Perto do Natal de 1995, Fabiana Espiridião, então com 13 anos, saiu da casa onde vivia com a família, em São Paulo, acompanhada de uma colega para visitar uma amiga que estava de aniversário. Uma chuva forte caiu de forma repentina, e a mãe pensou que a menina havia se abrigado do temporal. Como a garota não voltou, passou a procurar por ela incessantemente. Vinte e oito anos depois, Ivanise Espiridião não desistiu da busca.
No ano seguinte, após conhecer outras famílias que passavam pelo mesmo drama, Ivanise criou o Movimento Mães da Sé, que preside até hoje. Desde então, auxilia parentes de desaparecidos a localizá-los. Recentemente, o movimento recebeu o apoio para criar uma nova campanha. Lançada em parceria com streamers brasileiros, a iniciativa usa ferramentas de um jogo para recriar imagem destas pessoas e busca divulgar informações sobre o tema.
— É um campanha diferenciada, por conta do público-alvo. Nós temos um número muito grande de adolescentes que desapareceram, pessoas jovens, que podem ser localizadas através dessa campanha — diz Ivanise.
Diretor de criação da DRUID, agência de comunicação e estratégia criativa para o mundo dos games, Rafael Hessel explica que a ideia surgiu após identificarem uma tendência. Lançado em setembro do ano passado, o jogo Starfield alcançou milhões de jogadores. Uma das possibilidades que chama atenção no game é a criação de personagens.
A partir de certo momento do jogo, é possível alterar a aparência, mexendo no cabelo, na cor, no formato de rosto, nariz, entre outros. Criadores de conteúdo passaram a usar essa ferramenta para replicar rostos de celebridades. Foi aí que veio a ideia de empregar a mesma técnica para reconstruir a imagem dos desaparecidos.
— Essas pessoas elas já são famosas. Os rostos delas já aparecem em todos os lugares. Quais são os rostos que precisam de mais atenção? Nesse momento, a gente viu oportunidade de realmente ajudar o Mães da Sé — detalha Hessel.
Parceria com streamers
A partir do contato com o Movimento Mães da Sé, foram selecionadas fotos de alguns desaparecidos. A opção foi por usar neste momento somente imagens de adultos. A equipe passou a usar as próprias ferramentas do jogo para recriar os rostos. Após a criação dos personagens no game, a agência elaborou um guia de produção do avatar. Foi feito contato com streamers famosos para que eles utilizassem esses personagens em lives de jogos. Assim, a campanha passou a ser divulgada no mês de dezembro por criadores de conteúdos.
— Nas lives, eles estão falando muito sobre as Mães da Sé. Então, temos, claro, uma expectativa muito grande de encontrar uma dessas pessoas. Mas dentro das lives a gente está fornecendo o máximo de informações sobre as pessoas desaparecidas, e divulgando um QR Code para doações — diz Hessel.
Até o momento, quatro avatares foram usados por criadores de conteúdos e divulgados nas lives para outros jogadores. Mas a expectativa é de que o movimento possa se expandir e ajudar a divulgar mais casos. O objetivo é que a campanha possa ajudar também a levantar dentro desse universo dos games a temática sobre os desaparecimentos.
— Se a gente olha para o passado, em que a gente tinha rostos de pessoas desaparecidas em caixas de leite ou no final de novelas, hoje a gente não tem ouvido tanto falar sobre essa causa. Para a gente, é super legal essa maneira de trazer ela de volta, junto à inovação e ao trabalho colaborativo da comunidade de games — completa Hessel.
Os desaparecimentos
Entre os casos divulgados, está o de Bruno Barbosa Gomes, que desapareceu aos 24 anos, no dia 10 julho de 2016, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Outro é o do aposentado Irani Frutuoso de Assis, 76 anos, que desapareceu em junho de 2022 em Goiás. O idoso tem Alzheimer e faz uso de medicação controlada. As imagens deles foram transformadas em personagens, que foram usados pelos streamers.
Segundo Ivanise, imagens produzidas por um artista, por meio de progressão facial, para auxiliar inclusive em casos nos quais as pessoas estão desaparecidas há mais tempo, também foram cedidas à agência para facilitar a identificação.
Minha filha hoje tem 42 anos, ela tinha 13 quando desapareceu. São 28 anos de busca por uma resposta, seja ela qual for. O que nos mata aos pouquinhos é não saber o que aconteceu, é a dor da incerteza
IVANISE ESPIRIDIÃO
Presidente do Mães da Sé
— Fizemos uma parceria com uma pessoa que faz progressão de como o desaparecido estaria com a idade atual. Ele fez da minha filha. Toda e qualquer forma de divulgar o desaparecimento é válida. Se a gente conseguir encontrar uma pessoa já valeu. É uma família para quem a gente devolve a alegria e acaba com esse sofrimento. Só quem passa sabe o tamanho dessa dor — diz.
