Futuro adulto vai refletir a infância

Laura vestiu tanta roupa rosa e cheia de enfeites quando era pequena que ficou enjoada. Aos 10 anos, implorou para que pintassem seu quarto de bege. Por mais que os pais, Michele e Marcelo Laidens, tentem criar ela e os irmãos Bruno, 12 anos, e Patrick, nove anos, sem sexismo, a sociedade impõe preconceitos reproduzidos há séculos, com a mensagem de que cada um tem o seu papel definido no dia a dia.
Na casa dos Laidens, os três filhos dividem as tarefas: colocam e retiram a louça da mesa na hora das refeições, arrumam a cama, levam a roupa suja para a área de serviço e são responsáveis por organizar suas bagunças.
- Mas é claro que ela é mais jeitosa, arruma a mesa com mais esmero, é mais organizada. Acho que isso, de dar atenção para a estética, é mais da mulher - opina a mãe.
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Apesar de garantir o tratamento igual agora, Michele diz que não sabe se, na adolescência deles, não terá de ajustar as regras:
- É menina, vai precisar de mais cuidados.
Ter dois irmãos homens fez com que Laura preferisse o futebol a brincadeiras de boneca. Todos se divertem juntos, apesar de ela, por vezes ,aborrecer-se com as demandas dos guris.
- Eles vivem me pedindo coisas. Pedem para eu pegar água para eles, mas eu quase nunca faço - conta Laura.
É também pelo exemplo que a mãe pretende educar. Ela, advogada, e o marido, empresário - os dois com 39 anos -, distribuem parelho os afazeres domésticos para mostrar desde bem cedo que é preciso companheirismo e parcelas iguais nos deveres.
Mas esse tipo de pensamento não está disseminado pelo país. Pesquisa divulgada recentemente pela ONG Plan Brasil revelou o que se observa na prática: meninas e meninos são criados de maneiras distintas.
O levantamento Por Ser Menina no Brasil: Crescendo entre Direitos e Violências entrevistou 1.771 garotas de seis a 14 anos em cinco regiões do país. As gurias responderam sobre a rotina delas e de seus irmãos em casa.
No Rio Grande do Sul, os dados foram coletados em escolas públicas e particulares de Boa Vista das Missões, Porto Alegre, Cachoeirinha, Flores da Cunha e Osório. Uma das principais conclusões do trabalho, segundo Anette Trompter, diretora da ONG, é que a vida mais assoberbada de hoje faz com que elas tenham menos tempo para estudar e brincar do que os meninos, independentemente da classe social a que pertençam.
Uma das mais destacadas estudiosas das questões de gênero no Estado, Jussara Prá, professora de Ciência Política da UFRGS, enfrentou dificuldades ao tentar implementar práticas diferentes na própria família. Mãe de dois homens e uma mulher, a feminista é casada há 35 anos. Em casa, as tarefas sempre foram divididas entre ela e o marido. Um dia, o filho mais velho, quando criança, encontrou o pai na cozinha, lavando a louça.
- Por que você está fazendo isso? É coisa de mulher - surpreendeu-se o garoto.
Jussara pegou o menino pela mão e o acompanhou até a escola. Procurou a direção.
- Quem fez isso com o menino? - questionou.
Crianças lidam bem com as diferenças
A cena explicita como é difícil deparar com um mundo em transformação. Os pais tentam incutir valores em casa, mas os filhos convivem em uma variedade de ambientes, e a mensagem sofre interferências.
- Quebrar os estereótipos é um processo histórico. É demorado, mas está em curso. Temos hoje uma sociedade que está discutindo, e isso já é um ganho - constata Amélia Artes, doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP).
A pesquisadora acredita que meninos e meninas, na infância, lidam muito bem com as diferenças - ainda estão "crus", não introjetaram preconceitos. Quem cria problemas, garante Amélia, são os adultos, o que vai moldar a mente e o comportamento das crianças com o passar dos anos.
- Desafio os pais a contarem como reagiriam em momentos emblemáticos da criação dos filhos, como quando o menino surge vestindo uma roupa de bailarina. O primeiro impulso, certamente, seria xingar e mandar tirar - propõe a socióloga Sandra Unbehaum, coordenadora de pesquisas educacionais da Fundação Carlos Chagas e membro do Grupo Gênero, Raça, Etnia e Direitos da instituição.
