
Muita gente deve ter se surpreendido com a beleza do local mostrado no capítulo de abertura de Império, novela das nove da Rede Globo. No folhetim cercado de mistérios, José Alfredo, o protagonista interpretado pelo ator Alexandre Nero, seguidamente pega seu helicóptero e vai até o Monte Roraima lembrar do passado, onde iniciou sua fortuna com diamantes.
Um dos locais mais bonitos que conheci, o Monte Roraima é uma excelente aventura para quem gosta de trekking, de natureza em estado puro ou está iniciando em montanhas. Tem 2.810 metros e é chamado pelos índios locais, os caribés, de "tepui", que indica um monte em formato de mesa.
É um local mágico, inspirador, um mundo perdido, que tem mais de 2 bilhões de anos. Está localizado dentro do Parque Nacional Monte Roraima, no Brasil, e do Parque Nacional Canaíma, na Venezuela. Para se chegar à montanha, é preciso caminhar 15 quilômetros, sempre subindo.
Estive lá não faz muito tempo, com um grupo de paulistas, e me surpreendi vendo esse cenário aparecer na abertura da novela.
Nossa aventura começa com um voo até a capital de Roraima, Boa Vista. O melhor é montar um grupo e contratar tudo previamente com uma das operadoras que fazem esse roteiro.
Ou acertar tudo lá - guia, entrada do parque, carro, barracas, alimentação. Assim, há mais risco de se entrar em roubadas, mas é mais barato.
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Rumo à montanha

Foto: Alfredo Fedrizzi/ Arquivo Pessoal
Chegando a Boa Vista, pegamos uma van que entra na Venezuela, até a cidadezinha indígena de Paracai. O visto é tirado na fronteira mesmo e, às vezes, é um pouco demorado. A partir daí, fomos de camionete 4x4 até a entrada do Parque Canaíma.
Mochila nas costas com todo o equipamento pessoal - botas de trilha, roupas em camadas, tipo cebola -, fomos em frente. Precisamos estar preparados para muita mudança de temperatura. Em Boa Vista, faz 30°C. Ao chegar à base da montanha, já estamos a 18°C, e, lá em cima, faz 10°C. À noite, cai para 5°C, podendo chegar a 0°C.
É preciso levar muita água, pois as caminhadas são longas. No primeiro dia, são cinco horas caminhando um trajeto de 15 quilômetros até o Rio Ték. Aí, começamos a desfrutar visuais incríveis: riachos, mata, campings naturais, tendo sempre o gigante ao fundo que, gradativamente, vai se aproximando, ora encoberto por nuvens, ora cor de fogo, com o sol refletindo sobre ele.
Os banhos são de rio. As refeições, nas barracas ou em pequenas choupanas-refeitório que existem em alguns locais.
As trilhas são bem marcadas, geralmente em campo aberto, com o sol forte pegando o tempo todo. Sempre subindo. O rumo: aquele grande paredão à nossa frente, que lembra um imenso pedaço de torta, com suas paredes verticais e cachoeiras.
A aproximação da montanha dura dois dias. Depois disso, iniciamos a subida por uma das únicas passagens possíveis, pelo lado venezuelano. No lado brasileiro, é quase impossível subir, pois as paredes são verticais.
No segundo dia, são mais quatro ou cinco horas de caminhada, para fazer os oito quilômetros até a base da montanha, onde vamos dormir a segunda noite, sempre em barracas. O terceiro dia é para subir ao topo. Mais quatro ou cinco horas de subida íngreme. Temos de nos segurar em troncos, rochas e passar dentro de uma cachoeira.
A recompensa no topo

Foto: Alfredo Fedrizzi/ Arquivo Pessoal
Chegando ao topo, o cenário é deslumbrante. Temos a sensação de que, a qualquer momento, poderemos deparar com um dinossauro. Estamos em um ambiente pré-histórico: grandes esculturas em rocha feitas pela natureza, córregos, piscinas naturais, plantas exóticas.
Lá em cima, pode-se fazer inúmeros passeios: Vale dos Cristais, El Fosso ou até o Ponto Triplo, que une as fronteiras de Brasil, Venezuela e Guiana.
Esse cenário já chamou a atenção até de Hollywood. Há poucos anos, o filme de animação Up - Altas Aventuras foi todo inspirado no Monte Roraima.
Não existem hotéis, pousadas ou qualquer estrutura de hospedagem lá em cima. Temos de buscar algum local mais protegido e instalar as barracas. É obrigatório não gerar poluição. Existe uma barraca-banheiro, onde as necessidades ficam armazenadas em sacos plásticos cobertos de cal. Temos de trazer de volta todo o lixo gerado lá em cima. Os banhos são nas inacreditáveis "jacuzzi naturais". Portanto, de preferência com sabonetes e xampus naturais, para não poluir, já que a água vem somente das chuvas.
O cenário deslumbrante é decorado com orquídeas, plantas de 120 a 400 milhões de anos de idade, muitas espécies de beija-flor, além de animais que são encontrados somente lá e em alguns locais da África - o que provaria, segundo alguns especialistas, que a América foi ligada à África.
Um exemplo é uma espécie minúscula de sapo preto com barriga laranja, que só encontramos lá e na África. Aliás, muitos animais são escuros, mimetizando-se com as rochas pretas.
Marco dos três países é atração
Outro passeio, lá em cima, é ir até o marco que sinaliza o encontro dos três países: Brasil, Venezuela e Guiana - 80% da montanha fica em território venezuelano, 15% na Guiana e só 5% no Brasil.
Explorar cada trecho e curtir cada escultura são um enorme prazer para os sentidos. Um cenário que pode servir de inspiração para qualquer paisagista! Sem sombra de dúvida, uma fascinante aventura.
*Alfredo Fedrizzi é publicitário e afeito a aventuras
