Cinco séculos após o surgimento dos Estados nacionais, o continente europeu vive uma onda de separatismos regionalistas. Muita pressão política e econômica foi usada para conseguir alguns votos visando manter a Escócia no Reino "Unido". Na Espanha em crise, enquanto o nacionalismo basco parece procurar novo foco, após o insucesso da via terrorista do ETA, o catalão levanta a voz, buscando um plebiscito.
Para muitos observadores, tais eventos se baseiam em diferenças étnico-linguísticas, mas para seus militantes se trata de corrigir injustiças históricas. Mas há explicações mais profundas e associadas para a emergência de tais fenômenos. Porque na Itália, onde existe movimento separatista no norte, todos são, em tese, italianos. E na França, onde há alemães alsacianos, bretões, bascos, catalães e italianos provençais e corsos, não há movimentos separatistas expressivos.
A integração europeia, ao assumir algumas das competências nacionais para o plano comunitário, abriu espaço para arranjos regionais. Por outro lado, a globalização criou novas bases políticas e fluxos econômicos, e, principalmente, alterou os fundamentos sobre os quais foram construídos os espaços nacionais, tanto política como economicamente. As regiões ricas não desejam mais contribuir para as mais pobres, como ocorre na Espanha. Excetuando a cidade de Madri, as áreas mais prósperas são, justamente, o país Basco e a Catalunha.
No caso da Bélgica, o catolicismo manteve, por séculos, os flamengos, holandeses do sul (agricultores e artesãos), unidos aos valões de fala francesa do sul, contra os holandeses do norte (calvinistas e comerciantes). A Revolução Industrial fez da Valônia uma região próspera, com suas siderúrgicas, enquanto o flandres permanecia uma região agrícola. Desde os anos 1970, contudo, ocorreu a desindustrialização da primeira, enquanto o segundo se convertia numa próspera economia de serviços e logística. Agora, os flamengos enriquecidos se recusam a auxiliar os valões empobrecidos, considerando a Bélgica "artificial".
Até o presente as rupturas têm sido evitadas por recorrentes concessões tributarias dos governos centrais. Todavia, se o fenômeno avançar, mais grave do que reconstituir o mapa medieval europeu, com micropaíses, o fenômeno é preocupante por seu conteúdo político.
Por mais nobres que sejam os argumentos levantados, os partidos regionalistas contribuem para esvaziar o sistema político, da mesma forma que a crescente extrema-direita. A ideia de que alguns são melhores e podem se salvar sozinhos, contribui para tornar o mundo ainda mais instável.
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