
Em um domingo qualquer na Restinga, o sol forte abraça o campo do Cecoris ou Pampa, o nome carinhoso dado pelo bairro. Em volta do campo de futebol, com muita areia e com grama apenas nas laterais, uma pequena multidão se aglomera. Alguns trazem cadeiras de praia, outros sentam no barranco, a maioria assiste à partida de pé, para não perder qualquer detalhe. Até um ambulante se instala no Pampa, com o seu isopor. Sabe que as vendas da tarde, de cerveja, refri, água e picolés, serão boas. Todos estão atentos ao jogo que se desenvolve no coração da Tinga. No lugar do futebol de várzea, porém, a bola que sobrevoa o campo é marrom e oval. Os jogadores usam armaduras e capacetes. É tarde de Restinga Redskulls, o time de futebol americano que conquistou o bairro e começa a arrastar pequenas e orgulhosas multidões a seus jogos.
- Caveira, caveira, caveira - grita a massa, chamando seus novos ídolos pelo apelido da equipe.

Fotos: Diego Vara/Agência RBS
Os Redskulls (ou Caveiras Vermelhas, em português) se prepararam para a disputa do Campeonato Gaúcho de Futebol Americano, a partir de fevereiro. A equipe é estreante no modelo full pad (o jogo com equipamentos). Até outubro, jogava torneios no pad (sem equipamentos), com um cartel de dar inveja ao New England Patriots: nove jogos, nove vitórias. Em setembro, venceram o 1° Torneio Farroupilha de Futebol Americano No Pads, atropelando o Viamão Raptors e o São Leopoldo Mustangs - o Pelotas Ants também participou do torneio. Devido ao título, o campo do Cecoris ganhou o apelido de "Cemitério" - porque todos saem de lá derrotados.
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A transição para o futebol americano com equipamentos foi ocorrendo de forma lenta, com os atletas da Restinga juntando dinheiro todos os meses para conseguir importar o material, realizando rifas e galetos para ajudar a compor a "vaquinha" _ um equipamento completo pode custar até R$ 1,5 mil, dependendo da qualidade. Os capacetes ainda são de segunda mão, comprados de outros times do Rio Grande do Sul. Os Redskulls fizeram em 14 de dezembro a sua estreia no jogo com equipamentos. Foi em casa, contra o Ijuí Drones (time que foi vice-campeão estadual em 2013), e, mesmo sem a tradição do rival neste tipo de partida, os caveiras massacraram os Drones por 38 a 0 - algo como uma goleada por 6 a 0, no futebol tradicional.
- Foi uma vitória histórica. Precisávamos começar com moral esta nova etapa do Restinga - comemorou o técnico dos Redskulls, Paulo de Tarso Pillar, ex-wide receiver do São José Bulls.

Aos 27 anos de idade, Pillar é dos poucos "caveiras" a não morar na Restinga. É professor de educação física de uma das mais tradicionais escolas particulares de Porto Alegre. Bem distante, geográfica e financeiramente, da realidade do mais populoso bairro da cidade. O que no começo foi um choque de realidade para o treinador, aos poucos, foi se transformando em admiração e orgulho pela comunidade que passou a representar.
- Antes de trabalhar com os Redskulls, eu não conhecia a Restinga. A minha primeira impressão é que estava indo para outra cidade, levei mais de uma hora para chegar. Pensei que encontraria algo terrível. Mas encontrei pessoas educadas, com uma mentalidade diferente. Os guris já sabiam todos os termos do jogo, as rotas, os lances, tudo. Só ajudei a lapidar - conta o treinador. - Estou há um ano com eles e a mudança ocorreu em mim. Hoje, sou considerado um cara da Restinga. E sou muito feliz porque trabalho com caras que vão fazer de tudo para vencer, pois cresceram sendo menosprezados - acrescenta Pillar.
Se o torcedor de futebol americano no Brasil está acostumado com nomes como Tom Brady (o quarterback do New England Patriots e marido de Gisele Bündchen), Dez Bryant, Aaron Rodgers, Peyton Manning ou Antonio Brown, na Restinga, os novos heróis locais atendem por Negão, Fera, Cuturno, Shongo, Godzilla, Hulk, Ktrak, entre outros.
- Sempre fico nervoso, tentando entender o que acontece, compreender este fenômeno, perceber a grandeza de representar 200 mil pessoas. Você carrega isto nos ombros quando jogo com o nome Restinga - conta Rafael Rodrigues, o Negão, 31 anos, quarterback e líder dos caveiras.
Aos poucos, os Redskulls começam a crescer. Como um dia ocorreu com as famosas escolas de samba, que passaram a tornar o bairro conhecido: Estado Maior da Restinga (nove vezes campeã do carnaval de Porto Alegre) e a União da Tinga _ e até mesmo com o volante Paulo César Tinga, uma instituição do bairro. Os jogadores já são parados na rua para um "selfie" e autógrafos. A nova geração, os caverinhas, também estão a caminho. Os Skulls já têm um projeto de escolinha, com alguns meninos abaixo dos 15 anos, passando a ser formados na base. Prova deste sucesso com a gurizada foram as dezenas de guris brincando com a bola oval, ao lado do campo, enquanto os caveiras massacravam os Drones, no amistoso de estreia do time "full pad".

