O Mosaico na Quebrada alcançou horizontes além do Eusébio Beltrão de Queiróz neste sábado (4) em Caxias do Sul. A iniciativa do Instituto SAMbA, Vielas Espaço Cultural e do rapper Chiquinho Divilas chegou ao Complexo Jardelino Ramos. Cerca de 50 pessoas, entra elas crianças da comunidade e voluntários, participaram da ação, que ocorreu pela primeira vez fora do bairro onde a ideia nasceu. A mudança atende a pedidos da comunidade, que também quer ver a "quebrada" onde vive mais colorida.
O sonhador personagem Buscapé do filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, foi usado como referência para o grafite que o artista urbano Róger Zortéa fez na fachada de uma casa. Essa moradia de dois andares na Rua Assis Brasil é mais do que especial: é lá que passa a maior parte do tempo o menino Lukaian Pereira Machado, quatro anos. Superdotado, o pequeno sabe todo o alfabeto desde um ano e oito meses. Com essa idade ele já sabia escrever e contar os números até 30.
Ele mora com os pais, o analista de estruturas Sérgio Luiz Mann Machado, 35, e a analista fiscal, Gabriela da Silva Pereira, 30, no bairro De Lazzer, mas passa a maior parte do tempo aos cuidados da avó Clélia da Silva Pereira, 69.
— A gente fica impressionado como ele tem capacidade de associar as sílabas e formar palavras e aprendeu muito rápido a formar frases. O Luka sabe todas as placas de sinalização e conhece as normas de trânsito. Tem muita facilidade em aprender — conta Machado, pai do menino.

Lukaian escreve e lê, sem ter sido alfabetizado, sabe os números até trilhões, e aprendeu a falar e soletrar palavras em inglês, especialmente, assistindo desenhos animados. O menino também aprendeu russo ao trocar o idioma quando assistia Masha e o Urso, e conta até 10 em japonês depois de interagir por alguns momentos com o fotógrafo Bruno Todeschini do Pioneiro.
A infância dele é como a de qualquer outra criança, com brincadeiras, e interação com os amiguinhos do bairro, mas essa facilidade em aprender, tão natural, e que encanta os familiares, também provoca uma certa apreensão com o futuro do pequeno.
— Fico pensando em como será quando ele entrar na escola, como ele vai ser portar com as outras crianças porque ele já está mais adiantado, se ele vai se enturmar e como a escola vai receber ele porque já tem um conhecimento além da idade dele — pondera a mãe do menino.
A família criou um Instagram para o garoto, mas a pretensão não é viralizar. O conteúdo é produzido conforme ele tem vontade para que não seja cansativo. Hoje a família está em busca de um especialista para diagnosticar o filho, já que a médica que consultaram apontou que ele só poderia ser testado depois dos seis anos. A ideia depois é conseguir uma bolsa de estudos. A Doutora em Educação e Superdotação e Neuropsicopedagoga especialista na avaliação de crianças e adolescentes superdotados, Olzeni Ribeiro, aponta que um desafios dos pais de superdotados é conseguir o diagnóstico.
— Quanto mais cedo tiver o diagnóstico, mais possibilidades terão os pais de oferecer uma educação familiar e escolar adequada a essas crianças. Esse menininho tem fortes características da superdotação pelo autodidatismo, a capacidade de indução e abdução apenas pela lógica, aprendizagem rápida e fácil independente do nível de conhecimento, raciocínio ágil para cálculos mentais, e, em especial ser "inquieto". Ele tem características que vão além da inteligência cristalizada, ele tem alta inteligência fluida — destaca a especialista.
Casa onde Lukaian vive está mais colorida
Atento, o menino acompanhava enquanto Zortéa grafitava a parede da casa. Depois foi até um dos becos e pegou uma lata de spray para pintar com ao lado dos voluntários parte do muro Centro Cultural Espírita Jardelino Ramos na Avenida Barão do Santo Ângelo.
— Olha, tia Aline — dizia, que assim que a repórter chegou e ele leu o nome dela no crachá.
A alegria do menino e da avó, estava presente nas outras crianças e nos voluntários, que começaram a colorir o muro por volta das 9h e encerraram a atividade pouco antes das 11h. A produção foi idealizada pelo grafiteiro Marcos Sikorsky. As voluntárias Viviana Geremia, 31, e Ágatha Daneres Andelzetor, 22, não escondiam o sentimento de realização.
— É muito incrível porque envolve a comunidade. A gente se sente parte, mas o melhor é ver o brilho no olho deles — disse Viviana.
Ágatha também estava emocionada por ser a primeira vez que participou do Mosaico:
— É uma experiência única, e que mistura a criatividade, esperança, e o sentimento de acolhimento. Precisamos desses momentos e dessa troca e envolvimento.
A ideia é usar a arte para elevar a autoestima de quem vive em bairros da periferia. As irmãs Débora Nascimento, 25, e Isa Vidaleches, 16, e a amiga Muriel Silva, 23, estavam realizadas ao grafitar a parte de trás do muro:
— É uma honra poder estar pintando na quebrada porque eu moro aqui, e é primeira vez que tem um rolê de cultura nesse lugar e estou feliz de trazer cor para o bairro. Cada uma de nós fez o estilo de desenho e unificamos em uma arte só. O nosso grafite fala um pouco da gente, das mulheres negras da periferia, dos que acreditamos e sonhamos — conta Muriel, que grafita há cinco anos.
A tia de Muriel, Maria Eusébio de Brito, 69, voltava do mercado e sentou para observar o muro:
— Trás alegria e mais cor ao nosso bairro.
A presidente do Instituto SAMbA, Jéssica de Carli, comemorou o fato de encontrar talentos dentro da comunidade:
— Eu conhecia o trabalho das gurias das redes sociais e, na quinta-feira (2), estava no beco para organizar o Mosaico e elas vieram falar comigo. Essa é a ideia: encontrar essas mulheres e meninas da comunidade que são muito talentosas. Foi uma surpresa que deixou essa edição mais especial — destaca Jéssica.
Por volta das 11h, o rapper Chiquinho Divilas se apresentou e contou com a participação de moradores:
— A tinta que sai da lata spray a gente chama de miscelânea da paz porque é um trabalho feito por várias mãos, para que a comunidade tenha protagonismo. Nós temos uma pauta que é usar a arte para erradicar o esteriótipo de violência que fecha as portas para quem vive nas periferias e que possa surgir novos artistas e que eles entendam que podem ser o que quiserem, que tem que sonhar —ressalta o rapper.
A programação contou ainda com atelier aberto e gratuito de fotografia para crianças, adolescentes e adultos, especialmente, aos moradores da comunidade. Essa atividade foi coordenada pelos fotógrafos William Cabral, Johnatan de Tomas e Rafael Neques. Em seguida, aconteceu almoço para os voluntários e comunidade. Às 15h, ocorre Roda de Samba e o encerramento é às 16h.



