
O celular do empresário Adamir Anderle apitou às 15h28min da última quinta-feira. A chamada em vídeo pelo WhatsApp vinha da antessala da UTI do Hospital de Clínicas, de onde falava a psicóloga Priscila Büttenbender. Suas irmãs Eliane e Ana Alice e sua sobrinha Marina também estavam conectadas.
– Boa tarde, pessoal. É importante esse nosso momento de encontro virtual para que vocês se sintam próximos da gente, e a gente, de vocês – anunciou Priscila. E continuou: – Ela segue na luta. Está estável, só estamos observando a questão renal. Tá bem? Resumindo, as notícias são boas.
Então, com o celular em mãos, a psicóloga se deslocou sozinha para dentro da UTI, à beira do leito de Quintina, mãe de Adamir. Aos 92 anos, a idosa está internada há pouco mais de uma semana em tratamento para covid-19 e, pela necessidade de isolamento imposta pela pandemia, precisa ser mantida afastada de seus familiares.
– É hora de reagir, mãe. Vamos lá, vai ficar tudo bem – completou Eliane, também separada pela tela do celular.
Entubada e recebendo níveis leves de sedativo, Quintina balbuciou e abriu os olhos ao ouvi-los – segundo a equipe médica, sinais de que está lúcida.
Hospitalização
Assim, diariamente, a matriarca do município serrano de Roca Sales tem sido visitada. É por vídeo que os parentes se revezam, em telas de celulares, para acompanhar o tratamento. A covid-19, caracterizada por longas hospitalizações em UTIs, impõe um desafio adicional a pacientes, familiares e profissionais da saúde: a distância, associada ao sentimento de solidão.
Devido ao impedimento de contatos presenciais, pelo alto risco de contágio em tempos de pandemia, videochamadas apresentaram-se como o recurso disponível para encurtar o abismo entre o doente, em uma unidade de terapia intensiva, e os parentes, em suas casas.
– Primeiro, fazemos uma chamada de voz com o familiar, para ver como ele está, e perguntamos se seria interessante passar para uma chamada de vídeo com o paciente. Nossa ideia é ajudar essa família a se encontrar e nomear o que está acontecendo neste período de afastamento – conta a psicóloga.
Quintina sentiu os primeiros sintomas da contaminação pelo coronavírus pouco depois de se submeter a uma cirurgia cardíaca. Entrou no hospital no último dia 22 e, quatro dias depois, teve de ser levada à UTI. No caminho, perguntou a um dos netos, que era seu acompanhante, para onde iria. Ele conseguiu apenas dizer que seria trocada de ala.
Durante os dois dias seguintes, a idosa não teve contato com nenhuma pessoa próxima. O que temiam os parentes, desde o início do processo, era que Quintina se sentisse abandonada. Matriarca de uma família numerosa – são oito filhos (eram 10, mas dois são falecidos), 24 netos e 15 bisnetos –, ela vive cercada de gente.
A possibilidade das videochamadas diárias, que tiveram início na última segunda-feira, foi apresentada aos filhos por Priscila e pelo médico intensivista Rodrigo Castilhos, integrantes do Grupo de Cuidados Centrados no Paciente do Clínicas. Os parentes rapidamente se animaram com a chance de vê-la e passaram a reservar 30 minutos de suas tardes para o compromisso.
Celebração
Pela religiosidade de Quintina, que é católica, e de sua família, a equipe do Hospital de Clínicas incrementou as visitas virtuais com uma celebração espiritual, realizada na última terça.
Também abriram uma exceção para que Adamir e sua esposa, Mônica, acompanhassem presencialmente o ato de dentro da UTI, ao lado da paciente. A cerimônia foi conduzida por José Roberto Gonçalves, ecumênico voluntário do Clínicas, e reuniu mais de 40 familiares pelo aplicativo Zoom. O padre conduziu uma Ave-Maria e um Pai Nosso, leu um trecho do Evangelho e pediu que todos tivessem fé. Para os Anderle e, também, para a equipe médica, foi um acontecimento marcante.
– No momento da chamada, ela não estava totalmente sedada. Tinha reações, mexia um pouco os olhos, fazia expressões faciais... Só não conseguia interagir verbalmente. Mas percebemos que estava nos ouvindo – relata Eliane.
– Foi um divisor de águas. Estávamos chegando em um momento de quase entregar os pontos. Todos ficaram mais animados. Naquele dia, ciente do risco que o vírus representa para uma idosa, Adamir pensava que seria uma oportunidade para se despedir dela, que respirava por aparelhos.
Segundo o filho, assim que chegou perto do leito pôde ver Quintina com a testa franzida. Interpretou como sinal de angústia. Ao sair, contudo, o semblante da idosa era outro, de tranquilidade:
– Foi muito importante. Para nós e para ela. Ela reconheceu a voz de cada um que ia falando. Parece que melhorou bastante. Estou muito animado para ver ela saindo do hospital, se continuar reagindo assim.
Telefonemas cheios de empatia

Tudo aconteceu em menos de 12 horas. Filho único, Maiquel Alves Peres acompanhou o pai em uma ambulância até o Hospital Universitário, em Canoas, na madrugada do dia 26. Na manhã seguinte, era a mãe quem tinha febre alta e falta de ar.
