
A chegada de um inverno que promete ter mais dias frios do que o ano passado dá alguma esperança à indústria da moda gaúcha, setor que teve dificuldades com a enchente de maio. O Dia das Mães, por exemplo, data considerada mais importante do que o Natal por lojistas e fabricantes de artigos femininos, passou quase batido no quesito vendas, sendo um prejuízo que não se recupera, segundo Idalice Manchini, vice-presidente da Fecomércio-RS:
— Julho promete ser um mês frio e sem muita chuva, a indústria vai se aquecer um pouco. Quem ainda tem indústria, né? Quem não tem terá que voltar a fabricar. Lojistas e consumidores precisam ter em mente comprar da região e ajudar quem está aqui.
A ideia de comprar localmente nunca foi tão importante como agora, uma noção que já fazia parte da cartilha de quem está interessado em moda sustentável. Conforme a professora da Unisinos e pesquisadora em Economia Criativa, Paula Visoná, investir em produtos feitos na sua cidade, no seu bairro ou no seu Estado é um movimento que já está em curso após a enchente, da mesma forma que foi bastante incentivado durante a pandemia de coronavírus:
É importante, enquanto cidadãos, começarmos a nos questionar sobre o futuro que queremos para nós, nossa cidade, nosso Estado
PAULA VISONÁ
Professora e pesquisadora
— Vejo uma onda muito positiva de solidariedade e de colaboração com os negócios e marcas locais. Imagino que isso vá produzir impactos positivos para manter os negócios que foram impactados direta ou indiretamente, sobretudo empresas pequenas.
A vice-presidente comercial do Sindilojas Porto Alegre, Rose Ingrid Müller, concorda que o olhar solidário para a economia local é uma das saídas desse momento desafiador, na medida em que ajuda a manter os empregos e os impostos dentro do Estado:
— O que ficou de positivo de uma situação trágica é o trabalho que está acontecendo para promover marcas gaúchas. E se a gente conseguir aprofundar e mostrar quantas pessoas são impactadas por cada comércio? Isso gera uma corrente que pode ser o resgate de toda essa tragédia.
Diante desse cenário e de olho na estação que acaba de começar, Donna apresenta um resumo de tendências para o inverno 2024 e conversa, a seguir, com marcas da moda gaúcha sobre os desafios que enfrentaram no último mês e as estratégias que estão traçando para garantir a viabilidade dos seus negócios daqui para frente.
O que esperar
As principais tendências da estação já estão nas vitrines, nas redes sociais e nas ruas. Na avaliação da personal stylist Sabrina Garcia Gauss, o principal expoente é a silhueta oversized, com peças amplas e confortáveis. A dica é equilibrá-las com itens ajustados e fluidos para compor uma estética mais moderna:
— Depois da pandemia, nunca mais abrimos mão do conforto. Teremos muito volume, misturado com o jogo de proporções entre as peças para que o look não fique com cara de desleixo.
A estação também traz o que há de melhor de décadas passadas, o que pode ser percebido na releitura de tecidos, padronagens e modelagens já conhecidas. Um exemplo são os blazers alongados, que voltam curtos, remetendo ao clássico tweed e com gola careca da Chanel. Também voltam as peças em veludo e os acessórios em animal print.
— Terá uma valorização das peças de renda e de lingerie à mostra. O jeans vem forte, compondo looks monocromáticos. A jaqueta bomber é outra bola da vez, desde a mais tradicional até a bordada — aposta Sabrina.
A temporada terá os tradicionais casacos de lã batida, em comprimento mídi ou sobretudo, mas a novidade é que eles aparecem nas tonalidades da estação: verde militar, roxo, variados tons de vermelho e na cartela de cores clarinhas como off-white, bege e nude.
Os tricôs também estarão presentes, especialmente os feitos à mão, orienta Sabrina:
— É uma peça que faz a diferença. Nessa temporada, o ponto é largo e o modelo é amplo e solto, para que a mulher possa usar por cima do look ou com um cinto.
Possivelmente a tendência mais divertida, as meias-calças coloridas, estarão com tudo, confeccionadas em tons vibrantes de vermelho, roxo e verde, ou então com pontos de luz e renda. Também ganham espaço os acessórios grandes, como as bolsas, além de itens para o cabelo como chapéus, flores, laços, presilhas e piranhas.

