
No primeiro plano de Corpo Elétrico, filme que entra em cartaz nesta quinta-feira nos cinemas, Elias está na cama, nu, relaxando e relatando um sonho ao seu parceiro. O longa de estreia do mineiro Marcelo Caetano (corroteirista de Mãe Só Há Uma, ator em Boi Neon, assistente de direção em Tatuagem) termina com uma referência a esse sonho, que tem a ver com o mar e o verão que se aproxima. O que ocorre nesse meio tempo – espécie de antítese ao universo idealizado pelo protagonista – é a narrativa deste belo filme nacional exibido nos festivais de Roterdã, Hong Kong e Cracóvia e premiado com o troféu destinado aos títulos de temática gay em Guadalajara.
Kelner Macêdo interpreta Elias, jovem de 23 anos vindo da Paraíba que trabalha em uma pequena fábrica de roupas de São Paulo. O lugar é pequeno, quase insalubre, a rotina é difícil e o patrão não é dos mais simpáticos, mas as relações de trabalho que se estabelecem vão na contramão de uma tendência que vem, no mínimo, desde São Paulo S.A. (de Sérgio Person, 1965), que ressalta a opressão da engrenagem industrial sobre o indivíduo que nela se insere. Estilista sonhador, tal qual o protagonista de Boi Neon (Gabriel Mascaro, 2015), Elias tem uma beleza radiante e age como quem celebra o afeto onde este se faz possível – na amizade com os colegas costureiros, na perspectiva de conhecer um recém-chegado imigrante de Guiné-Bissau (interpretado por Welket Bungué), na possibilidade de uma transa fugaz com o sujeito que encontra em uma lancheria do bairro.
Caetano diz ter se inspirado no poema homônimo de Walt Whitman, que celebra a beleza dos corpos ("E se o corpo não for a alma, o que será a alma?", diz um de seus versos). Para tanto, a fotografia de Andrea Capella cumpre função primordial, apostando em um naturalismo que exalta com discrição a pele e os olhares dos personagens – e, além disso, a própria capital paulista, que aparece em ângulos inusuais, ora em planos longos e abertos (destaque para o plano-sequência da saída da fábrica rumo a uma festa), ora ressaltando a claustrofobia dos espaços reduzidos nas regiões centrais da metrópole.
Pela exaltação dos corpos e, principalmente, pela abordagem amoral de movimentos que se dão em um contexto nem sempre amigável, Corpo Elétrico remete a Madame Satã (Karim Aïnouz, 2002). Mas é interessante notar a mudança de perspectiva, na comparação com a cinebiografia da emblemática drag queen da noite carioca dos anos 1920, sobretudo quando entra em cena o núcleo de drags de Corpo Elétrico (que tem na cantora e performer Linn da Quebrada um de seus destaques, inclusive ao apresentar uma espécie de número musical): ainda que o preconceito e outros obstáculos à liberdade de expressão persistam quase um século depois, parece mais plausível celebrar a vida em sua plenitude mantendo comportamentos que fogem da chamada heteronormatividade.
É claro que, nestes tempos de ascensão global do conservadorismo, o preconceito segue se fazendo presente, e bem claramente. Mas Marcelo Caetano escolheu outro caminho. Deu certo também porque, mesmo exaltando a alegria de viver de um personagem cativante, não fechou totalmente os olhos para a asfixia que a sociedade é capaz de lhe impor.
CORPO ELÉTRICO
De Marcelo Caetano
Drama, Brasil, 2017, 94min.
Estreia nesta quinta-feira.
Em Porto Alegre, pode ser visto no CineBancários e no Espaço Itaú.
Cotação: muito bom.




