
R$ 59 é um dos preços mais baixos de mensalidade que você pode encontrar numa lista cada vez mais extensa de ofertas que vendem a ideia de que é possível frequentar e concluir um curso superior sem sair de casa em Caxias do Sul. É valor promocional, refere-se a um desconto da primeira parcela para quem optar pela matrícula numa das instituições que oferece Educação a Distância (EAD). Para ter acesso, basta internet, computador e disposição.
Num primeiro momento, uma mensalidade tão barata parece estratégia comercial para atrair estudantes num mercado onde a concorrência é tão acirrada a ponto de deixar dúvidas sobre qual é a opção mais adequada para se conquistar um diploma universitário. Só que é mais do que isso. Se a EAD está sendo comercializada em pacotes que trazem o mesmo apelo dos combos promocionais de TV a cabo e de telefonia, é porque um modelo está se consolidando a passos largos sem que tenha ocorrido um debate mais profundo, como alertam educadores. A ampliação de ofertas exige um olhar sobre a qualidade das formações acadêmicas que estão por vir e também desafiam as instituições com modelo mais tradicionais que enfrentam a pressão dos grandes grupos educacionais voltados para a modalidade via internet. Para entender essa mudança sem precedentes no Ensino Superior, a reportagem mostrará o impacto da EAD nas instituições da cidade, entre os alunos e professores de hoje até sexta-feira.
A migração das aulas presenciais para as aulas virtuais vem sendo percebida nos últimos cinco ou seis anos em Caxias, ganhou impulso na segunda metade de 2017 e avançará ainda mais neste ano. É uma tendência verificada em todo o país.
Numa comparação direta entre o total de alunos matriculados em cada segmento pode não parecer um número impactante para os padrões da cidade. As aulas tradicionais, onde o professor recebe os alunos para passar o conteúdo em sala do jeito tradicional, reúnem público 9 ou 10 vezes maior do que as virtuais, onde o contato entre docente e estudantes é por meio de vídeoaulas, chats e outras ferramentas digitais. Mas professores, gestores e o próprio mercado veem o ensino presencial vivendo um período de transição, onde se discute a urgência da inovação para manter estudantes, enquanto a Educação Superior a Distância (EAD) dá sinais de crescimento.
Os números do último censo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep), de 2016, já apontavam as mudanças. As matrículas no sistema presencial do Ensino Superior caíram em torno de 7% de 2015 para 2016 em Caxias - a queda já vem sendo registrada desde 2013, muito em função da crise econômica. No mesmo período, as matrículas para aulas virtuais aumentaram 10%. Uma nova atualização dos dados está sendo realizada neste ano e provavelmente indicará índices ainda mais favoráveis à EAD por diversos fatores, entre eles, o preço mais acessível das mensalidades, geralmente 40% a 50% mais baratas que o método tradicional, e a comodidade de poder estudar em qualquer lugar desde que haja um sinal de internet de qualidade.
A expansão atual deve-se muito a uma ação do Ministério da Educação (MEC) para ampliar a oferta de cursos superiores a distância. A partir de uma portaria que regulamentou o setor em maio do ano passado, qualquer instituição pode disponibilizar EAD sem a necessidade de manter cursos presenciais, como era no passado. O objetivo do governo federal é alcançar a Meta 12 do Plano Nacional de Educação (PNE), que prevê a elevação da taxa bruta de matrícula na educação superior para 50% e a taxa líquida em 33% da população de 18 a 24 anos. Na mesma linha, as instituições públicas ficam automaticamente credenciadas para oferecer a modalidade a distância. A partir dessa portaria, cinco instituições já instalaram polos em Caxias do Sul e outras estão a caminho da cidade.
A decisão do governo federal é vista com receio por muitos especialistas, pois acredita-se que a medida estimulará mais a concorrência entre os grandes grupos privados. Ou seja, os preços das mensalidades vão baixar para atrair alunos, mas sem a garantia de que o ensino formará bons profissionais.
A passos largos
Em Caxias, a oferta de cursos virtuais já supera a de cursos presenciais. Pela primeira vez há mais instituições totalmente EAD do que tradicionais na cidade, embora esses novos serviços operem por meio de polos educacionais, o que significa que eles têm menos alunos e estruturas menores do que a Universidade de Caxias do Sul (UCS), o Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG) e o Centro Universitário da Serra (Uniftec), por exemplo.
Segundo o Ministério da Educação (MEC), há 26 estabelecimentos de Ensino Superior credenciadas em Caxias, mas a reportagem identificou a atividade plena de 21 instituições. Isso ocorre porque há faculdades em processo de descredenciamento e que já não atendem mais ou que buscaram a regularização junto ao MEC para desembarcar em breve na cidade, caso da Universidade da Amazônia (Unama).
É uma expansão significativa que se projeta. Há 10 anos, Caxias contava com sete instituições de Ensino Superior, a maioria de forma presencial. De 2009 para cá, surgiram mais 14 unidades diferentes, sendo que oito delas abriram as faculdades somente nos últimos dois anos. Detalhe: das 14 novas instituições do período, 10 oferecem aulas virtuais.
A expansão da EAD também ganhou o reforço da FSG, que anunciou nesta semana a oferta de 70 novos cursos a distância para Caxias do Sul e região. A UCS, a maior instituição da Serra, que tem a formação de Pedagogia e de Biblioteconomia a distância e 20% das disciplinas das demais graduações de forma virtual, vai ampliar consideravelmente as aulas digitais para o vestibular de 2019. A Faculdade Fátima, gerida por um dos grupos mais antigos na área educacional de Caxias, já protocolou pedido de credenciamento para EAD em Caxias.
Em meio a tantas propostas, o estudante fica diante de um labirinto sem saber, de fato, qual o caminho para obter uma graduação. Com base em dicas do MEC, da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed) e educadores, o Pioneiro elaborou um mapa do Ensino Superior na cidade para tentar ajudar a quem pretende ter o tão sonhado diploma. Confira nas páginas seguintes.
COMPARE
No país
:: Conforme o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep), a EAD era responsável por cerca de 4% das matrículas de graduação no país há 10 anos. No último censo, de 2016, as matrículas a distância já representavam 18,6% de todas as graduações no país, totalizando quase 1,5 milhão de alunos frequentando um curso superior em casa.
:: A projeção é de uma grande inversão em até cinco anos: a tendência é de que a EAD absorva 60% das matrículas e o presencial fique com 40%.
Em Caxias
:: Em Caxias do Sul, há 10 anos, a EAD respondia por apenas 1,7% do total de matrículas de graduação. Segundo o Inep, eram 28 mil alunos no modelo presencial e 490 no modelo virtual. No último censo, a fatia da EAD correspondia a 10% do total de matrículas, com 29,4 mil alunos no modelo presencial e 3.255 alunos no modelo de aula digital.
:: Embora os números do último censo do Inep indiquem um aparente crescimento na quantidade de estudantes no presencial em relação a 2008, a participação diminuiu. Em 2013, por exemplo, havia 32.685 matrículas do Ensino Superior nas salas de aula dos estabelecimentos de Caxias, ou 3.271 alunos a mais do que apontou o último censo. A redução tem relação com a crise econômica, mas também pelas opções em EAD.
:: Atualmente, são 476 cursos EAD ofertados em Caxias. No presencial, são 177 opções.



