
Índios e agricultores gaúchos envolvidos na disputa por terra estão descrentes de que a reunião de mediação do conflito prevista para a próxima semana, no Ministério da Justiça, em Brasília, dará resultado. Há mais de 30 focos de disputas agrárias entre colonos e índios no Rio Grande do Sul.
Em duas décadas de existência, o conflito entre agricultores e indígenas vive um dos seus picos de violência no Estado. O encontro foi agendado pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, depois do confronto entre caingangues e colonos motivado pela posse de 2,7 mil hectares de terra em Faxinalzinho, cidade agrícola no norte do Estado. No mês passado, indígenas fecharam estradas com toras de madeira. Os irmãos e agricultores Alcemar, 41 anos, e Anderson Souza, 26 anos, tentaram furar o bloqueio e foram mortos a tiros e pauladas.
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Suspeitos pelas duas mortes, o cacique Deoclides de Paula, 42 anos, e outros quatro índios foram presos pela Polícia Federal, na semana passada, quando participavam de uma reunião com representantes do governo do Estado, da União e da prefeitura.
Esse é o pano de fundo que envolve as comunidades de índios e agricultores. Na manhã de quinta-feira, ocorreu uma reunião entre as famílias caingangues alojadas no acampamento de Passo Grande do Forquilha, localizado em uma área de 1,9 mil hectares disputada com os colonos, entre as cidades de Sananduva e Cacique Doble.
- Com as prisões dos líderes de Faxinalzinho, a situação mudou nos acampamentos indígenas. Antes, a gente ainda tinha alguma crença nas autoridades, agora não temos mais. Na conversa que tivemos hoje (quinta-feira) com os guerreiros, eu ouvi deles que ninguém tem fé de que irá surgir alguma solução na reunião de Brasília - comenta Ireni Franco, líder do acampamento de Passo Grande.
Ainda dependendo de confirmação, caciques caingangues devem se reunir, até o fim de semana, para elaborar um documento e mandá-lo a Brasília. Esse documento deverá conter uma síntese das discussões feitas nos acampamentos, segundo o cacique Roberto Carlos Santos, do acampamento do Rio dos Índios - uma área de 600 hectares disputada com agricultores em Vicente Dutra, próxima ao Rio Uruguai.
O outro lado da moeda
A assessoria do ministro Cardozo confirmou a reunião de mediação para o dia 22, em Brasília. Em Faxinalzinho, o presidente da associação dos moradores do município, Ido Antonio Marcon, disse que a posição dos agricultores já é conhecida do governo federal há um bom tempo. Ela deverá ser reafirmada na reunião.
- Os índios não têm direito à nossa terra, nós temos documentos para provar - resume Marcon.
Os indígenas reivindicam o direito às terras sob a alegação de que seus antepassados viveram na região e foram expulsos pelos colonos. Em Sananduva, os representantes dos agricultores davam os últimos retoques em um esboço de proposta que respeita parte da reivindicação dos caingangues. Os agricultores propõem ao governo federal a compra de terras para criação de uma reserva para os caingangues, conforme o coordenador de conflitos agrários da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (Fetraf-Sul), Sidimar Luiz Lavandoski.
- O eixo da nossa proposta é a criação de uma reserva indígena para os caingangues, com terras compradas pelo governo. Os colonos continuariam com suas atuais propriedades - explica Lavandoski.
A criação de uma reserva fora das terras reivindicadas pelos índios é um assunto sobre o qual os caciques não querem ouvir falar.