Antes de expor os argumentos que justificam o título do artigo, faço um alerta ao leitor: este texto é escrito por alguém que não considera profissão a função de flanelinha, ou guardador de carro, ou seja lá como queiram ser chamados aqueles que ficam na espreita de motoristas para, em espaço público, achacá-los sem qualquer fiscalização das autoridades. Faço essa ressalva por reconhecer que a opinião que tenho sobre o assunto provavelmente está calcada na minha total incapacidade de observar qualquer resquício de atividade profissional no "trabalho" feito por essas pessoas.
Em 2009, a prefeitura de Porto Alegre, em acordo com o Ministério Público do Trabalho e a Brigada Militar, "regularizou" a função de flanelinha. Para quem não lembra, vou resumir o que dizem as regras sobre o trabalho dos guardadores de carro e peço a você que tente se recordar de uma situação em que elas tenham sido devidamente aplicadas:
A contribuição pelo trabalho do guardador é espontânea, sem um valor fixo; é obrigatória a entrega de um tíquete ao motorista; o flanelinha deve se apresentar ao serviço em perfeitas condições de higiene e sóbrio; em eventos com horário marcado, ele deve permanecer até uma hora após o término.
Em 2012, seis meses depois da promulgação da lei, ninguém a cumpria
No papel, as regras são ótimas. A aplicação delas, porém, é risível. Salvo raríssimas exceções de guardadores honestos e cordiais, o que existe é intimidação aos motoristas. Alguém recebe tíquete quando deixa o carro aos cuidados de um flanelinha? A contribuição é mesmo espontânea? Bom, mais do que um gesto espontâneo, pagar pelo "serviço" dos guardadores é uma atitude compulsória e prudente, já que ajuda a evitar que o seu veículo sofra algum tipo de dano (por parte do próprio flanelinha, aliás). O mais intrigante é que tudo isso ocorre com uma estranha conivência da Brigada Militar e da própria prefeitura.
Em uma atitude corajosa, em 2013, a prefeitura de Caxias do Sul proibiu a função de flanelinha. A de Porto Alegre poderia reconhecer o fracasso na ideia de regularizar essa "profissão" e reproduzir a iniciativa caxiense na Capital. Sem ranço e sem culpar a Brigada Militar por não fiscalizar, já que a BM sequer dá conta de atender aos chamados de mais importância. Seria um gesto de humildade e de respeito com os porto-alegrenses que, afinal, são os verdadeiros donos dos espaços públicos da cidade.
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