
Para alguns de nós, o coronavírus requer mais do que distanciamento social: exige reclusão em dose dupla. É o caso de quem contrai a doença, é orientado a ficar separado dos demais e acaba por adotar medidas mais drásticas para proteger as pessoas com quem vive para não contaminá-las. Isso inclui, por exemplo, fechar-se no próprio quarto, apartado dos outros moradores, e restringir ao máximo a circulação dentro de casa.
Responsável por monitorar o avanço da pandemia no Rio Grande do Sul, a Secretaria Estadual da Saúde não informa quantos gaúchos passam ou passaram por essa situação. Para infectologistas consultados por GaúchaZH, não há dúvida: qualquer um que tenha sintomas e divida o mesmo teto com alguém está sujeito a viver a experiência do "isolamento no isolamento".
Morador da zona norte de Porto Alegre, o auxiliar administrativo Ricardo Dorneles, 29 anos, fez parte desse contingente. Há cerca de um mês, ele acordou tremendo de frio, com febre e dores no corpo. Buscou atendimento, submeteu-se ao teste e, dias depois, recebeu o temido diagnóstico: positivo para covid-19.
Antes mesmo do resultado, foi aconselhado se resguardar para evitar a possível disseminação do vírus. Após a confirmação, passou a ser acompanhado à distância pelo Centro Estadual de Vigilância em Saúde e seguiu todas as recomendações à risca. A clausura durou duas semanas e foi dura — restringiu-se a apenas uma parte da residência. Mas foi por uma boa causa.
— Minha maior preocupação era com a minha mãe e com o meu padrasto, porque eles têm mais de 60 anos. Como a gente divide o apartamento, decidi ficar trancado no quarto. Só saía para pegar comida e ir ao banheiro, sempre de máscara — relata o rapaz, já recuperado.
Com cerca de 20 metros quadrados e uma janela voltada para a rua, o cômodo no nono andar do prédio tornou-se o bunker de Dorneles. Lá, ele passou a convalescença repousando, vendo TV, mexendo no celular e no computador, jogando videogame, quase sempre na cama. Só deixava o recinto se fosse imprescindível e, ainda assim, avisava antes - os familiares também tiveram de permanecer em quarentena.
— Para evitar contato, eu abria a porta e gritava: "tô saindo". Quando tomava banho, tinha uma toalha só para mim e já levava a roupa suja para a máquina. No almoço ou no jantar, eles deixavam tudo pronto na cozinha, aí eu me servia e ia comer no quarto. Depois, eu mesmo lavava a minha louça. A mãe queria fazer as coisas, mas eu dizia: não encosta aí, deixa tudo comigo — conta Dorneles.
Preocupado com o que via nos noticiários, o auxiliar administrativo temia o agravamento do quadro, mas, no fim, tudo terminou bem. A mãe e o padrasto permaneceram assintomáticos e ele se recuperou. Até hoje, não faz ideia de como se infectou, mas carrega uma certeza:
— O melhor a fazer é se cuidar e cuidar dos outros, sempre. Não dá para facilitar.
Ninguém escapa
Quem atua no front da pandemia que o diga. Mais expostos, profissionais da saúde também sofrem com a covid-19. Mesmo tomando todas precauções, muitos adoecem, são obrigados a ir para casa e a se autossegregar da família. Mais do que ninguém, conhecem os riscos.
Assim que a garganta começou a doer, no último dia 31, a técnica em enfermagem Gislaine Aguirre Freitas, 52 anos, deixou o trabalho na Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro Ivone, em Bagé, na Campanha. Não sabia se estava infectada, mas não quis arriscar.

— Conversei com a enfermeira coordenadora e fui embora. Como moro com meu esposo, meu filho e o netinho, me isolei em um dos quarto nos fundos, o mais distante de todos, para não contaminar ninguém — recorda Gislaine.
Metódica, ela separou talheres, copo, prato, roupa de cama e toalha para uso exclusivo. Encaminhou o neto para os cuidados da mãe e proibiu qualquer aproximação. Só entrava na cozinha — de máscara e de luvas — depois que todos já haviam comido e era sempre a última a tomar banho, providenciando a desinfecção do banheiro.
— Fiquei muito abalada, porque somos uma família unida, mas, mesmo me sentindo triste, eu estava pensando no bem deles. Tinha de protegê-los e de me cuidar para poder voltar logo para a linha de frente — diz.
O teste de Gislaine deu negativo. Mesmo assim, ela seguiu no isolamento até o fim. Na semana passada, voltou a trabalhar e a exercer a profissão que tanto ama.

Como ela, o cirurgião vascular e diretor técnico do Complexo Hospitalar Unimed Caxias do Sul, Vinícius Lain, 40 anos, também superou as dificuldades após duas semanas isolado. No caso dele, a reclusão foi ao lado da mulher, a médica intensivista Evelyn Zignani — mas com a devida distância. Lain começou a ter sintomas no dia 23 de março. Não deu outra: fez o teste e confirmou as suspeitas.
