
Com o sol poente na retaguarda, o grupo de cavalarianos despontava na Avenida Piratini, com bandeiras, lanças em punho e a Chama Crioula. Enquanto isso, no saguão do Colégio Estadual Júlio de Castilhos, a Banda Marcial Juliana encerrava o Hino da Independência do Brasil e se preparava para dar ritmo a um ritual que completa 70 anos.
No final da tarde desta quinta-feira, mais uma vez, a escola recebia uma centelha da Chama Crioula, antes de o símbolo máximo da cultura gaúcha seguir seu caminho até o Parque da Harmonia, em Porto Alegre, para dar início aos festejos farroupilhas.
Alunos, ex-alunos, professores e tradicionalistas prestavam reverência à solenidade, num esforço coletivo para que a simbologia, criada em 1947 por Paixão Côrtes e outros estudantes do Julinho, não se apague na memória.
– Para nós, isso tudo não é só tradicionalismo, é parte da história da escola – emocionava-se a diretora Fernanda Schmidt Gaieski.
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Entre os convidados para o momento solene, estava Carlos Paixão Côrtes, 53 anos, filho do folclorista e pesquisador de 90 anos, que, com o Grupo dos Oito, reformulou o tradicionalismo gaúcho e fundou, em 1948, o 35 CTG, a primeira entidade do gênero no Estado. Foi a primeira vez que Carlos participou do evento sem a companhia do pai, hospitalizado por conta de um tratamento de saúde.
Ele descerrou, ao lado da diretora da escola, uma placa em homenagem ao ex-aluno ilustre da escola. Outra condecoração também afixou na parede do hall do Julinho uma homenagem aos 70 anos da Chama Crioula.
– Meu pai sempre disse que na chama se queimam as diferenças. Ele sabe da importância dos símbolos e me ensinou isso. O trabalho dele foi contribuir para a identidade do gaúcho, para que nosso povo se orgulhasse das nossas coisas mais simples, como o uso da bombacha, a vida no campo. E isso começou aqui, numa escola. Eu acredito que é pela educação que conseguimos seguir novos rumos, reforçar valores – disse Carlos.
Enquanto os músicos da Banda Marcial Juliana interpretavam clássicos do cancioneiro gaúcho, chamando a atenção de curiosos que passavam em frente ao Julinho ou se debruçavam nas sacadas dos prédios nas redondezas, os cavalarianos se organizavam para seguir viagem até o Acampamento Farroupilha, depois de cumprir a parada obrigatória na escola estadual que marcou a história do MTG.
– Podemos dizer que aqui é o marco zero do MTG. Por isso que, anualmente, repetimos este ato. E assim sempre vai ser – comemorava o presidente da entidade, Nairo Callegaro.
Como nasceu o Grupo dos Oito
Foi entre os muros do Julinho que, em 1947, João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes, rapaz recém-chegado de Santana do Livramento, junto a colegas como Barbosa Lessa, encabeçou a criação do Departamento de Tradições Gaúchas da escola, semente do MTG que hoje se conhece. O grupo acompanhou a cavalo e pilchado o traslado dos restos mortais do general farroupilha David Canabarro e ficou conhecido como Grupo dos Oito.
Os estudantes se empenharam em ampliar o culto às tradições gaúchas e, a partir disso criaram, aproveitando as comemoração da Independência do Brasil, criaram a Chama Crioula, fruto de uma centelha do Fogo Simbólico da Pátria. Paixão Côrtes, em razão da idade avançada, prefere não conceder mais entrevistas.
Em sua mais recente aparição pública, no Jornal do Almoço de 8 de julho, exibido na RBS TV, ele celebrou seus feitos: "É uma alegria ver que uma ideia que nasceu há 70 anos cresceu, multiplicou-se, deixou de ser um pensamento para ser uma ação humana"..

