
A viúva do agricultor Marcos Nörnberg, 48 anos, que morreu durante uma ação da Brigada Militar, em Pelotas, no sul do Estado, em janeiro, escreveu à mão uma carta para ser entregue ao governador Eduardo Leite. A agricultora Raquel Nörnberg, junto de outros familiares do produtor rural, está, na manhã desta quinta-feira (26), no Palácio Piratini, em Porto Alegre. A família tem encontro com o governador para entregar um abaixo-assinado.
— Eu continuo otimista. Tem dias que não estou. Eu preciso acreditar que a justiça vai ser feita. Que as pessoas que organizaram, que liberaram, e que executaram essa ação sejam responsabilizadas cada uma com a sua culpa, com a sua responsabilidade. E eu preciso ter essa esperança — disse a viúva, pouco antes do encontro com Leite.
Raquel escreveu uma carta onde narra ao governador o seu relato sobre o que aconteceu na madrugada de 15 de janeiro. A agricultora diz ter sido torturada pelos policiais, após seu marido ter sido morto numa troca de tiros. Os policiais ingressaram na propriedade pensando que o local era ocupado por assaltantes. A informação estava equivocada.
— Foram vários crimes. A gente teve uma invasão a uma propriedade, sem mandado judicial e sem causa provável. A gente teve tortura e a gente teve um homicídio. Então, são três crimes que precisam ser investigados. Eu trago hoje também aqui essa carta, onde eu escrevi tudo que aconteceu comigo naquela noite que eu vou entregar para o governador, porque eu acredito que eu não vou ter tempo de falar. Então, eu vou deixar, vou entregar em mãos todo o relato do que aconteceu comigo naquela noite com o meu marido e com a minha família — disse.
Abaixo-assinado
O documento, que foi lançado de forma online pela família do agricultor, defende medidas de maior transparência na atuação dos policiais. A mobilização reúne assinaturas de pessoas que apoiam mudanças em procedimentos de segurança pública. Entre as propostas, está a implementação de câmeras corporais para policiais militares no interior do Estado, além da realização de exames toxicológicos aleatórios e periódicos.

— É uma luta de várias mãos em busca de segurança. Tenho familiares e amigos na BM. Tenho pessoas da comunidade. É segurança para todos, inclusive para a Brigada Militar. Além disso, a gente busca as garantias de que exista obrigatoriedade não somente compra de câmeras. A gente fica à mercê de usar ou não. Tem que ser uma lei — disse a viúva.
Em entrevista anterior a GZH, a viúva já havia defendido que, se os policiais utilizassem câmeras, a ação realizada na propriedade rural teria sido mais prudente. Ela argumenta que a tecnologia protegeria ambas as partes, evitaria abusos e agilizaria as investigações.
— A gente quer um pouco de humanidade nas abordagens - disse.
Além da viúva, outros familiares, como os enteados, participam do encontro com o governador.
Os 18 policiais envolvidos na ação estão afastados temporariamente. As investigações indicam que os policiais seguiram uma pista errada dada por criminosos presos pela Polícia do Paraná. Eles indicaram, de forma equivocada, o endereço de Nörnberg como sendo um depósito de armas e drogas na zona rural de Pelotas.

Câmeras corporais
Atualmente, o monitoramento por câmeras corporais na BM ocorre apenas em municípios da Região Metropolitana. A Brigada planeja iniciar o uso de câmeras corporais nas fardas dos policiais no interior do Estado ainda em 2026. Entre as cidades que devem receber o investimento está Pelotas. O recurso para aquisição dos equipamentos – R$ 24,1 milhões – é fruto de um convênio do governo estadual com o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), assinado em dezembro de 2025.
— Nós próximos dias em que acredito que deve sair algum resultado a gente vai saber o tamanho da luta que a gente vai travar. Eu não vou parar de lutar. Não vou desistir. Eu preciso que isso seja resolvido para que eu consiga continuar a minha vida — afirmou Raquel.
"A gente precisa reduzir a chance de erros", diz governador
Ao final do encontro, o governador conversou com a imprensa sobre o caso do agricultor, e reforçou que os pedidos da família serão considerados.
— Manifestei mais uma vez a ela que lamento profundamente que tenha se imposto uma dor enorme a uma família a partir de uma ação do Estado, que está muito focado em reduzir os indicadores de criminalidade, mas que, sem dúvida nenhuma, não pode expor nenhum dos seus cidadãos a riscos. Essa família foi colocada nessa situação, e, infelizmente, perdemos a vida do Marcos — disse.

Sobre os pedidos encaminhados pela família, no abaixo-assinado, que reúne 27 mil assinaturas, o governador afirmou que o governo está determinado a expandir o uso das câmeras corporais.
— Recebo esse pedido com uma preocupação sobre a continuidade desse processo de expansão. Pedi à Secretaria de Segurança Pública que avalie, inclusive, estabelecermos um plano de expansão, que ao longo desses próximos anos possa garantir que a gente tenha as câmeras em todo o Estado. Inclusive, se for o caso, estabelecendo um regramento, por decreto ou lei — afirmou.
Ainda sobre os exames toxicológicos, o governador disse que a política será revisada, assim como os processos de capacitação.
— São homens e mulheres, seres humanos, que compõem a instituição, mas agem em nome do Estado. A gente precisa reduzir a chance de erros e, sem dúvidas, garantir que a população esteja sempre segura. A Brigada Militar faz um trabalho importante, respeitável, admirável. Tem sido muito importante para os indicadores de criminalidade. Quando ocorre uma situação como essa, a gente não pode deixar de fazer toda a revisão de todos os processos internos para evitar que se exponha qualquer cidadão honesto, de bem, a risco e à morte — declarou.
Investigações seguem em andamento
A morte de Marcos Nörnberg é alvo de duas investigações paralelas: uma da Corregedoria da Brigada Militar e outra da Polícia Civil. As investigações apuram as condutas dos policiais envolvidos e quais crimes teriam sido cometidos. Até o momento, as apurações ainda não foram concluídas. A viúva já foi ouvida nas duas investigações, assim como outros familiares e os policiais que participaram da ação.
Segundo Raquel, a abordagem ocorreu durante a madrugada, por volta das 3h, quando homens armados teriam entrado na propriedade. O agricultor não teria acreditado que se tratavam de policiais e houve troca de tiros. Conforme a viúva, ela e o marido pensaram que eram criminosos que tinham invadido a propriedade.
Como parte da apuração conduzida pela Brigada Militar, uma simulação do caso deve ser realizada nas próximas semanas, com o objetivo de reconstituir a dinâmica da ocorrência.