A partir de 2015, a equipe tentará buscar recursos através de incentivos fiscais, se tornando um clube, a Associação Atlética Redskulls de Futebol Americano. Este ano, a prefeitura já repassou aos Skulls uma área de quase três hectares. Em breve, ela se transformará no primeiro centro de futebol americano do Rio Grande do Sul, com o primeiro campo específico para o esporte - hoje, praticado em gramados de futebol, adaptados.
- Temos uma responsabilidade com a comunidade da Restinga. O nosso time inteiro é do bairro, existe uma identificação muito grande. Entendemos que só teremos sucesso se tivermos a comunidade por trás, estas mais de 100 mil pessoas que moram aqui, eles nos cobram, e através deles, conseguimos tudo que almejávamos até agora - entende Rafael Rodrigues.
Com dois anos de existência, a equipe começou com o nome de Porto Alegre Redskulls. O time passou a ser formado por amigos que praticavam o futebol americano em outras equipes, como o Pelotas Ants, Porto Alegre Pumpkins e São José Bulls. Os atletas já tinham a noção do jogo, moravam perto uns dos outros, então, por que não fundar um novo clube nas cercanias de casa? Por que não levar um novo esporte à Tinga, até mesmo com estímulo à gurizada, a fim de evitar que ingressem em um ciclo provocado muitas vezes pela vulnerabilidade do ambiente em que vivem? E assim foi feito.
- Um dos segredos do Restinga é que os nossos jogadores não têm medo. Muitos deles passaram por uma infância difícil e, isto, vai criando um escudo em todos. Encontrei aqui pessoas muito educadas, trabalhadoras e solidárias. Os Redskulls são o time do bairro, o novo orgulho da Tinga. Temos algo que nenhum outro time de Porto Alegre tem: o apoio da comunidade, uma massa que torce por nós. Em no máximo três anos seremos campeões estaduais - conclui técnico Paulo de Tarso Pillar.
Agora, a Restinga passará a vestir o vermelho e preto, as novas cores dos Redskulls, o novo orgulho da comunidade.
Times equipados no Rio Grande do Sul:
Porto Alegre Pumpkins
São José Bulls
Restinga Redskulls
Juventude FA
Ijuí Drones
San Maria Soldiers
Santa Cruz Chacais
São Leopoldo Mustangs
Full pads, no pads e flag football:
O futebol americano tem três modalidades populares no Brasil. Na "full pads", os jogadores usam os equipamentos de segurança, como capacete e ombreira _ é esta a modalidade que o Redskulls disputa agora. Na "no pads", os times jogam sem os equipamentos, mas o contato normal do futebol americano é permitido. Na modalidade "flag football", comum nos Estados Unidos para crianças na iniciação ao esporte, os atletas usam uma bandeira presa ao calção. O fim das jogadas ocorre quando o adversário retira a bandeira do jogador de ataque em vez da necessidade de derrubá-lo.
*ZHESPORTES





