
Com 26 assassinatos neste ano, Bento Gonçalves está em alerta. Desde o mês passado, a média de mortes violentas é de dois casos por semana. Para uma cidade tida com uma das 10 mais desenvolvidas do Estado e destino de negócios e de lazer, tantas vidas perdidas em 2017 chamam a atenção.
Além de estar perto de alcançar o total de mortes de todo o ano passado, que teve 28 casos, a violência deste ano reforça outro dado preocupante: Bento Gonçalves tem uma taxa de assassinatos que supera Caxias do Sul, município com população quatro vezes maior e violência enraizada. Enquanto Caxias, com 483 mil habitantes, tem uma taxa de 17,1 mortes violentas para cada 100 mil habitantes, Bento, com 115 mil moradores, aparece com o índice de 22,5. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a cidade já figura entre as 20 mais violentas do Estado.
Se no ano passado, o primeiro semestre foi o mais preocupante, com destaque para os meses de fevereiro e maio, que respectivamente contabilizaram seis e cinco casos, em 2017, setembro foi o mês mais violento, com 10 pessoas assassinadas. Com esse movimento desenfreado, notado desde o ano passado, a população se vê despreparada para lidar com a onda de crimes contra a vida e levanta um questionamento: o que está acontecendo em Bento Gonçalves?
Levantamento da Rádio Gaúcha mostra que os homicídios ocorrem com frequência nas comunidades do Municipal, Vila Nova, Eucaliptos, Conceição e Tancredo Neves, onde moradores lidam com problemas habitacionais, falta de opções de lazer para os jovens e concentração de pontos de tráfico.
Mesmo sem ainda ter dados que embasem a motivação dos crimes, autoridades da cidade mencionaram de forma unânime que o principal desencadeador dos crimes é a evolução do tráfico de drogas local, que gera execuções entre grupos rivais ou de pessoas em dívida com criminosos. Para o delegado Álvaro Becker, do 2º Distrito Policial, havia uma expectativa de que os casos reduzissem, pois operações recentes da Polícia Civil desarticularam algumas quadrilhas na região, mas a dinâmica do comércio de drogas complica as ações policiais.
—O tráfico é rápido, volúvel, fácil de trocar de endereço. Às vezes, você tem um ponto numa esquina e amanhã já não está mais ali, passou para outra. Diante disso, a gente fica tentado eliminar os grupos, pois quanto mais membros houver, mais poder eles sentem ter. É por isso que eu digo: se diminuir a clientela, se reduz o comércio e, consequentemente, os crimes contra a vida— acredita Becker.
De acordo com a polícia, a maioria das vítimas tinha algum tipo de envolvimento com o tráfico, o que acendeu a luz vermelha para a necessidade de ações específicas, como a identificação dos grupos que estão causando temor na cidade e ações sociais nos bairros.
—Em quase todas as ocorrências se notou que a vítima possuía antecedentes por tráfico, furto ou roubo. Isso revela que o que pode motivar os crimes são brigas por pontos de venda de drogas, não pagamento pela compra de entorpecentes ou, até mesmo, uma disputa entre eles para ver quem é o mais poderoso. Essas são questões que estamos analisando para conter a situação —detalha o delegado.
Quem são as vítimas
Conforme investigações da Polícia Civil, a maioria das vítimas era usuária, traficante ou disputava ponto de tráfico de crack, maconha e cocaína. Segundo o delegado Becker, alguns casos também indicam possível acerto de contas entre quadrilhas.
19 janeiro
1- Rafael dos Santos Coelho, 28 anos: primeira vítima do ano. Foi assassinado a tiros dentro do carro, no bairro Fenavinho. O crime aconteceu à noite, por volta das 23h45min. Coelho possuía antecedentes criminais.
18 de fevereiro
2- João Carlos Bublitz, 19 anos: executado a tiros na Rua Balduíno Alegretti, no bairro Municipal, durante a madrugada. Não há confirmação sobre antecedentes.
