O resultado da primeira fase da pesquisa de prevalência do coronavírus na população brasileira traz um dado alarmante: só na capital de São Paulo a estimativa é de que há 380 mil pessoas que já tiveram contato com o vírus. O número sozinho é maior do que o total de casos oficiais registrados em todo o país, que nesta segunda-feira (25) é de 374.898.
O dado reforça o tamanho da subnotificação da doença. Nas 90 cidades (o total são 133) em que os pesquisadores conseguiram fazer 200 ou mais testes para detectar anticorpos para a covid-19, a estimativa é de que haja 760 mil contra 104,7 mil notificados às autoridades.
O estudo chamado Epicovid19-BR é coordenado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e começou a ser feita no Rio Grande do Sul por iniciativa do governo o Estado, em abril. Depois disso, o Ministério da Saúde quis ampliar o levantamento para o país, atingindo 133 cidades. A primeira fase de coletas de exames e de entrevistas sofreu, no entanto, resistências em algumas cidades. Por isso, o primeiro resultado se refere especialmente a 90 municípios em que o número de testes atingiu o ideal.
O coordenador da pesquisa, epidemiologista e reitor da UFPel, Pedro Curi Hallal, destaca que há milhões de infectados no país:
— O resultado mais impressionante é que a contagem de casos no Brasil, que até hoje era feita em milhares, tem que ser feita em milhões. Para se ter uma ideia da relevância desse número, o nosso estudo estima que só na capital de São Paulo tenha 380 mil pessoas que estão ou já estiveram infectadas. O número é maior do que os registrados em todo o Brasil. E isso dá ideia da magnitude da subestimativa do número de casos nas estatísticas oficiais.
No Rio de Janeiro, com 6,7 milhões de habitantes e 2,2% da população com anticorpos, o número estimado de pessoas que têm ou já tiveram o coronavírus é de 147 mil.
Os pesquisadores, que são do Ibope Inteligência, trabalharam entre 14 e 21 de maio, em 90 cidades, incluindo 21 das 27 capitais, aplicando testes rápidos em 25 mil pessoas. As 90 cidades correspondem a 25,6% da população brasileira, totalizando 54,2 milhões de pessoas, entre as quais 760 mil estariam infectadas.
Com a margem de erro o dado seria 705 a 867 mil contaminados. Na véspera do começo das entrevistas, essas 90 cidades tinham 104,7 mil casos oficiais. Isso mostra uma subnoticação de 7 casos para cada registro oficial.
Diferentemente do que tem ocorrido no estudo gaúcho, em que os dados coletados em nove cidades sustentam uma estimativa para todo o Estado, no caso do Brasil os pesquisadores optaram em não fazer a estimativa geral.
— Os resultados dessas 90 cidades não devem ser extrapolados para todo o país, nem usados para estimar o número absoluto de casos no Brasil, pois são cidades populosas, com circulação intensa de pessoas e que concentram serviços de saúde. A dinâmica da pandemia, portanto, pode ser distinta da observada em cidades pequenas ou em áreas rurais — explica Hallal.
As 15 cidades com maiores prevalências incluem 11 da Região Norte, duas do Nordeste (Fortaleza e Recife) e duas do Sudeste (Rio de Janeiro e São Paulo). Na Região Sul, apenas Florianópolis apresentou prevalência superior a 0,5%, e na Região Centro-Oeste, a pesquisa não encontrou nenhum caso positivo nas nove cidades estudadas, embora já existam casos e óbitos notificados. Para os pesquisadores , o resultado confirma o que as estatísticas oficiais já mostram: a Região Norte com cenário epidemiológico mais preocupante do país.
O trabalho inédito no país também mostra, segundo integrantes da equipe de pesquisadores, que "há várias epidemias num único país. Enquanto algumas cidades apresentam resultados altos, comparáveis aos de Nova York (EUA) e da Espanha, outras apresentam resultados baixos, comparáveis a outros países da América Latina".
Em relação ao respeito às medidas de distanciamento social, o Rio Grande do Sul, o Rio de Janeiro e Santa Catarina são os que mais de 65% dos entrevistados disseram cumprir. Em Alagoas, no Maranhão e em Roraima, menos da metade dos pesquisados cumprem as regras.
Até a quarta-feira, deve ser apresentado no Estado o resultado da última etapa de entrevistas das quatro que compõem o estudo gaúcho.
O Epicovid19-BR
- É coordenado pelo Centro de Pesquisas Epidemiológicas da UFPel
- O financiamento para a pesquisa é do Ministério da Saúde
- O estudo conta também com apoio do Instituto Serrapilheira, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), da Pastoral da Criança, além de doação do programa da JBS Fazer o Bem Faz Bem
- A coleta de dados é de responsabilidade do IBOPE Inteligência.


