
Os homicídios, latrocínios e roubos diminuíram no sul do Estado nos últimos anos, mas os indicadores relacionados à violência de gênero continuam chamando atenção de pesquisadores.
Essa é uma das principais conclusões do Mapa da Violência Zona Sul 2026, divulgado pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel) e baseado em dados da Secretaria Estadual da Segurança Pública até 2025.
O estudo reúne informações de 29 municípios da Zona Sul, Campanha, Centro-Sul e Vale do Rio Pardo e busca identificar tendências regionais da criminalidade.
Entre os dados mais expressivos está a redução dos homicídios. Em 2022, a região registrou 154 vítimas. Em 2025, o número caiu para 71. Em Rio Grande, a queda foi de 91 para 17 casos no período. Em Pelotas, passou de 18 para 9.
Também houve redução nos crimes patrimoniais. Os roubos caíram de 2.909 registros em 2022 para 1.312 em 2025. Em Pelotas, os casos passaram de 1.284 para 548. Em Rio Grande, de 1.127 para 472.
Os furtos seguiram tendência semelhante, passando de 11.414 ocorrências para 8.949 no mesmo período.
Já os casos de latrocínio, roubo seguido de morte, chegaram ao menor patamar da série. Em 2025 foram registrados apenas dois casos na área analisada, um em Canguçu e outro em Santana da Boa Vista.
Segundo o professor da UCPel e coordenador do levantamento, Aknaton Toczek Souza, a pesquisa permite observar transformações graduais no perfil da criminalidade regional.
— O que percebemos é um movimento de redução dos crimes patrimoniais violentos e dos homicídios, mas também uma mudança para outras modalidades, como fraudes, extorsões e crimes praticados em ambientes digitais.
Violência de gênero permanece em destaque
Se os indicadores de homicídios e roubos apresentaram queda, os dados ligados à violência contra a mulher seguiram outro caminho.
Os registros de ameaças passaram de 8.075 casos em 2022 para 9.444 em 2025 na região analisada. Pelotas liderou os registros no último ano, com 3.223 ocorrências, seguida por Rio Grande, com 1.913.
Violência contra a mulher
O descumprimento de medidas protetivas também permaneceu elevado. Foram 1.220 ocorrências em 2025. Pelotas registrou 435 casos e Rio Grande outros 302.
Outro indicador que cresceu foi o de perseguição, que passou de 566 registros em 2022 para 873 em 2025. Já os casos de violência psicológica contra a mulher mais que triplicaram no período, saltando de 203 para 693 ocorrências.
Para Souza, os números revelam um desafio que vai além da atuação policial.
— Os crimes de gênero têm uma dimensão muito cultural. A gente precisa de políticas públicas de longo prazo, de formação e educação, porque esse tipo de violência não se resolve apenas com medidas repressivas.
Mais denúncias ou mais violência?
Uma das discussões levantadas pelo estudo é se o aumento dos registros representa mais violência ou apenas mais denúncias.
Segundo o pesquisador, os dois movimentos acontecem simultaneamente.
— Hoje existe uma compreensão maior sobre o que é violência de gênero. Muitas situações que há 20 anos sequer eram percebidas como violência passaram a ser identificadas e denunciadas. Mas, ao mesmo tempo, os dados mostram que também existe um crescimento real de determinadas formas de violência contra as mulheres.
O pesquisador aponta ainda o fortalecimento de discursos misóginos em ambientes digitais como um fator que merece atenção.
— Temos observado um aumento de discursos de hostilidade contra mulheres, especialmente entre grupos jovens. Isso aparece como um elemento importante para compreender parte desses indicadores.
Ferramenta para políticas públicas
Produzido desde 2019, o Mapa da Violência reúne professores, pesquisadores e estudantes da graduação e pós-graduação da UCPel. Segundo a universidade, o objetivo não é apenas divulgar números, mas fornecer subsídios para pesquisas e formulação de políticas públicas.
— O mapa não é um fim. Ele é o começo de novas perguntas. Quando encontramos um indicador diferente em determinado município, a ideia é justamente investigar por que aquilo está acontecendo e como a realidade local pode ajudar a explicar os números — afirma Souza.
O levantamento completo está disponível para consulta pública no site do grupo Arena Sociológica da UCPel.
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