7 de março
3- Jocelito da Silva dos Santos, 36 anos: Santos foi morto a tiros, por volta das 12h, no bairro Santa Marta. O corpo dele foi deixado dentro de um carro, no banco do carona. Perto do veículo, a polícia encontrou estojos de pistola 9mm. Segundo a Polícia Civil, ele tinha antecedentes criminais.
18 de março
4- Edemar da Rosa Silva, 26 anos: na madrugada, foi ferido com golpe de faca durante uma briga com outro homem num bar do bairro Municipal. Ele foi levado ao Hospital Tacchini, em Bento Gonçalves, onde morreu no dia 23 de março. A polícia não informou se a vítima possuía antecedentes.
21 de março
5- Giordan Ribeiro Costa de Oliveira, 20 anos: assassinado durante a madrugada no ponto conhecido Beco do Nico, na Rua Adelaide Basso Pasquali, no bairro Tancredo Neves. Ele estava dentro de um veículo quando foi baleado. Oliveira não tinha passagem pela polícia.
25 de março
6- Rudimar Mattei, 50 anos: estava na frente da casa de amigos na Linha Km2, em Tuiuty, interior do município, quando foi baleado por dois homens. Mattei era natural de Roca Sales e não tinha passagem pela polícia. O crime ocorreu por volta das 19h45min.
16 de abril
7- Jonas Reginaldo da Silva, 31 anos: executado a tiros no bairro Vila Nova 3, por volta das 22h. Junto com ele estava Endrigo José Pacheco, 23 anos, que ficou ferido. Eles estavam em uma Blazer quando houve os disparos. Em maio do ano pasado, o irmão de Jonas, Jéferson Reginaldo da Silva, 26 anos, havia sido executado no loteamento Bertolini. Segundo a Polícia Civil, ele tinha antecedentes criminais.
3 de maio
8 - Everson Diego do Nascimento, 21 anos: detento do regime semiaberto, ele foi encontrado baleado por policiais militares, por volta das 20h, caído na Rua Caxias do Sul, no bairro Municipal. Tinha antecedentes criminais, sendo um deles por homicídio. Morreu dias depois no hospital.
14 de maio
9 - Paulo Roberto Dorneles Machado, 28 anos: foi morto a tiros por volta da 1h40min em uma residência, no bairro Juventude. Dorneles já havia sido vítima de tentativa de homicídio em 2015. Ele possuía antecedentes por tráfico de drogas, em 2010, e receptação.
27 de maio
10 - Lairton Silva Modzeiski, 28 anos: executado por volta das 17h, na Rua Fiorelo Baú, no bairro Jardim Glória. Na ocasião, vizinhos teriam ouvido dois disparos de arma de fogo, mas não viram o assassino. De acordo com a Polícia Civil, ele tinha antecedentes criminais.
27 de maio
11- Mateus Machado de Mello, 17 anos: baleado na frente de um bar na Rua Luís Pedro de Março, no bairro Conceição, por volta das 21h. A polícia investiga se houve relação entre a morte dele e a de Modzeiski. Mello tinha passagem pela polícia.
15 de julho
12- Edson Rocha de Souza, 26 anos: morreu com golpes de faca e por pedradas, por volta das 5h, na Rua Adelaide Basso Pasquali, no bairro Conceição. A vítima tinha antecedentes.
3 de agosto
13 - José Alencar Soares de Oliveira, 50 anos: baleado no bairro Vila Nova II, na madrugada, às 5h25min. Ele tinha passagem pela polícia por roubo e por violência doméstica.
4 de agosto
14-William Junqueira da Silva, 28 anos: executado com vários tiros às 22h30min, no bairro Municipal. Junqueira era natural de Porto Alegre e segundo a Polícia Civil, tinha antecedentes.
8 de agosto
15 - Aparecida de Fátima Marin Bittencourt, 44 anos: foi encontrada morta, por volta das 15h, dentro do apartamento onde morava, na Rua General Góes Monteiro, no bairro São Francisco. Aparecida foi assassinada com diversos golpes de facada. O corpo apresentava ferimentos na cabeça, pescoço e peito. Ana Paula Marin Bittencourt, 32, irmã da vítima, no dia 24 de agosto, foi presa pelo assassinato.
