
*Por Juan Domingues
Ele sempre disse que não tinha a menor ideia sobre quem havia cunhado a expressão Novo Jornalismo. Dizia, ainda, que nem gostava muito dessa história de chamar algo de “novo”. E também negava que o tal Novo Jornalismo fosse um movimento para potencializar o Jornalismo Literário, gênero cuja narrativa de não-ficção se apropria de estratégias da literatura. Podia ser apenas charminho do Balzac da Park Avenue, apelido que ganhou pela escrita talentosa, que misturava a sofisticação da famosa avenida de Nova York com a simplicidade do romance realista. O fato é que essa aparente rejeição não foi suficiente para apartar o nome de Tom Wolfe do Novo Jornalismo. Ao contrário. Wolfe, que morreu nesta terça-feira em um hospital de Manhattan, virou o principal ícone de uma geração de jornalistas que revolucionou o jeito de escrever reportagens.
Ao mesmo tempo em que a palavra “novo” parecia incomodar Wolfe , ele mesmo se encarregou de dar sentido ao adjetivo, afirmando, em meados dos anos 1960, que o jornalismo que se fazia na época era bege. Não foi uma ofensa a quem gosta da cor. Apenas uma constatação. Bege, você sabe... É bege. Wolfe queria dizer que os textos jornalísticos daquele período eram sem graça, desanimados, esmaecidos, desmaiados, sóbrios e poucos criativos. Mas o que seria, então, um texto vivo, colorido, atraente?
Um dos muitos méritos de Wolfe nessa história toda é que ele se tornou um dos primeiros teóricos deste estilo. Segundo ele, o Novo Jornalismo tem como característica uma base de quatro mecanismos essenciais, todos comuns à ficção do romance realista: a descrição dramática dos acontecimentos cena a cena, em vez do primeiro parágrafo usual das matérias jornalísticas tradicionais; a transcrição integral de diálogos, em oposição às citações e à utilização de aspas; o emprego de inventivos pontos de vista em terceira pessoa para representar os fatos como eles se desenrolam; e a apresentação detalhada dos costumes sociais, do estilo e do status dos personagens.
O ímpeto de realizar algo diferente no jornalismo começou em diferentes redações norte-americanas quase que simultaneamente. Mas uma reportagem de Tom Wolfe teria provocado furor na imprensa nova-iorquina em abril de 1965, quando a revista The New Yorker publicou a reportagem “Minúsculas múmias! A verdadeira história do chefão da terra dos mortos-vivos da Rua 43”. O texto era inventivo, cheio de descrição de cenas. Em seguida, o Novo Jornalismo provocou um impacto imensurável no desenvolvimento do estilo. Em outubro de 1966, a The New Yorker lançou, em capítulos, uma série de reportagens sobre um crime bárbaro no interior do Kansas. O texto de Truman Capote virou livro, A sangue frio. Capote virou lenda. E o Novo Jornalismo se transformou em um modelo de texto vivo, excitante, com reflexos até hoje no espírito de legiões de jornalistas ao redor do globo.
Não por acaso, a narrativa passou a ocupar espaços privilegiados nos cursos de Jornalismo de grandes universidades dos Estados Unidos, do Canadá, da França, de Portugal, da Inglaterra, da Bélgica, da África do Sul, da Finlândia, da Polônia, da Austrália... Na Escola de Comunicação, Artes e Design Famecos, da PUCRS, por exemplo, ministro uma disciplina que trata exclusivamente deste tipo de narrativa.
Desde os anos 1960 para cá, é possível afirmar que não houve apenas uma simples mudança no modo de construir o texto jornalístico, que passou a ser, de fato, um texto mais refinado, mais agradável, mais próximo do leitor. Mas a mudança foi maior. Desde o começo, como sempre defendeu Tom Wolfe, o Novo Jornalismo tem se preocupado em contar histórias reais para serem lidas como se fossem romances. Concordo com ele. O que queremos é contar histórias de vida, de realidade. E essas histórias, você sabe, não têm nada de bege.
* Doutor em Comunicação, professor de Jornalismo da PUCRS e membro da Associação Internacional de Estudos em Jornalismo Literário (IALJS)

