
Entre Carazinho e Cruz Alta, a 350 quilômetros de Porto Alegre, Santa Bárbara do Sul depende do agronegócio, especialmente do cultivo de soja, de milho e de trigo. Mantém Produto Interno Bruto (PIB) per capita elevado — ocupava a 13ª posição no Estado em 2016, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por outro lado, é marcado pela concentração de renda. Diferença evidente nos casebres e mansões, boa parte ocupada por fazendeiros, separados por poucas quadras.
Em maio de 1897, a estrada de ferro alcançou a cidade. O trecho fazia parte da primeira ligação por trem entre Rio Grande do Sul e São Paulo. Cerealistas estabeleceram-se ali, em função da ferrovia. Nos anos 60 e 70, a cidade foi marcada por disputas entre famílias e hoje luta para não ser reduto do crime organizado, por conta do tráfico. Em agosto, uma operação da Polícia Civil contou com 360 agentes descortinou a presença de uma facção, do Vale do Sinos, no município.
— O crime vem migrando dos grandes centros para o Interior. Nossa principal demanda é a mesma de outros municípios: faltam policiais. Recebemos dois PMs e hoje temos oito. Mas não é nem perto do ideal. Essa operação foi importante para mostrar que, mesmo com falta de policiais, o Estado é forte quando se organiza — diz o prefeito Mário Roberto Utzig Filho (PP).
O político argumenta que, como forma de incentivo, cede funcionários e espaço para a sede da BM, além de investir na iluminação pública e no videomonitoramento. Na área econômica, reconhece que há baixa oferta de empregos. Mas diz que a prefeitura busca incentivar a abertura de novas empresas e paga metade do transporte para estudantes de ensino técnico e superior.
— Em cidade pequena, muitas pessoas querem sair, ao invés de fazer seu espaço aqui — avalia.
Motivo que faz pais como o casal Olívia e Luiz Gardin, donos de um hotel, verem os filhos pegaram um caminho sem volta, ao deixarem Santa Bárbara para estudar. Os rebentos não retornam. O Censo de 2010 apontava uma população de 8.829 habitantes. Já em 2019, a estimativa é de que o município tenha 835 moradores a menos — redução de quase 10%.
— Só vão ficando os mais velhos. Os jovens, quando vão para cidades maiores, não querem mais voltar — conforma-se Olívia, que viu o casal de filhos partir há quase duas décadas.
Quando decidem visitá-los, os filhos reclamam do marasmo da cidade, conta a mãe. Ao anoitecer, as opções de lazer são escassas e a circulação de pessoas é rara. Nas últimas quatro semanas, a maior movimentação foi para assistir os espetáculos do circo Teatro Biribinha, que ergueu sua lona ao lado do ginásio da cidade. A trupe foi surpreendida pela casa cheia em praticamente todas as noites de espetáculo.

Durante o dia, é comum ver idosos reunidos nas praças. Na tarde de terça-feira (10), um grupo de aposentados se ocupava com a lida em canteiros de acesso à cidade. Com enxadas e pás, voluntariam-se para embelezar o espaço, ponto de encontro para o chimarrão. Um dos assuntos que ainda ocupa as conversas é o tamanho da operação da polícia contra o tráfico, no mês de agosto.
— O barulho foi grande. Uma coisa nunca vista antes. O problema hoje é a droga — diz Ismael Bavaresco, 66 anos, enquanto ajuda o amigo Jacinto Kochenborger, 75 anos, a espalhar a terra em um dos canteiros floridos.
— Já foi bem pior. Houve tempos terríveis — pondera o professor aposentado e ex-vice-prefeito Jandir Cipriani, 76 anos.
Ele recorda dos tempos em que Santa Bárbara foi palco de disputas sangrentas entre famílias. Por décadas, desavenças, que teriam nascido na disputa de terras, eram resolvidas a base de pólvora e sangue. Homens enraivecidos, com um revólver de cada lado da cintura, chegavam até a duelar a tiros no meio da cidade. Empreitadas que hoje fazem parte da história.
— Mudou com o tempo. Foi apaziguando — conta João Colpo, 75 anos.

Os problemas com a segurança hoje em dia são outros, como a exploração do tráfico e o efetivo escasso. A falta de policiamento extinguiu, há cerca de dois anos, a Patrulha Rural, que atendia o município. Nos cerca de 50 quilômetros de extensão de um lado a outro de Santa Bárbara, boa parte dos territórios é de fazendas, as chamadas granjas, produtoras de grãos. Os agricultores contribuíam com o combustível, mas faltavam policiais. Comandante da BM, tenente Carlos Alberto de Moura Nascimento, diz que não há previsão de retomar o patrulhamento voltado para a área rural.
— Dentro das prioridades que foram elencadas, estão homicídios, roubos e furtos. Infelizmente não conseguimos dar conta de tudo. O efetivo é bom, mas em número não é o ideal — reconhece.
Empregado em uma cerealista, o operador de empilhadeiras Jardel Cherini, 34 anos, espera que o município permita que o filho Lucas, de três anos, cresça com liberdade e segurança.
— Falta emprego. Quem tem o seu, tem de se agarrar. A cidade tem seus problemas. Mas para criar um filho é um lugar excelente — diz, enquanto brinca com o garoto na praça central.

Ao voltar para casa, Cherini cruza a ferrovia, enquanto ajuda a equilibrar o menino sobre a bicicleta. Num retorno ao passado, essa estrada de ferro é uma das apostas do município para trazer novas oportunidades à cidade. O governo tenta fomentar investimentos e, para isso, criou uma rota turística. Busca agora por empreendedores dispostos a investir ali. A iniciativa quer dar aos filhos de Santa Bárbara, como o pequeno Lucas, mais chances de contar uma nova história.