27 de agosto
16 - Rodogério da Silva Rodrigues, 29 anos: rodrigues havia invadido uma casa e esfaqueou um rapaz, que revidou. Ele acabou sendo morto com machadadas na cabeça. O crime ocorreu por volta da 1h30min, na Rua Giovani Menegotto, no bairro Aparecida. A vítima tinha passagem pela polícia.
3 de setembro
17 - Mara Regina Gonçalves Teixeira, 39 anos: natural de Baté, foi assassinada num terreno baldio da Rua do Livramento, bairro Juventude. A mulher tinha ferimentos de faca pelo corpo. O local era conhecido como ponto de tráfico e prostituição, segundo a polícia. Mara era conhecida da vizinhança como uma andarilha. Não há confirmação sobre antecedentes.
10 de setembro
18- Mateus Alves, 21 anos: natural de Contagem (MG), foi morto com um tiro na cabeça, às 6h30min, na Rua Ari da Silva, bairro Eucaliptos. O crime ocorreu pela manhã. Não há confirmação sobre antecedentes.
17 de setembro
19- Daniel Barros de Souza, 25 anos: natural de Lagoa Vermelha, estava sentado numa parte elevada da Rua Ari da Silva, no bairro dos Eucaliptos, quando recebeu os disparos efetuados por um homem. O crime ocorreu por volta das 16h30min. Souza tinha passagens pela polícia.
20 de setembro
20- Leomar Geraldo, 33 anos: Geraldo estava saindo de um jantar com um grupo de amigos, quando foi assassinado a tiros na Rua Fiorello Bertuol, no bairro Borgo, durante a madrugada. A polícia investiga se ele teria sido morto por engano.
21 de setembro
21 - Isaías Cabral da Luz, 21 anos: foi baleado na frente de casa, por volta das 22h, no bairro Tancredo Neves. Ele ainda correu para dentro de casa e foi socorrido, mas morreu enquanto recebia atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Bento Gonçalves. Ele tinha passagens na polícia.
22 de setembro
22- Leonir Alves da Silva, 31 anos: morreu após discussão com um homem, que sacou um revólver e disparou à queima-roupa. O crime ocorreu por volta das 21h30, na praça do bairro Progresso. O autor do assassinato apresentou-se na polícia e assumiu o crime. Silva tinha várias passagens na polícia.
25 de setembro
23- Gabriel André da Silva Gaieski, 16 anos: foi baleado em um condomínio, na Rua Bramante Mion, bairro Ouro Verde, às 20h. Atingido por tiros na cabeça, ombros e costas, morreu dois dias depois no Hospital Tacchini. Não há confirmação sobre antecedentes.
28 de setembro
24- Nelson Inácio da Silva, 46 anos: paraplégico, foi alvejado com cinco tiros em um bar, por volta das 20h, na Rua Lajeadense, bairro Municipal. Ele chegou a ser levado para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Município,onde morreu. Testemunhas mencionaram que os disparos foram efetuados por dois homens encapuzados e a pé. Tinha passagens na polícia.
29 de setembro
25 - Flávio Rebolho Machado, 41: a suspeita principal do homicídio é um acerto de contas. Ele foi morto a tiros, na Rua Arnaldo Frederico Audibert, bairro Vila Nova, por volta das 20h. A vítima foi encontrada caída no chão, ao lado de um automóvel Fiesta. Machado tinha antecedentes por tráfico de drogas, roubo, lesão corporal, porte ilegal de arma e falsificação de documento.
4 de outubro
26 - Felipe Soares dos Santos, 25 anos: morto a tiros na Rua Gema Piva dos Santos, bairro Municipal, por volta das 21h30min. A suspeita inicial é que a morte tenha relação com o tráfico de drogas na região. De acordo com a Brigada Militar, Santos possuía antecedentes criminais.



