
Ele esperou por 73 anos. Mas nesta terça-feira, 10 de maio de 2022, o príncipe Charles assumiu a função mais importante de Estado ao discursar no lugar da mãe, a rainha Elizabeth II, 96 anos, na abertura do ano legislativo do parlamento britânico. Herdeiro do trono, ele leu, perante a Câmara dos Lordes, as iniciativas do governo para o ano que está começando politicamente no Reino Unido, após um 2021 marcado pelo escândalo das festas do primeiro-ministro Boris Johnson, em Downing Street, quando o restante do país estava em confinamento por causa da covid-19.
Normalmente, a realeza costuma ficar afastada dos problemas mundanos dos plebeus - e, diga-se de passagem, já tem seus próprios escândalos para dar conta. Mas como o discurso de abertura dos trabalhos no parlamento, embora lido pela rainha (chefe de Estado), é escrito pelo Executivo (chefe de Governo), vez que outra a contaminação acaba por ser indissociável.
Assim, a estreia de Charles na função nesta terça-feira teve um gosto amargo. Na sexta-feira, o Partido Conservador, de Johnson, perdeu importantes redutos eleitorais nas eleições locais, em uma amostra de que mudou o ano, mas os britânicos não esqueceram das festinhas do premier (escândalo chamado, por lá, de "Partygate", em eterna referência a Watergate, nos EUA).
Os problemas não param por aí. Como em boa parte do mundo, o Brasil que o diga, o problema da perda de poder aquisitivo também atinge os súditos de sua majestade. A inflação deve superar 10% este ano, e mais de 7 milhões de adultos e 2,6 milhões de crianças viviam em abril em uma residência sem alimentos suficientes, de acordo com um estudo publicado na segunda-feira (9) pela Food Foundation, um aumento de 57% desde janeiro.
A ausência de Elizabeth, pela primeira vez em quase 70 anos no trono, é simbólica. Ela só deixou de fazer o discurso em duas ocasiões: em 1959, quando estava grávida do príncipe Andrew, e em 1963, na gestação de Edward.
O fato é que, mesmo sem coroa, sem cetro e sem trono, Charles é cada vez mais regente informal, tendo assumindo a maioria das funções públicas da mãe, desde que ela foi internada em outubro por razão ainda não explicada completamente pelo Palácio de Buckingham.
Aliás, o palácio tem feito o possível para driblar rumores sobre quem reina no arquipélago de Sua Majestade. Nesse sentido, a cada aparição de Charles é importante prestar atenção aos detalhes. Eles falam muito. Por exemplo, nesta terça-feira, ao chegar ao parlamento, Charles não estava na carruagem, mas no Rolls-Royce oficial.
Ele não vestiu a tradicional capa de armino, optando pelo uniforme militar com várias condecorações. Muito menos tocou na pesada coroa ornada com pedras preciosas, que ficou posicionada sobre a almofada em uma banqueta ao lado. Charles em um trono menor. O cronograma do evento trazia na capa em letras garrafais: "SUA MAJESTADE A RAINHA".
Tudo são indicações de que Elizabeth segue no comando.
Até a nota sobre a ausência da rainha, enviada à BBC, indica isso: o palácio informou que sua ausência se deve a "problemas ocasionais de mobilidade" e acrescenta que ela só aceitou não ir a Westminster de forma relutante.
A presença do príncipe William, o segundo na linha de sucessão, ao lado de Charles no evento desta terça, tem dois significados: continuidade e a tradição. Charles costumava acompanhar a mãe na leitura do discurso ao parlamento. Mas também levanta rumores de que possa compartilhar os trabalhos com o filho em um futuro reinado.