Os pais, que a pedido de Maiquel não terão os nomes divulgados, testaram positivo para a covid-19. Ela já se recupera em casa. Ele, diabético e hipertenso, teve insuficiência respiratória e foi internado na UTI do hospital.
Desde então, Maiquel acompanha a evolução do quadro clínico pelo telefone, enquanto assiste a mãe em casa, comprando comida e tentando animá-la. Todas as tardes um dos médicos entra em contato para descrever a situação do pai.
– Eles compreendem, de uma forma muito profissional, que estão conversando com pessoas leigas, que desconhecem os termos científicos, e com muita calma explicam o contexto todo. É muito positiva a abordagem – conta Maiquel. – Todo dia, mesmo eles sendo corretos e adequados, é uma martelada. É um impacto emocional forte, que te destrói. E você se reconstrói, porque tem pessoas que precisam de você.
Um dos médicos responsáveis pelos duros telefonemas é Diego da Rosa Miltersteiner, coordenador da UTI do Hospital Universitário. O intensivista busca estabelecer uma comunicação compreensível – em vez de termos técnicos, recorre à simplicidade: os pulmões estão melhores, ou, ele está pior.
– Conversar sobre notícias de UTI sempre foi problemático. Falamos sobre termos muito específicos e não é o momento para que alguém aprenda um termo novo. Tentamos explicar a parte técnica, mas, em um segundo momento, colocamos a mensagem da maneira que a maioria absoluta das pessoas consiga entender. Geralmente, pergunto: “Quando as outras pessoas da família perguntarem, o que você vai dizer para eles?”. Aí, sei se a pessoa compreendeu o quadro – relata Miltersteiner.
Sempre que possível, o médico, de seu próprio celular, conecta familiares por videochamadas. O desafio é saber qual o melhor momento. Houve um episódio em que uma paciente que recém havia sido desentubada pediu para se comunicar com a família. Do outro lado, uma sobrinha, de três anos, assustou-se pelas queimaduras deixadas no rosto pelos tubos. Entre as videochamadas feitas por Miltersteiner, está a de Josiane Cardoso Dutra. A dona de casa, moradora de Canoas, passou 20 dias na UTI. Na última quintafeira, foi transferida para o quarto. De sua casa, no bairro Harmonia, onde também moram filhos, neta e genro, o marido, Cláudio de Mattos, emocionou-se ao primeiro contato:
– Sabíamos que, se pudéssemos entrar no quarto e conversar com ela, daríamos mais força. Porque sabemos que tem pessoas que desistem quando se sentem sozinhas. Então, conversamos pelo celular, dissemos que estávamos aqui, orando muito e esperando ela. Ela mandou um beijo e disse que amava a gente. E conseguimos superar essa.

O celular como recurso terapêutico
As videochamadas passaram a ser incluídas na rotina de equipes de saúde a partir da pandemia. O Hospital de Clínicas, que há mais de dois anos mantém o Grupo de Cuidados Centrados no Paciente, especializado na humanização do tratamento em terapia intensiva, decidiu, no início da crise, estruturar-se para disponibilizá-las às pessoas internadas e seus parentes.
– Não é a ausência do familiar que faz com que tenhamos menos vínculo. Eles não estão presentes, mas, em alguns momentos, a sensação é de que estão mais presentes do que nunca. E isso, para nós, é muito importante. Dá um força saber que estamos no caminho certo, oferecendo o cuidado da forma mais integral possível – comenta Rita Gomes Prieb, psicóloga do Clínicas.
Além das visitas virtuais, o hospital, uma das referências no tratamento de pacientes de coronavírus no Estado, instituiu o chamado grupo de comunicação. Trata-se de time composto por médicos e psicólogos, responsável pelo contato diário com parentes, dando detalhes da evolução dos quadros clínicos. Pelo protocolo, cada família tem um profissional de referência, chamado de “médico das notícias”.
– Essa experiência certamente deixará um legado de boa prática na pós-pandemia. Muitas vezes, o que vi em UTIs é que, durante a semana, um plantonista repassa as informações, mas, no final de semana, outro... Fica muito da avaliação individual de cada um – diz Rodrigo Castilhos, médico intensivista do Clínicas. – À medida que um profissional fica responsável, cria-se vínculo e gera-se confiança, facilitando a comunicação.
Embora importante para estreitar laços durante um período crítico do tratamento, as videochamadas não são receitadas para todos. Por isso, profissionais de saúde analisam sistematicamente a indicação desse contato remoto – há pacientes, por exemplo, que, ao despertarem da sedação, não querem ser vistos intubados pelos familiares.
– Não é uma receita generalizada, mas uma possibilidade de recurso terapêutico. Às vezes, achamos que é algo muito legal, mas também temos de preservar a autonomia do paciente. Para dar certo, precisamos de todos os recursos: da tecnologia e da técnica para avaliar se será benéfico para todos – comenta Rita.
Uma coisa, segundo a psicóloga, é dizer “ele piorou”. Outra, bem diferente, é conversar e ver que a pessoa está ofegante.
– Essa nova forma de comunicação por um telefone é algo que não imaginávamos antes da pandemia. Tem mostrado que podemos, sim, nos conectarmos de uma forma muito carinhosa e respeitosa com aquelas pessoas que sofrem tanto por não estarem presencialmente junto do profissional, mas, principalmente, do ente querido, que está tão adoecido – atesta Castilhos.