— Prevíamos o que poderia acontecer e já tínhamos mandado nosso filho para os avós. Então, quando iniciamos a quarentena, ficamos só nós dois, um em cada canto da casa. No fim, ela também teve sintomas, mas o testou negativo. Por via das dúvidas, mantivemos a cautela — afirma o médico.
A dupla retomou as atividades e segue tomando medidas de segurança e orientando pacientes a fazerem o mesmo.
— A gente sabe que a maior parte das pessoas vai passar pelo vírus de maneira assintomática ou leve. O problema é que 6% vão acabar na UTI. E aí é uma roleta-russa. Todo esforço, nesse momento, é essencial — alerta.
Cuidados básicos podem evitar contágio
Mesmo em ambientes pequenos, infectologistas garantem que é possível driblar o vírus — ou, pelo menos, dificultar as coisas para ele. Além de isolar o enfermo em uma parte da habitação e manter a distância mínima de um metro e meio entre ele e os demais inquilinos, é importante reforçar a limpeza, usar equipamentos de proteção e não compartilhar itens do dia a dia (veja os detalhes no infográfico abaixo).
— É um vírus de rinofaringe, transmitido por gotículas. Então, o uso de máscara para os sintomáticos e como forma de proteção intradomiciliar é muito válido, além da higiene das mãos — destaca o médico Renato Cassol, coordenador do Controle de Infecção do Hospital Nossa Senhora da Conceição.
Todos devem fazer um esforço para diminuir o risco de infecção.
LUCIANO GOLDANI
Infectologista
Para quem acha que não vale a pena adotar medidas mais rigorosas por acreditar que o contágio é inevitável, o recado dos especialistas é unânime.
— Como não temos testes suficientes para todos os contatos (de quem tem a doença), devemos sempre manter as medidas de prevenção, porque não sabemos quem realmente está infectado dentro de uma residência. Essas pessoas podem contaminar outras — explica Luciano Goldani, professor titular de Doenças Infecciosas da UFRGS e infectologista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
Mesmo que a possibilidade de propagação seja alta, a transmissão pode não se confirmar para 100% dos casos. Na dúvida, reforça Claudio Stadnik, médico do Serviço do Controle de Infecção da Santa Casa, em Porto Alegre, o melhor é não arriscar.
— Devemos fazer todos os esforços que estiverem ao nosso alcance para evitar novas contaminações. É importante lembrar que a pessoa nem sempre se infecta imediatamente no primeiro toque. Então, se houver uma chance de evitar, por que não fazer? — questiona Stadnik.
CONDUTAS RECOMENDADAS
Para o doente
- Use máscara se for sair do quarto ou o tempo todo, se compartilhar o ambiente com outras pessoas.
- Lave as mão com água e sabão ou passe álcool gel antes e depois de colocar a máscara. Procure não tocar a máscara com as mãos.
- Faça o possível para proteger os demais moradores, seguindo à risca as orientações acima.
- Reforce a higiene e só saia do quarto quando realmente for preciso.
Para todos os moradores
- Se uma pessoa da casa tiver diagnóstico positivo, todos os moradores ficam em isolamento por 14 dias também.
- Caso outro familiar da casa apresente sintomas leves, ele deve reiniciar o isolamento de 14 dias.
- Se os sintomas forem graves, como dificuldade para respirar, deve-se procurar orientação médica imediatamente.
OUTRAS DÚVIDAS
Sou mãe de um bebê, estou com sintomas e em isolamento domiciliar. Devo continuar amamentando? Que cuidados tomar?
Sim, deve continuar amamentando. Os cuidados incluem higienizar o seio com água e sabão antes de amamentar, usar máscara durante o processo e lavar as mãos com água e sabão antes e depois de tocar na criança. Procure ficar isolada enquanto persistirem os sintomas e não houver o diagnóstico.
Meu filho é pequeno, insiste em entrar no quarto para brincar, mas estou com sintomas. O que eu faço?
O ideal é evitar o contato. Se for impossível, use máscara toda vez que estiver perto da criança. Lave as mãos com água e sabão ou use álcool gel sempre que tocar nela. Procure diminuir o tempo de contato. A criança deve lavar as mão da mesma forma.
Divido uma casa com uma pessoa infectada, mas a residência tem apenas uma peça, além do banheiro. Qual é a principal dica?
A pessoa infectada deve usar máscara o tempo todo (e trocar frequentemente), mantendo distância de pelo menos um metro e meio. Os moradores devem lavar as mãos frequentemente. Desinfetar as superfícies (maçanetas, mesas etc.) pelo menos uma vez ao dia. Separar os utensílios com pratos, copos, xícaras, talhares, toalhas, sabonete. Procurar manter as janelas abertas. Espalhe álcool gel por todos os cantos da casa.