Novas demandas
Há mais de 40 anos no mercado, a marca de tricô Maria Pavan, na zona sul de Porto Alegre, não foi atingida diretamente pela enchente, mas teve sua rotina sacudida pelos acontecimentos do mês passado. A empresa de 80 funcionários viu as vendas do varejo estagnarem e enfrentou a difícil tarefa de tentar escoar encomendas de mercadoria para fora do RS ou do país. Na ideia de seguir trabalhando, já que estava em plena safra do tricô, mas sensibilizada com a situação das pessoas desabrigadas, a marca teceu toucas, meias e descobriu a vocação para a produção de cobertores.
— Durante quase um mês, 20% da fábrica focou nessa produção, gastamos uma tonelada e meia de fios. Fomos aprimorando o ponto, foi ficando tão legal que alguns dos nossos fornecedores de fora do Estado começaram a entrar em contato para doar matéria-prima, e alguns grupos de empresários compraram quantidades grandes dos nossos cobertores para doar — afirma a cofundadora da marca, Letícia Pavan.
Passado o pior momento, ficou o know-how que será empregado futuramente em cobertores da marca Maria Pavan. Letícia avalia que, embora maio tenha tido poucas vendas, em que praticamente ninguém estava “com cabeça para consumir”, é possível que agora haja uma nova demanda por peças quentes, vinda especialmente de quem destinou parte das suas roupas às pessoas que estavam passando dificuldades na enchente:
— Dando uma visão como empreendedora, dona do meu negócio, penso que muitas pessoas doaram as suas roupas, pegaram o que tinham no roupeiro e passaram adiante. Elas vão precisar renovar o guarda-roupas delas e vão precisar comprar, então acredito que parte da demanda vai vir daí, que vai existir essa busca pelo tricô, principalmente se o frio continuar.
As apostas da Maria Pavan são em tricôs em tons terrosos, como ferrugem, terra, e também os neutros off, nude, vinho e bordô. Uma novidade é a produção de calças fusô, modelo que era famoso nos anos 1980 e que tem uma espécie de alça na barra, que fica presa sob o pé. Na parte de cima, a empresa investe em modelagens amplas e alongadas para capas, echarpes e blusões.
— Capa, echarpe ou kimono é a terceira peça que vai dar a cereja do bolo, aquela que você só joga por cima de um look mais básico e deixa ele completo — afirma Letícia.

Vale um futuro melhor
A natureza não escolhe a vida de qual sujeito vai bagunçar, mas para a designer de produtos Amanda Py Camargo é impossível não ficar com a sensação de que a água se revoltou justamente contra uma aliada. Há quatro anos, ela comanda a Re.Sí, uma empresa que faz acessórios com couro reaproveitado da indústria calçadista do RS. Amanda e a sua equipe de cinco funcionários ficaram 26 dias sem conseguir entrar no ateliê, que foi invadido pela enchente no 4º Distrito de Porto Alegre. Quase tudo foi perdido: bolsas, mochilas, pochetes, acessórios, aviamentos, matéria-prima e boa parte do maquinário.
— Se já achava antes que qualquer empresa precisa ter como base a sustentabilidade e o cuidado com o que já existe, agora fica mais claro ainda que esse cuidado é necessário — pontua Amanda.
Desde que tudo aconteceu, a pergunta que a designer mais tem recebido é: “tem alguma forma de recuperar esse couro?”, e a resposta é que não tem. No entanto, a empresária encontrou uma solução temporária que tem dado certo: os vales-futuro. Com valores entre R$ 50 e R$ 500, a marca propõe que os clientes ajudem agora e recebam o produto assim que a produção for viabilizada novamente.
— Deu super certo, estamos conseguindo nos manter e começar a reestruturar graças a isso. O valor integral é transformado em valor para comprarmos produtos. A ideia é conseguir manter nosso espaço e nossos colaboradores para podermos recomeçar. Brinco que temos uma relação com as nossas clientes que parece uma comunidade, elas nos defendem, nos vendem, confiam na gente e querem muito que a gente continue, e por isso tivemos muita divulgação e compartilhamento. Recebemos tanto carinho que precisamos continuar, embora o golpe tenha sido pesado.
A marca trabalha sempre com produtos atemporais, evita seguir tendências e utiliza o material que está disponível em cada época. A ideia é que as peças não sejam finitas, sejam sempre usáveis, mais um dos preceitos da moda sustentável. Para a pesquisadora Paula Visoná, o momento é de reflexão inclusive sobre como o mundo fashion pode contribuir para um horizonte menos tempestuoso:
— É importante, enquanto cidadãos, começarmos a nos questionar sobre o futuro que queremos para nós, nossa cidade, nosso Estado, e como esse futuro pode acolher a crise climática, não só sendo resilientes, mas também construindo soluções.


