
Numa reverência ao dia 23 de outubro, quando se comemora o Dia do Aviador - há 108 anos, nesse dia, Santos Dumont voou com seu 14 Bis por cerca de 60 metros no Campo de Bagatelle, na França - o Pioneiro conta a história do funcionário público Carlos Rizzi, 61 anos. Presença constante no Aeroporto Hugo Cantergiani, em Caxias do Sul, e apaixonado pelo mundo da aviação, Rizzi embarcou na última terça-feira para sua terceira - e mais importante - viagem de avião. Em São Paulo, conheceu a Academia de Serviços Comandante Rolim Adolfo Amaro, um dos maiores e mais modernos centros para a área de aviação na América Latina, e o Hangar 2 da companhia TAM, junto ao Aeroporto de Congonhas.
>> A partida
Caxias do Sul ainda dormia quando chegamos à casa de Carlos Rizzi, no bairro Rio Branco, na última terça-feira. Às 4h45min, ele já nos aguardava. Boné, agasalho esportivo e acompanhado de uma bolsa, embarcou no carro que nos levaria a Porto Alegre.
Nosso destino era o Aeroporto Salgado Filho, onde embarcaríamos no voo 1203, às 8h25min. No caminho, sempre econômico nas palavras, Rizzi falou sobre as vezes em que voou, sobre a extinção da companhia Varig/Rio Sul, e até do serviço de bordo oferecido nos aviões.
Chegamos ao terminal na Capital por volta das 7h. Enquanto ele observava tudo como quem não quer deixar escapar uma gota, seguimos até a fila do check-in. Acessamos a sala de embarque por volta das 8h. Olhos grudados no vidro, que nos separava do pátio externo, Rizzi era um misto de nervosismo e tranquilidade. Pelo portão cinco, seguimos até a aeronave, um Boing 737-700, e procuramos os assentos: 12D e 12E. Um sorriso brotou no rosto do viajante quando o lugar junto à janela continuou vago quando as portas se fecharam.
- Vou sentar aqui, então, e aproveitar para olhar lá para fora - disse, após se certificar com a comissária.
Nos 75 minutos seguintes, perdi Rizzi para o céu. Hipnotizado pelo azul e pelas nuvens, ele não desviou os olhos da pequena janela.
Às 10h, São Paulo nos recebeu com garoa. O guia nos esperava junto aos terminais de check-in, no térreo junto à Praça Comandante Linneu Gomes e, em minutos, seguimos para a Rua Ática 673, para visitar a Academia de Serviços Comandante Rolim Adolfo Amaro, da companhia TAM.
Meio sem jeito com a repentina vida de quase celebridade, Rizzi tratou de observar tudo enquanto eu o apresentava ao nosso anfitrião, o instrutor Marcos Vinícius Martini, que faz o treinamento técnico de comissários.
Seguimos para uma das salas de treinamento, onde uma turma de comissários de bordo participava de uma aula prática. Martini explicou o que faziam ali, os equipamentos, para que servia a grande piscina, os botes. Na carcaça recuperada de um Fokker 100 que caiu em agosto de 2002, em Birigui, Rizzi voltou a sorrir: aprendeu com Martini a técnica correta de usar o colete salva-vidas e sentou na cabine, na cadeira do comandante, é claro.
- Agora, seu Carlos, arrume o boné como se fosse o quepe e vamos decolar a sua aeronave - brincou Martini.
Mal sabia Rizzi que ele teria a chance de pilotar, no simulador, um Air Bus A 320. O piloto Laercio Barquetta de Araújo, coordenador de treinamento técnico de pilotos, nos passou um breve resumo sobre os instrumentos e comandos e nos desafiou a tentar uma decolagem e um pouso.
Foram quatro tentativas - duas decolagens e dois pousos. As subidas foram mais tranquilas: esperar a velocidade alcançar 120 no marcador (em torno de 200 km/h), e puxar o manche para trás, para fazer o bico do avião subir. O problema foi o pouso. Na primeira vez, Rizzi terminou sem uma asa do avião. Na segunda, sem ajuda do piloto, o Air Bus foi parar na grama, fora da pista.
- É, é bem difícil mesmo - concordou Rizzi.
>> Observação e perguntas técnicas
A segunda parte do passeio foi no Hangar 2 da companhia TAM, junto ao Aeroporto de Congonhas. Lá, Rizzi conheceu o pátio de manutenção das aeronaves, a oficina de motores, de pneus e o Centro de Controle de Manutenção (MCC), onde uma equipe multiprofissional faz o monitoramento remoto de todas as aeronaves em voo da empresa em tempo real, permitindo detectar e solucionar problemas, a partir da base em São Paulo, em aeronaves em qualquer parte do mundo.
Embora tenha permanecido grande parte do tempo calado, atento às explicações do nosso anfitrião, o gerente de manutenção Marcus Vianna Jorge, Rizzi rompia o silêncio volta e meia para fazer perguntas técnicas como largura/altura das asas, potência dos motores, peso por metro quadrado, velocidade máxima... Na oficina dos motores, Rizzi também aproveitou a presença do engenheiro Claudio Sakai Koseki para saber mais sobre as turbinas do Boing 777, que faz linhas internacionais, e novamente perguntar sobre largura das asas, potência dos motores, velocidade...
Um dos momentos mais descontraídos da tarde aconteceu quando Rizzi conheceu o gerente do MCC, Jorge Marques, que é gaúcho de Porto Alegre. Outro apaixonado por aviação, Marques coleciona maquetes de aviões, desde jatos comerciais a caças militares. Como uma criança que chega ao parque de diversões pela primeira vez, os olhos de Rizzi brilharam ao ver os aviõezinhos na sala. E como dois velhos amigos, os dois esqueceram-se da nossa presença e trocaram figurinhas sobre os modelos e sua história.
Depois de um mergulho na aviação por mais de quatro horas seguidas, Rizzi precisou se despedir do seu mundo de sonho. Contente por ter vivido algo que nunca imaginaria aos 61 anos, deixou São Paulo com um Air Bus 320 embaixo do braço. A maquete, que ganhou lugar de destaque na casa dele. Será um troféu. E uma lembrança de que sonhar vale a pena.


