
Imagine uma cidade que tem tudo de bom que uma cidade deveria ter. Supondo que você tenha uma visão de mundo mais liberal, vou considerar que seu sonho inclui vários parques e calçadão à beira-mar, metrôs impecáveis e ônibus gratuitos, restaurantes com cardápios orgânicos, além de produtos cultivados localmente, bares descolados em prédios históricos e todo tipo de evento, de feiras a cinema e ioga.
Bem-vindo a Perth.
A capital da Austrália Ocidental, onde moram 1,8 milhão dos 2 milhões de habitantes do Estado, deixou este nova-iorquino aqui embasbacado: será mesmo que uma cidade pode ser tão simples, arejada, verde e bem cuidada - um lugar para se viver, e bem, ainda por cima? Eu achava que Williamsburg fosse o paraíso hipster, mas Perth a deixa no chinelo.
Na verdade, foram vários fatores reunidos que, nos últimos 70 anos, puderam transformar o sonho em realidade. Desde os idos de 1880, quando começou a febre do ouro no Estado, a economia de Perth se caracteriza por altos e baixos - mais altos na última década, com ênfase em recursos naturais como urânio, ferro, zinco e gás natural.
Seu estilo de crescimento, porém, vai na contramão do grande-e-ostensivo, fazendo mais a linha eco-fabulosa, ou seja, antiDubai. Ainda assim, há muitos guindastes em toda parte para atender à demanda dos grandes empreendimentos urbanos que não param de surgir.
Do moderno ao antigo em alguns passos
Antigamente, os australianos brincavam dizendo que a sigla do Estado, WA, significava "wait awhile" ("espera um pouquinho"), gozação com o estilo de vida tranquilo do lado ocidental do país, bem diferente do jeito apressado de Melbourne ou Sydney.
Em janeiro, me hospedei no Terrace, hotel boutique que fica em uma casa do fim do século 19, com direito a lambris de carvalho, cama com dossel e pinturas sensuais no melhor estilo art déco. Localizado no ultradescolado Central Business District, representa o paradoxo de Perth, onde lançamentos e inaugurações badalados, geralmente em locais históricos, fazem de tudo para evocar "o antigo". Na Austrália, esse conceito é relativo - já que a cidade foi fundada em 1829 -, mas o resultado sugere combinações interessantes e complexas, como sair de um bloco de prédios comerciais modernos e entrar em um restaurante que "finge" ser da época da Lei Seca.
Artistas celebram o Ano-Novo Chinês em Northbridge
Foto: DAVID PARKER, The New York Times

Passei vários dias explorando os vilarejos urbanos, alguns em Perth mesmo, outros na sua periferia. Northbridge, ao norte do centro, é uma graça durante o dia. As ruas se transformaram em um centro de arte tanto externo - com um mural à la Banksy - quanto interno, no complexo do Centro Cultural de Perth. Ele abriga também o Museu da Austrália Ocidental, a Galeria de Arte da Austrália Ocidental e o Instituto de Arte Contemporânea de Perth, além de dois teatros e uma biblioteca. A praça principal é um delírio urbano extravagante, com direito a uma minipraia falsa, cinema ao ar livre, um "pomar urbano" e um minijardim com lanternas de cores vivas.
Vibe retrô
Tentando fazer caber todos os folhetos na minha carteira - séries cômicas? festival de cinema? feira orgânica? - fui caminhando ao Central Business District. Em breve, a ligação entre os dois bairros será mais atraente, pois a Perth City Link atualmente está transferindo os trilhos que os divide para o subterrâneo, da mesma forma que o projeto do Elizabeth Quay deve incluir calçadões, um hotel de luxo e um centro de arte aborígene, ampliando o Central Business District até o Rio Swan.
Fiquei espantado com a diversidade à minha volta: em uma área de quatro quadras da badalada King Street temos Louis Vuitton e Chanel, calçadões de compras e prédios comerciais e a Uncle Joe's Mess Hall, um verdadeiro paraíso retrô hipster onde você pode cortar o cabelo em uma barbearia das antigas e comer almôndegas veganas de spirulina.
O chef britânico Jamie Oliver acabou de abrir um restaurante italiano por ali, mas as casas mais estilosas têm nomes como Bobèche e Toastface Grillah e dedicam páginas e mais páginas a coquetéis elaborados. Desde que a prefeitura criou uma licença especial para eles, em 2005, os bares pequenos - que também oferecem pratos pequenos - se proliferaram. É possível passar cada noite da semana em um lugar diferente que, um século atrás, abrigava algo bem pitoresco: uma escola técnica (Bar Lafayette), uma fábrica de tecidos (1907), um chalé (The Old Crow) e uma residência com estábulo (The Stables Bar).
Uma passada nas praias
Ir à Austrália Ocidental e não visitar suas praias - que ficam a 25 minutos de metrô do centro - é como ir a Los Angeles e esnobar Malibu.
A água de um e outro é gelada do mesmo jeito, mas o visual de Perth vale muito a pena. Scarborough Beach tem ondas gigantes e banhistas que fazem questão de exibir bronzeado perfeito e tanquinhos idem.
Em Cottesloe Beach, me acomodei com um copo de rosé no Cottesloe Beach, recém-reformado, que deixou de ser um beer garden para se transformar em um hotel estiloso, branco, arejado e a cara retrô de Palm Springs com decoração estilo 1950. A água ali é mais calma, e a costa, enfeitada de pinheiros-de-norfolk.
Do outro lado
A mudança de hotel - em Queens Riverside, área que está sendo descoberta aos poucos - me permitiu ver o outro lado da nova Perth. Uma balsa rápida me levou a South Perth, onde caminhei ao longo do Rio Swan, com seus cisnes negros. Segui rumo norte, para Subiaco, conhecido pela badalada feira de domingo. Várias estações de metrô depois e cheguei a Mount Lawley, onde encontrei uma rádio comunitária, lojas vintage e um show de comédia popular no Brisbane Hotel.
Dose certa de excesso
Antes de partir, fiz dois passeios aos dois minimundos vizinhos de Perth: o histórico Vale do Swan - que não é, na verdade, um vale, mas sim um circuito charmoso de 32 quilômetros -, a região vinícola mais próxima de qualquer capital australiana. Há construções centenárias e sítios aborígenes importantes, mas a grande atração faz qualquer um entrar no ônibus de bom grado: 41 vinícolas refinadas, cinco microcervejarias, duas destilarias e até duas fábricas de chocolate.
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O complexo Crown Perth, recém-renovado, fica na cidade, mas poderia muito bem ser um planeta em si mesmo: cassino, lojas de artigos de luxo, dois hotéis suntuosos e um terceiro em construção. Há um teatro de 2,3 mil lugares que recebe shows como Jersey Boys e 32 restaurantes e bares.
O complexo Crown Perth tem de tudo: de barbearia à moda antiga a piscina e cassino
Foto: DAVID PARKER, The New York Times

Bem instalado sob o guarda-sol azul-cobalto ao lado da piscina lotada de turistas alegrinhos, dei uma olhada na área "exclusiva" para os bambambãs e vi verdadeiras hordas de gente faminta na fila, à espera de atacar o bufê. Eu poderia perfeitamente estar em Las Vegas ou Dubai, mas não me importei. No contexto da cidade liberal, amigável e tão cheia de bossa que Perth se tornou, aquele era apenas um bolsão do que eu chamaria de dose certa de excesso urbano.



