Em meio às tentativas de socorro e incentivo por parte do governo, o setor automotivo anda de lado nos últimos anos no Brasil. Em um ambiente de juro alto, poder aquisitivo corroído pela inflação e veículos cada vez mais tecnológicos e caros, esse segmento enfrenta dificuldades para impulsionar as vendas e a produção. Hoje, o veículo novo de entrada mais acessível no país custa R$ 68,2 mil, valor considerado elevado no âmbito popular. Nesse cenário, fenômenos como reduções no número de versões e na produção ganham espaço.
Consultores ouvidos pela reportagem de GZH apontam que o anúncio do governo na linha de redução de impostos para carros com preço de até R$ 120 mil é incipiente nessa tentativa de recuperação do setor. O professor Antônio Jorge Martins, coordenador de cursos na área automotiva da Fundação Getulio Vargas (FGV) avalia que um fôlego maior para a indústria passa por redução do juro e incentivo a linhas de crédito mais acessíveis:
— Como 60%, 70% das vendas são feitas via financiamento, torna-se importante a diminuição do custo do crédito, que afeta a população e as instituições financeiras.
O diretor de Desenvolvimento de Negócios da consultoria Jato do Brasil Informações Automotivas, Milad Kalume Neto, estima que a medida anunciada pelo governo deve impulsionar as vendas em 200 mil unidades até o final do ano e permitir veículos de entrada pouco abaixo dos R$ 60 mil, levando em conta subsídios.
Preços
Atualmente, uma breve pesquisa por preços de veículos de entrada novos mostra valores que variam entre cerca de R$ 70 mil e R$ 100 mil, distantes dos verificados em um passado próximo, abaixo dos R$ 60 mil, por exemplo. Para ter noção, hoje, o veículo zero-quilômetro mais barato no Brasil parte de R$ 68 mil na versão mais básica.
Informações da consultoria Jato do Brasil Informações Automotivas mostram que o valor dos veículos mais populares subiu na casa de 200% nos últimos 10 anos. Em maio de 2013, o veículo de entrada mais barato no Brasil era o Ford KA 1.0 Flex, vendido a R$ 21.800 na época. Em maio deste ano, o automóvel mais acessível nessa categoria é o Renault Kwid 1.0 ZEN, comercializado a R$ 68.190. Os valores da pesquisa não foram corrigidos pela inflação, que acumula alta de cerca de 80% no período.
Levantamento da Jato também mostra que o valor médio ponderado dos carros novos vendidos no país está em R$ 140.345,49 até abril deste ano. Em 2016, esse valor médio ficou em R$ 66.311,66. Esse recorte leva em conta todos os modelos e valores de veículos comercializados e também não foi corrigido pela inflação.
O diretor de Desenvolvimento de Negócios da Jato cita a escassez de semicondutores, que deslocaram a produção para os veículos de maior valor agregado, ampla atualização tecnológica, questões econômicas e desvalorização cambial como fatores que ajudam a explicar a alta dos preços dos veículos.
Mix de produtos
Outro fenômeno observado nos últimos anos é o menor número de versões oferecidas nas concessionárias. O diretor de Desenvolvimento de Negócios da Jato afirma que a redução no número de opções de um mesmo veículo oferecido no mercado ocorre para evitar um canibalismo dentro das próprias marcas. Um catálogo com muitas opções em faixas de preço diferentes acaba diminuindo o número de vendas de alguns modelos, segundo o consultor:
— É uma estrutura para você conseguir mais vendas. É um enxugamento natural para otimizar as vendas dentro do próprio segmento e das linhas de produção.
Neto avalia que esse movimento não é determinante para diminuir o número de veículos com valores menores. A baixa oferta desse tipo de carro ocorre por outros fatores, como atualização tecnológica e questões econômicas.
O economista Raphael Galante, da Oikonomia Consultoria Automotiva, também cita o peso da diminuição de custos nesse processo:
— Eu não preciso criar o mesmo produto com 10 versões, porque isso é elevação de custo fabril. Então, as empresas estão otimizando da melhor maneira possível.
O professor Antônio Jorge Martins afirma que esse processo é uma tendência para o futuro das montadoras na busca por maior competitividade e menos estoques:
— O setor tem de obedecer a certos níveis de eficiência para ser mais competitivo. Ter poucas opções de mudança no seu processo produtivo é um fator fundamental nesse processo.
Produção
Nos últimos anos, a produção e venda de veículos vêm apresentando soluções em meio a dificuldade na aquisição de alguns componentes e juro alto, que afasta clientes da busca por financiamento. Dados mais recentes da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) apontam que a produção e a venda de veículos caíram no país. A produção de veículos no Brasil teve queda de 19,4% em abril ante março. Na comparação com o mesmo mês do ano passado, a queda é de 3,9%.
Na avaliação da Anfavea, o desempenho ocorre na esteira da queda na demanda e da paralisação nas linhas de montagens. Desde o início do ano, foram anotadas 13 paralisações de fábricas no país — nove apenas em abril.
O diretor de Desenvolvimento de Negócios da consultoria Jato afirma que o mercado automotivo está estagnado, com produção abaixo da capacidade instalada, o que mostra ociosidade.
Considerando as 26 empresas associadas à Anfavea, são 57 unidades industriais do setor no país, levando em conta máquinas agrícolas e rodoviárias, automóveis, comerciais leves, motores e componentes.

