O anúncio da farmacêutica norte-americana Moderna sobre a eficácia preliminar de 94,5% de sua vacina experimental contra a covid-19 surpreendeu até mesmo os pesquisadores. Conforme o jornal The New York Times, eles disseram que os resultados foram "melhores do que eles ousaram imaginar". Muito provavelmente porque, em junho, o Food and Drug Administration (FDA, órgão americano equivalente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária) atualizou suas diretrizes e considerou que uma vacina com 50% de eficácia já poderia ter uso emergencial autorizado.
Por aqui, a divulgação também é vista como "extremamente animadora". Contudo, Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), lembra que os resultados não foram dados pela área médica da farmacêutica e que eles ainda não foram publicados.
— Foi um anúncio feito pelo CEO da empresa, que antecipou, em uma análise interina de alguns casos que aconteceram em estudo de fase três, que a eficácia aponta para esse valor acima de 90%. Esse é um dado muito bom para quem esperava eficácias mínimas de 50% para aprovação de uma vacina. Ter estudos apontando eficácia acima de 90% é extremamente animador. Porém, precisamos separar bem o que é anúncio do que é um dado científico — pondera.
Daniel Mansur, professor de imunologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e membro do comitê científico da Sociedade Brasileira de Imunologia, segue o mesmo raciocínio.
— São resultados preliminares, o que significa que, em uma população desse tamanho amostral, possivelmente não tenha uma diversidade muito grande de raça, de onde vieram, classe social etc. Os resultados são muito encorajadores mesmo, mas a gente não sabe ainda qual vai ser o impacto da vacina na população como um todo — avalia.
A cautela tem explicação: o dado divulgado nesta segunda-feira (16) não se atém a particularidades como população abrangida nesses resultados — a Moderna se limitou a dizer que uma parcela era de pessoas com 65 anos ou mais — nem se o imunizante preveniu a infecção ou a hospitalização. Kfouri explica que, no momento, o poder estatístico dessa amostra ainda não é suficiente para ter margem de erro pequena.
— Por isso, precisa acumular mais casos para que as próximas análises confirmem ou não essa estatística. De qualquer forma, são notícias muito boas — observa o diretor da SBIm.
Para além da discussão sobre a eficácia do imunizante, os especialistas também veem com bons olhos a novidade trazida pela Moderna e pela Pfizer: ambas trabalham com a plataforma genética, ainda inédita no campo das vacinas. Esse modelo não usa produtos biológicos, apenas sintéticos, e tem possibilidade de produção em maior escala. Em contrapartida, por se tratarem de material genético, exigem temperaturas muito baixas para se manterem, dificultando sua implementação em programas de saúde de países como o Brasil.
O imunizante da Moderna ainda larga na frente: pode ficar por até um mês refrigerado, enquanto o da Pfizer requer uma temperatura de -70°C.
— No Brasil, essa vacinação é praticamente inviável por causa da cadeia de necessidades que ela gera — finaliza Mansur.


