
O prefeito Daniel Guerra (PRB) chegou à metade de seu governo com cinco pedidos de impeachment. Saiu vitorioso em todos, embora tenha levado um susto com a abertura de processo em um deles, que acabou arquivado em abril do ano passado. Os resultados favoráveis, no entanto, não aliviam a imagem de desgaste do governo. E nem representam trégua da oposição, incluindo aqui o ex-vice-prefeito Ricardo Fabris de Abreu (Avante).
Fabris, por exemplo, derrotado nas duas tentativas de cassar o prefeito, costuma encaminhar suas denúncias ao Ministério Público. Vai continuar fazendo o mesmo. Os vereadores insatisfeitos com Guerra devem propor a criação de uma CPI da Saúde — era o que se comentava na sessão de terça-feira, antes mesmo da votação que negou o acolhimento do pedido de impeachment.
A medida que a eleição de 2020 se aproximar, a tendência é que o embate se acirre. Não há, na visão do cientista político e professor da FSG, Marcos Paulo dos Reis Quadros, perspectiva de que o governo municipal consiga estabelecer "paz política", principalmente por conta de posturas como a falta de comunicação com a sociedade e com as forças políticas. Quadros não acredita em conflitos generalizados, mas em ruídos.
A queda de braço, segundo ele, irá continuar e se acentuar até o próximo pleito.
— A prefeitura parece agir de uma maneira um pouco autônoma demais ou pretensamente autônoma demais, que visa a estabelecer o seu próprio rumo, sem levar em conta outras forças que estão no jogo, confiando apenas nas suas próprias e num suposto apoio popular que, talvez, venha a se confirmar na próxima eleição, mas talvez não venha. É uma aposta difícil. É uma aposta alta e complicada — analisa.
Ex-vice-prefeito, ex-vereador e ex-deputado estadual, Francisco Spiandorello concorda que a falta de diálogo é um problema do atual governo, que acaba trazendo dificuldades para a própria administração. As polêmicas, como as divergências com o próprio vice, agora ex, acabaram gerando uma imagem negativa de Caxias. Para Spiandorello, o desenvolvimento da cidade acaba prejudicando a situação, considerada "atípica", segundo ele.
— A população também, de outra parte, está insatisfeita, e aí se criam conflitos em que a solução é sempre solução com alguma ruptura, com sequelas que marcam Caxias. Não tinha ainda ouvido, nem vi nestes 50 anos que estou acompanhando, nada como está ocorrendo agora.
Impeachment não deve interferir na eficiência
Para o ex-vereador Adir Rech, episódios como o pedido de impeachment não interferem _ ou não deveriam interferir _ na eficiência de uma gestão. A eficiência se dá pela qualidade do planejamento e das providências que são tomadas, segundo ele, nos primeiros seis meses de governo. Ou seja, denúncias contra o prefeito não deveriam prejudicar o trabalho da administração municipal.
— Eu não sei o que o Guerra fez nesses primeiros seis meses, se ele tem projetos para concretizar. Os projetos, na prática, se concretizam nos últimos dois anos, e ele está nos dois últimos anos. Mas isso independe de todos esses episódios políticos, porque quando você tem uma equipe capaz, competente, experiente, ela, nos primeiros seis meses, projeta a administração. E aí não tem o que possa acontecer que vá inviabilizar aquilo que você planejou — acredita.
OPINIÕES
Os ruídos continuarão altos até a eleição
"O desgaste começou com as forças políticas pré-estabelecidas e com um corpo de servidores, com alguma cultura política que havia na cidade, afinal, ele promoveu algum tipo de mudança, mas havia um suporte muito importante do prefeito, é claro, por parte da opinião pública que o elegeu. Com o tempo, me parece que as ações de governo, determinadas posturas em especial, fizeram com que essa base de apoio ficasse menos sólida ou menos visível. E aí o prefeito e a sua administração, por um desgaste também vindo internamente do seu vice, de todo aquele processo de troca de secretários, se enfraqueceu bastante, e o problema da comunicação com a sociedade e com as forças políticas persiste no governo. Muito embora o processo de impeachment não tenha sido vitorioso, me parece que vai ser difícil para essa administração conseguir estabelecer algum tipo de agenda política ou de paz política, de consenso até a próxima eleição, que já é daqui um ano e meio. O cenário não vai chegar a ser de conflito generalizado o tempo todo. Isso seria inviável, inclusive para a oposição, que também não tem esse interesse. Mas os ruídos continuarão, e continuarão altos até a eleição. A oposição não vai deglutir, não vai aceitar o prefeito, e o prefeito, por seu turno, não parece dar o braço a torcer, no sentido de revisitar algumas das suas posturas. Essa queda de braço vai continuar e, quando se aproximar o período eleitoral, isso vai se acentuar ainda mais". Marcos Paulo dos Reis Quadros, cientista político
Os projetos se concretizam nos últimos dois anos, e ele está nos últimos dois anos
"Um governo municipal se faz nos primeiros seis meses, quando você planeja. Se você não planejar nos primeiros seis meses o que você vai fazer nos quatro anos, você não vai praticamente fazer nada. Esses episódios políticos, como o impeachment, na minha opinião, não interferem na eficiência de uma gestão, porque a eficiência se dá pela qualidade do planejamento e das providências que são tomadas nos seis primeiros meses, em termos de políticas públicas, de metas estabelecidas, de busca de recursos para aportar projetos. Eu não sei o que o Guerra fez nesses primeiros seis meses, se ele tem projetos para concretizar. Os projetos, na prática, se concretizam nos últimos dois anos, e ele está nos dois últimos anos. Mas isso independe de todos esses episódios políticos, porque quando você tem uma equipe capaz, competente, experiente, ela, nos primeiros seis meses, projeta a administração. E aí não tem o que possa acontecer que vá inviabilizar aquilo que você planejou. Estou dando uma opinião sobre aquilo que eu conheço que ele fez". Adir Rech, advogado e ex-vereador
A solução é sempre solução com alguma ruptura, com sequelas
"A preocupação que eu vejo é que o processo político da cidade está em um ponto de desgaste muito grande. Não quero discutir as razões, mas há um desgaste muito grande. O que eu creio que está faltando também, especialmente do Executivo, é de diálogo, e a forma de administrar a cidade é que tem causado dificuldades muito grandes. Tem essas questões que havia com o ex-vice-prefeito e outras que estão aparecendo, então é um conjunto que está causando uma imagem negativa da cidade. Também vejo o desenvolvimento e os investimentos. Prejudica muito, porque vejo que não está havendo uma forma de comunicação entre esses poderes. Também vejo por parte do Executivo uma judicialização muito acentuada. A população também, de outra parte, está insatisfeita, e aí se criam conflitos como esse em que a solução é sempre solução com alguma ruptura, com sequelas que marcam Caxias. Não tinha ainda ouvido nem vi nestes 50 anos que estou acompanhando, nada como está ocorrendo agora". Francisco Spiandorello (DEM), ex-vereador e ex-deputado estadual