Com a divulgação dos resultados da pesquisa Por Ser Menina no Brasil, o objetivo da ONG Plan Brasil é ajudar a fomentar políticas públicas por maior igualdade de gênero, o que, no futuro, pode se traduzir em salários equivalentes para homens e mulheres, maior liberdade de escolha quanto à carreira que elas pretendem seguir e menos violência contra o sexo feminino.
Dados de uma pesquisa anterior da ONG mostram que cada ano que uma menina passa na escola é capaz de aumentar em 20% a renda que ela terá, mais adiante, como profissional.
- A mulher reinveste 90% da renda na família e na comunidade, e o homem, só 30%. Entendemos que o poder de quebrar o ciclo da pobreza está na mulher, e é por isto que queremos conhecer bem a menina - diz Anette Trompter, diretora da ONG.
O psicólogo Jean Von Hohendorff, pesquisador da UFRGS que coordenou o estudo no Estado, observou o impacto psicológico no futuro da menina criada com mais tarefas no lar: adquirir uma ideia limitada de seus papéis no mundo e ser submissa, pontos facilitadores para a violência doméstica. Von Hohendorff propõe que os filhos sejam criados conforme suas demandas e que não há problema nenhum se ela pedir para brincar de carrinho e ele, de boneca.
- São ensaios que fazem para a vida adulta. No futuro, ela vai dirigir um carro e ele vai ter uma família, pode ser pai - desmistifica.
A professora Jussara Prá avalia que o resultado do levantamento reforça o caráter histórico de submissão das mulheres. A pesquisadora detalha que os espaços de atuação de homens e mulheres sempre estiveram bem delimitados: eles no público, elas no privado.
- A história bastante recente mostra que, desde a infância, as mulheres eram adestradas para serem submissas e cuidarem dos outros - lembra Jussara, que conduz uma pesquisa sobre Construção Cultural e Lógica de Gênero.
A reação explosiva pode ter efeitos a longo prazo, deixando a criança oprimida, confusa, sem entender o motivo de uma atitude aparentemente inofensiva ter provocado a revolta. Reforçar sempre a ideia de que meninos precisam ser fortes, combativos e não chorar pode deixá-los fragilizados caso não consigam atender a essa expectativa para se transformar em um "machão".
O que fazer no dia a dia
- Procure promover uma divisão igualitária das tarefas entre os irmãos, respeitando a faixa etária de cada um.
- Inclua temas do noticiário da televisão e dos jornais nas conversas da família, conforme a idade e a capacidade de compreensão dos seus filhos.
- Discuta abertamente a partir dos questionamentos propostos pelas crianças. Seu filho apreende muita coisa ao observar o cotidiano da família e dos vizinhos. O cenário que se organiza nos almoços de domingo e em outras reuniões sociais, por exemplo, permite interpretações: por que as mulheres ficam conversando na cozinha e os homens ao redor da churrasqueira? É natural querer transpor essas divisões.
- Permita experimentações. Crianças são curiosas e demonstram interesse por atividades diversas. Um primeiro contato com uma atividade nova não significa que estarão fazendo uma escolha definitiva.
- Exercite sua sensibilidade e tente entender as atitudes infantis. O que eles estão querendo dizer ou questionar ao se comportar de determinada forma ou explorar outros brinquedos? Meninos e meninas aprendem sobre questões de gênero não só em contato com os pais e os irmãos, mas também na escola, entre os amigos e os demais familiares.
- Reflita sobre os seus próprios conceitos, questione os estereótipos. Se a menina quer um carrinho de presente, a primeira reação do adulto pode ser refutar essa possibilidade. Por quê? Você não está ajudando a perpetuar um padrão? Será que ela não pode se divertir com o presente? O pedido pode estar de acordo com o universo em que ela está inserida: vendo a mãe dirigir todos os dias para levá-la à escola, por exemplo.
Fontes: Amélia Artes, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas e doutora em Educação pela Universidade de São Paulo, e Milady da Silva Oliveira, psicóloga.