Até hoje, o movimento Mães da Sé auxiliou na localização de pelo menos 5,5 mil desaparecidos. Conforme Ivanise, os casos que mais resultam no encontro do desaparecido são aqueles que envolvem fugas do lar, muitas vezes geradas por conflitos familiares, e de idosos reconhecidos em hospitais ou asilos. Mas há outros, como o que ela mesma vive, que nunca tiveram solução.
— São os casos em que a criança não tinha nenhum problema no seio familiares. E que o desaparecimento aconteceu de forma muito parecida. A minha filha sumiu a 120 metros de casa. E eu nunca tive nenhuma informação sobre o paradeiro dela. Minha filha hoje tem 42 anos, ela tinha 13 quando desapareceu. São 28 anos de busca por uma resposta, seja ela qual for. O que nos mata aos pouquinhos é não saber o que aconteceu, é a dor da incerteza — desabafa.
Colabore
Informações sobre casos de desaparecimentos podem ser repassadas à Polícia Civil por meio do telefone 0800-642-0121, pelo 197 ou neste link.
Dados
- Em 2022 o Brasil registrou 74.061 pessoas desaparecidas, média de 203 desaparecimentos diários. Os dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023.
- Do total de registros, 46,7% se concentram no Sudeste, em muito puxados pelo Estado de São Paulo, que registrou 20.411 casos. Em seguida, está a Região Sul, com 22,3% do total.
- No Rio Grande do Sul, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, foram 6.888 ocorrências.
Como agir em casos de desaparecimentos
De adultos
- Após tentativas de contatar a pessoa e perguntar a parentes, amigos, conhecidos e vizinhos, os familiares devem procurar a Delegacia de Polícia mais próxima para formalizar o desaparecimento. Recomenda-se levar uma foto atual da pessoa e um comprovante de residência.
- Após registrar a ocorrência, tente rastrear os últimos passos da pessoa desaparecida, por meio de redes sociais, amigos ou pessoas que possam dar pistas sobre o paradeiro.
- Se você possui familiares que residem em outras cidades, tente entrar em contato com eles, pois muitos desaparecidos costumam se refugiar em casas de amigos ou parentes que moram longe.
- Converse com as últimas pessoas que tiveram contato com o desaparecido para avaliar a situação psicológica dele.
- Em caso de pessoas com doença mental, tente informar quantas vezes já desapareceu, onde foi encontrada, se estava recolhida em algum hospital ou casa de tratamento.
- Faça cartazes e distribua em locais movimentados da cidade.
- Divulgue nas redes sociais.
- Importante: deve-se informar a polícia quando o desaparecido for localizado.
De crianças e adolescentes
- Ao perceber o desaparecimento de uma criança ou adolescente, comunique imediatamente à polícia, na delegacia mais próxima do local onde a criança ou adolescente foi visto pela última vez.
- A investigação imediata em caso de desaparecimento de crianças ou adolescentes é uma garantia legal pela Lei Federal nº 11.259/2005.
- Mantenha alguém no local onde a criança foi vista pela última vez, pois ela poderá retornar a ele.
- Avise amigos e parentes o mais rápido possível, principalmente os de endereço conhecido da criança, para onde ela possa se dirigir.
- Percorra os locais de preferência da criança.
- Tenha sempre uma foto da criança atualizada.
- Memorize a vestimenta da criança e outros detalhes para melhor descrevê-la quando precisar.
- Dica: faça a carteira de identidade da criança o mais cedo possível. Mantenha sempre uma foto 3x4 atualizada a cada ano.
De idosos
- Entre as principais razões para o desparecimento nessa faixa etária estão esquecimento e desorientação, causados por doenças como Alzheimer.
- Como prevenção, mantenha sempre nome, endereço e telefone junto da roupa da pessoa.
- Em caso de desaparecimento, além das orientações para adultos, providencie o bloqueio do benefício ou aposentadoria que ele recebe. Apresente-se na agência bancária com a ocorrência em mãos. Desta forma, em caso de tentativa de saque, o gerente da agência bancária deverá comunicar imediatamente a polícia.
Importante
- Não é necessário esperar 24 horas para registrar o boletim de ocorrência. Lembre-se de que as primeiras horas que sucedem o desaparecimento são vitais para garantir a localização e proteção do desaparecido.
- Depois de comunicar a polícia, o primeiro lugar onde se deve procurar uma pessoa desaparecida é próximo ao local em que supostamente ela sumiu. Pergunte a todos aqueles que se encontram pela imediações e aqueles que estão passando pela região.
- Faça uma rápida busca nas delegacias de polícia, hospitais e pronto-socorros.
Fonte: Associação Desaparecidos do Brasil


