
Em tempo de conexões mentais geminianas, os pés alados do deus Mercúrio me dão o mote desse texto: o ato de caminhar. Acho uma bênção eu gostar de bater pernas, andar, andar muito. E olho torto as pessoas que recorrem ao automóvel até para uma ida à esquina. Caramba! Já não vivemos entre máquinas demais, com poluição demais? E já não estamos por demais sedentários? Ok, cada um com suas escolhas, e viva a liberdade. Mas o que pretendo é falar de outra liberdade que somente o caminhar oferece.
Há tempos venho lendo sobre o assunto. O antropólogo francês David Le Breton considera o caminhar em silêncio uma forma de resistência perante um mundo utilitarista e ruidoso. Diante das turbas apressadas e hiperconectadas, é subversivo tomar outros caminhos, num ritmo próprio, abertos ao presente e ao inesperado, sem olhar o celular a cada apito. E assim poder redescobrir a cidade em suas delicadezas ocultas. E assim poder estar mais conosco, no espaço interior do silêncio, quando apelos externos nos querem vorazes consumidores.
Já é senso comum, e estudos científicos comprovam, o efeito das caminhadas na liberação de endorfinas, fundamentais no alívio de males modernos como ansiedade, estresse e depressão. Melhor ainda se o caminhar ocorrer em espaços da natureza, mais propícios ao contemplar meditativo. O efeito na ordem mental é garantido. No século 19, o pensador norte-americano Henry D. Thoreau já afirmava que não poderia manter a saúde e o ânimo sem perambular todo dia por bosques, colinas e pradarias.
Não se trata de mero exercício físico, como se obrigar a queimar calorias em esteiras mecânicas. A atenta caminhada de Mercúrio repercute direto na mente. No flanar por aí, sem destino certo, as ideias se renovam. O geminiano Chico Buarque, andarilho convicto, dá a dica: “Andar eu recomendo para tudo. Se você tem qualquer problema, dê uma caminhada – porque ajuda, inclusive, a ter ideias”.
Caminhar sem pressa é observar, é renovar os ares da cuca, é abrir-se a outras visões. E como precisamos ampliar nossas molduras mentais! Portanto, vamos sacudir as asas dos pés e sair por aí, a viver outras paisagens.



