
Com pouco espaço no circuito invadido pelo novo filme da saga Crepúsculo, O Céu sobre os Ombros chegou no fim de semana timidamente a Porto Alegre - está em exibição apenas na Sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim. É uma estreia que não combina com as suas qualidades. Trata-se de um dos melhores filmes brasileiros dos últimos anos.
Primeiro longa do mineiro Sérgio Borges, 36 anos, integrante do coletivo Teia, O Céu sobre os Ombros é um documentário que recria ficcionalmente o cotidiano de três personagens incomuns de Belo Horizonte. Ou, se você preferir, um drama ficcional sobre as vidas de três pessoas reais que vivem naquela cidade.
Nada confuso, muito menos novo: o método é bastante semelhante ao de ficções que se apoiam no real como o francês Entre os Muros da Escola (2008) e de documentários que reencenam a realidade como o brasileiro Terra Deu, Terra Come (2010).
- A coisa deveria ser um tantinho mais complexa - revela o diretor a ZH, em entrevista concedida por telefone. - Havia uma quarta participante, uma atriz e dramaturga, que estaria desenvolvendo três personagens para uma nova peça. Minha ideia era fazer o espectador associar o trio real a esses três personagens. Porém, achei que tudo estava ficando muito artificial, porque essa atriz e dramaturga não se entregou ao projeto com a intensidade dos outros. Ficou parecendo que ela era apenas uma bengala narrativa para juntar as três histórias paralelas.
Everlyn, Lwei e Murari são seus nomes. Suas vidas são tão incríveis (leia abaixo) que parecem inventadas por um ficcionista. É o grande lance do filme.
- Era importante que os personagens fossem assim exóticos - conta Sérgio Borges. - A matéria-prima é a realidade, mas o impacto sobre o espectador eu queria que fosse como o de algo inventado. A ideia central de As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, orientou o projeto: eu estava na minha cidade, mas meu interesse eram as cidades inverossímeis que existem dentro dela.
Borges concebeu o longa ao lado da roteirista Manuela Dias (de Transeunte e Deserto Feliz), mas ressalta que usou o roteiro apenas "para não se perder" nas filmagens e que o filme foi construído a partir da experiência do set, na qual atuaram quase como coautores, além dos próprios personagens, seus parceiros de Teia e o fotógrafo Ivo Lopes Araújo (diretor de Sábado à Noite e integrante do coletivo Alumbramento).
É que o set teve de tudo. Em determinadas sequências, Borges e equipe somente acompanharam o trio, captando os seus atos espontâneos. Noutras, o cineasta pregou peças em seus personagens, como aquela em que pediu para um editor telefonar para o escritor Lwei - e ficou à espreita, filmando a sua reação. Noutras ainda, combinou com o trio a encenação completa de momentos importantes de sua rotina - a exemplo daquela em que a transexual Everlyn faz um programa no carro com um cliente.
- Não sei se eu deveria contar isso, mas o cliente era na verdade um ator pornô. Era importante ter uma cena dessas porque aquilo ali é algo marcante no cotidiano da personagem. E eu queria que o público ficasse impactado com o que visse, se perguntando se o sexo era de fato real. Era, sim. Mas era produzido - defende o diretor.
Borges diz ter consciência de que pode ter passado dos limites da ética no documentário. Justifica-se dizendo que O Céu sobre os Ombros é um filme para ser questionado como um todo:
- Quero que o público questione também a mim.
A provocação vale a pena: se você for ao cinema, sairá da sessão tendo visto uma das mais interessantes experiências questionadoras das possibilidades da linguagem do cinema.
Os personagens:
MURARI é um ex-pichador que se tornou monge, tendo vivido cinco anos de celibato num monastério. Hoje é devoto da religião Hare Krishna, cozinheiro de um restaurante vegetariano e integrante da torcida organizada Galoucura, do Atlético Mineiro. Vive dividido entre o desejo de ser bem-sucedido e a proposta de diluição de ego de sua filosofia religiosa.
LWEI é um angolano descendente de portugueses que escreve vários livros ao mesmo tempo, sem conseguir concluir nenhum. Um deles narra detalhadamente um ano de visitas semanais suas a uma zona de prostituição de Belo Horizonte. Considera-se um escritor maldito. Tem tendências suicidas. É sustentado pela mãe e pela mulher - que acabou de perder um filho seu.
EVERLYN é uma transexual que faz mestrado sobre um hermafrodita do século 19 na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Conhece bem a obra de Sigmund Freud e Michel Foucault. É aspirante a poeta. Solitária, mantém uma história de amor virtual. Está em dúvida sobre fazer ou não uma cirurgia de troca de sexo. Prostitui-se e também dá cursos esporádicos sobre sexualidade.



