psicoterapêutico, Eu É um Outro segura o leitor deixando em suspenso se o amor que Eduardo sente por Manon é recíproco. O título do livro é uma frase do poeta francês Arthur Rimbaud (1854 - 1891), cuja paixão por Paul Verlaine (1844 - 1896) serviu de inspiração para Bernardi.
Para Regina Zilberman, especialista em literatura infantojuvenil, o lançamento se insere em um mercado que ainda tem receio de tratar da homossexualidade:
- O tema tem recebido atenção há alguns anos por parte dos escritores para jovens, principalmente nos Estados Unidos. Mas, no Brasil, ainda é preciso avançar muito.
Eu É um Outro
De Hermes Bernardi Jr.
Infantojuvenil, Edelbra, 80 páginas, R$ 25
Sessão de autógrafos e bate-papo com o autor neste sábado, às 11h, no Baden Cafés Especiais (Jerônimo de Ornelas, 431)
Cotação: 3 de 5 estrelas
Top 3: Livros para jovens com personagens gays
-Will & Will, de David Levithan e John Green (Record, 2013, R$ 29)
O americano David Levithan já havia tratado da homossexualidade em títulos como Garoto Encontra Garoto, mas foi a parceria com John Green, autor do best- seller A Culpa É das Estrelas, que finalmente entrou nas listas de mais vendidos. Nesse romance, um menino que busca um modo de explicar a orientação sexual para sua mãe tem a vida transformada ao encontrar um garoto com o nome igual ao seu.
-Cidade do Fogo Celestial, de Cassandra Clare (Record, 2014, R$ 40)
Encerra a série de seis livros Instrumentos Mortais, que já vendeu 25 milhões de exemplares no mundo. Narra a história de uma adolescente que se descobre descendente de uma linhagem de heróis míticos e precisa lutar contra seres fantásticos. Defensora dos direitos dos homossexuais, Clare insere diferentes personagens gays em suas narrativas e afirma em entrevistas que mais autores deveriam se preocupar com a causa LGBT.
-Diário de uma Garota Atrevida, de Karina Dias (Malagueta, 2012, R$ 30)
Um dos poucos exemplos de títulos infantojuvenis gays do Brasil, o livro da carioca Karina Dias narra a primeira experiência homossexual de uma menina e como suas amigas a ajudaram a vencer o preconceito. A editora Malagueta também publicou Depois daquele Beijo (2011), da pernambucana Rafaella Vieira, sobre duas estudantes que se apaixonam.

