
Com a gradativa redução no número de pacientes internados por covid-19, hospitais de Porto Alegre estão enxugando aos poucos as estruturas destinadas à doença e retomando os leitos para atendimento em geral – uma demanda represada no auge da pandemia e que agora volta com força.
O número de hospitalizados em estado grave por coronavírus nesta segunda-feira (2) na Capital é o menor em pouco mais de um ano, de acordo com o painel da Secretaria Municipal da Saúde (SMS). São 171 pessoas em UTIs, duas a mais do que havia no dia 5 de julho do ano passado.
Diante do cenário de maior tranquilidade, o Grupo Hospitalar Conceição pôde desativar seis leitos de UTI da ala covid e resgatar a função original deles: a de recuperação. São espaços que, antes da pandemia, serviam para acomodar pacientes que passam por uma cirurgia e precisam aguardar o fim do efeito anestésico – oferta que, segundo o diretor-técnico da instituição, Francisco Zancan Paz, tem sido de maior utilidade.
— No momento, a ala de recuperação passa a ser mais importante que a disponibilidade para tratar a covid-19. Os leitos que temos para covid já estão atendendo plenamente à demanda. Estamos adequando o hospital à nova realidade — diz.
Se no auge da pandemia, em março deste ano, o Conceição tinha 75 leitos de UTI para atendimento em geral – e a maioria era ocupada para tratar da covid-19 –, agora são apenas 29 leitos destinados à doença. Desses, 24 estavam em uso nesta segunda-feira (2).
Porta de entrada para atender quem tem coronavírus, a emergência do Conceição também passou por uma redução brusca na oferta de vagas. O hospital chegou a ter 58 pacientes suspeitos e confirmados quando a pandemia batia recordes. Em julho, com o avanço da vacinação, o número de vagas caiu para 15, e agora, quando Porto Alegre tem 45% da população imunizada inclusive com a segunda dose, são apenas seis vagas na emergência para receber quem chega com sintomas de coronavírus.
É um ambiente de alívio.
— A demanda é baixíssima, e outra coisa: nosso pessoal está supertreinado, não tem mais a ansiedade que se tinha no início da pandemia. Os casos graves estão diminuindo, a idade dos internados está diminuindo também – a média está em torno de 55 anos. Deixou de ser paciente idoso, em situação de muita gravidade. Então, o hospital está mais tranquilo. E a emergência, que era um lugar de muito pânico, agora está funcionando adequadamente. Recebe todo tipo de paciente e tem uma ala adequada para covid – reforça Zancan Paz.

Outras doenças
Nos piores dias da pandemia, a Santa Casa chegou a ter 187 pacientes com a covid-19 na UTI, além de outros 37 na ventilação mecânica, distribuídos em salas de emergência, leitos cirúrgicos e de recuperação.
Hoje, o complexo vive um cenário em tudo diferente. A ala covid foi reduzida para 57 leitos – 34 de UTI, para os casos graves, e outros 23 leitos clínicos, para os casos moderados da doença. Apenas 21 pessoas estão recebendo tratamento nesses dois setores – quando o número cair para 15, a instituição vai avaliar reduzir as ofertas da ala covid pela metade.
— Estamos em uma situação bem tranquila, de alívio em relação à covid. Porém, as outras doenças nos colocam em lotação. Hoje, é mais fácil conseguir leito para tratar covid do que não covid. No auge da pandemia, muitos pacientes que não puderam vir por outras doenças estão chegando em volume significativo — diz o diretor-técnico da Santa Casa, Ricardo Kroef.
Segundo ele, muitas pessoas que deixaram de buscar ajuda médica pelo medo de pegar coronavírus nos corredores dos hospitais já chegam para atendimento com o quadro agravado.
— Eles vêm em número maior e com piora do quadro clínico. Ficaram muito tempo em casa, e os casos agudos, como novos casos de câncer, têm o diagnóstico retardado porque o paciente não procurou recurso médico. É o que estamos vendo não só aqui, mas no mundo inteiro.
Os 82 leitos de enfermaria do Hospital de Clínicas já ofertados para tratar de covid-19 foram gradativamente sofrendo cortes conforme diminuiu a necessidade. Na semana passada, esse número chegou a 12 leitos – e apenas oito estavam ocupados nesta segunda-feira (2). O CTI, que recebe pessoas em estado crítico, não sofreu tanta redução: eram 135 leitos no auge da pandemia e caiu para 105 em maio, oferta que a instituição decidiu manter mesmo que apenas 45 desses leitos estejam ocupados, menos que a metade.
De acordo com a coordenadora do Grupo de Trabalho para o enfrentamento ao coronavírus no Clínicas, Beatriz Schaan, a instituição analisa a possibilidade de desativar esses leitos de CTI e voltar a usá-los para outras demandas.
— Como a gente tem um número grande de leitos desocupados, estamos discutindo a redução deles. Estamos bem tranquilos e observando o quadro externo — diz ela.
Possibilidade de nova onda de contágios
Um fator que pode reverter o cenário de maior tranquilidade é a variante Delta do coronavírus, considerada mais contagiosa e já presente no Rio Grande do Sul. Embora ainda não esteja confirmado que ela provoque mais internações, pode causar uma nova onda de contágios e voltar a sobrecarregar a estrutura dos hospitais.
Para Kroef, diretor-técnico da Santa Casa, ainda assim é mais urgente desativar os leitos não ocupados e destiná-los a quem deixou de ter acompanhamento médico durante a pandemia.
— No quadro atual, é mais arriscado deixar outras doenças sem assistência. É muito arriscado não atender esses pacientes. O que vemos dessa nova variante? Uma coisa é aumentar o número de casos, outra é aumentar número de casos que necessitem de internação — pondera ele.
Na avaliação de Betriz Schaan, do Clínicas, a intensa campanha de vacinação pode ajudar a frear novas contaminações.
— Não podemos fechar tudo e daqui a pouco ter um boom de casos, mas estamos observando e discutindo internamente essa possibilidade. Frente a uma vacinação avançada, mesmo que tenhamos um aumento de casos, é o único momento em que podemos ter um aumento de caso com uma população vacinada. Não é maravilhoso, mas é melhor do que em março, quando não havia vacinados — observa.




